terça-feira, 26 de junho de 2012

Sobre as incertezas do caminho

"Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida."  - Guimarães Rosa

Começo hoje com uma das minhas frases preferidas de Guimarães Rosa. Nenhum caminho é fácil e bonito o tempo inteiro. Sempre, em algum momento, o peregrino passará por trechos difíceis, seja num caminho real ou simbólico como a vida.



Viver é perigoso! Muito perigoso! Existem uma porção de riscos que podem dificultar, atrasar ou mesmo impedir a caminhada. Mas ao contrário de uma caminhada convencional, em que os perigos e riscos são claros e concretos (trechos de difícil passagem, o clima, animais selvagens, perder-se da trilha...), na vida a coisa é um pouco diferente. Boa parte das vezes, os perigos que mais nos paralisam são tão bem disfarçados que nem os reconhecemos como ameaças. Não falo daqueles riscos óbvios que de pronto reconhecemos (por exemplo, a violência, problemas de saúde, acidentes...). Não. Falo de algo mais sutil. Perigos que muitas vezes não reconhecemos assim, só de olhar para eles, e sim quando olhamos para dentro de nós mesmos e notamos os medos, dilemas, inseguranças, angústias, tristeza, sentimento de vazio...

Como psicóloga, acho muito saudável e produtivo que tais sentimentos existam e possam se manifestar. Porque quando não se manifestam como sentimentos, com certeza encontrarão outra forma de vir à tona. Sintomas psicossomáticos, por exemplo: dores, resfriados, gastrite, alergias... ou até problemas mais sérios.

Mas que perigo seria esse, tão bem camuflado? Apesar de poder se apresentar com muitas faces, podemos resumir com o termo "anomia", que significa falta de sentido. As situações limite (as muitas faces desse grande risco) muitas vezes se apresentam na vida de todos nas formas de problemas como doenças graves, o hoje tão falado bullying, as competições desleais e intrigas entre colegas de trabalho, perder o emprego, acidentes graves, crises no casamento, términos de relacionamentos, problemas familiares, a miséria, a morte de pessoas queridas, entre muitas outras faces. A falta de sentido é a sensação que fica sempre que algo nos atinge e nos faz pensar "e agora?? Como posso continuar depois disso??" É como se a gente tivesse as melhores intenções de ir em direção a uma meta... mas a vida nos joga para o outro lado como se fossemos sacos de areia.

Isso me faz pensar numa notícia ruim e numa notícia boa para os meus leitores. A ruim é que, infelizmente, em algum momento da vida, todos nós passamos ou passaremos por alguma situação de falta de sentido. Como disse Guimarães na frase com a qual abri este texto, viver só se aprende vivendo. Claro que podemos aprender, nos precaver e nos emocionar com as histórias dos outros. Mas nada se compara a sermos as personagens principais da nossa própria história. A notícia boa é que, como quase tudo na vida da gente, essa falta de sentido tem jeito! É necessário mergulhar dentro de si mesmo. Sem medo. Ir bem fundo dentro da gente mesmo, pois é apenas lá que vamos encontrar o que é realmente importante para nós. Como continuar depois disso? Esta é, provavelmente, a pergunta que mais escuto na clínica. E costumo devolvê-la assim: O que te resta? Pode não parecer, mas sempre nos resta alguma coisa. Ainda que "apenas" nos reste a nós mesmos ou a nossa esperança num futuro melhor. E, acredite, isso é bastante, é  o que tem de mais valioso pois é o cajado que irá te sustentar nos momentos mais duros da sua caminhada.

A partir daí, o caminho nos dá uma grande oportunidade: a transformação. A chance de reconstruir a nossa vida e recontar a nossa história do jeito que quisermos. O que iremos manter? Para onde queremos ir? O que já não nos serve mais? Para que continuar carregando algo que não nos serve? Enquanto eu escrevia minha dissertação de mestrado, conversei com vários peregrinos. E boa parte deles comentou que nos quilômetros iniciais é frequente encontrar coisas largadas pela estrada (roupas, equipamentos e até câmeras fotográficas!). Por que isso? Porque o que não supre nossas necessidades (sejam elas quais forem!) pesa. E o peso excessivo causa dores e desânimo.

Finalizando, convido meus leitores a fazer uma reflexão. É necessário esperar algo grave acontecer nas nossas vidas antes de mudar o que queremos/precisamos? Por que não fazer as mudanças e reflexões antes, de forma mais tranquila, quase uma prevenção? "Travessia perigosa, mas é a vida.", disse Guimarães. E eu completo: não tenha medo dela, pois você é a única pessoa no mundo todo que pode escrever e viver sua história.

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