sexta-feira, 20 de julho de 2012

Não transforme suas qualidades em problemas

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." - Clarice Lispector

Você já deve ter notado isso. Talvez já tenha acontecido com você ou com alguém que você conhece. Transformar qualidades em problemas.

O filósofo francês Michel Foucault (1926 - 1984) pensava que um mesmo discurso pode ser tanto libertador quanto opressor, ou seja, pode ser usado para os mais diferentes fins, e muitas vezes os fins parecem opostos uns aos outros. O que isso tem a ver com qualidades e defeitos? Simples! Pense num defeito que uma pessoa pode ter. Pode ser insegura, por exemplo. Alguém pode reclamar "ele é um covarde, nunca vi pessoa mais insegura!" Talvez, se ele viver em condições em que a insegurança dele se destaque mais, até o encaminhem para fazer terapia! E quem sabe, após alguma reflexão, ele consiga usar isso a favor dele. E, de inseguro, passa a uma pessoa precavida e cautelosa. Quem sabe até mesmo um estrategista, que consegue perceber o todo de uma situação, inclusive as possibilidades ruins (e que tem tanta possibilidade de acontecer quanto as boas...).

O ponto é: todos nós temos nossas características. Somos como um pote cheio delas. Se são boas ou ruins, isso depende apenas das circunstâncias e da forma como usamos nossas qualidades. Outros diriam que se nossas qualidades são boas ou ruins depende dos olhos de quem vê, e isso também é muito verdadeiro. Tudo na vida da gente se apresenta para cada um da forma como escolhemos ver.

Mas voltando ao assunto de qualidades transformadas em problemas, os exemplos são muitos. A pessoa criativa, que sempre encontra soluções diferentes para as situações da vida, pode ser taxada de desajustada, aérea e, quem sabe, até receba um diagnóstico de déficit de atenção. A pessoa cuidadosa, é insegura. Aquela que respeita o outro e sabe ser boa ouvinte é tímida e não sabe se impor. O que analisa cuidadosamente as situações que vive é indeciso e não sabe o que quer da vida. A pessoa que gosta de ajudar e é cooperativa, muitas vezes é vista como alguém que não sabe viver num mundo competitivo, ou como uma pessoa dependente. O crítico é um reclamão. O sociável é um fofoqueiro que gosta de se aparecer. O reflexivo é um deprimido. E o tranquilo é um alienado. Qualquer um deles poderia, quem sabe,  receber algum diagnóstico de algum distúrbio mental. E, se bobear, até tomar medicamentos!

Claro que existem muitas situações e existem pessoas que, de fato, tem um distúrbio e devem fazer tratamento. Mas não é delas que estou falando. Falo de pessoas que não estão doentes. Na psicologia, uma situação é doentia sempre que traz ao sujeito algum tipo de sofrimento e/ou quando coloca a vida dele (ou a dos outros!) em risco. Você está passando por uma situação assim? Sim? Então o passo agora é buscar tratamento. Não? Muito bem, a situação que você vivencia provavelmente não é doentia no ponto de vista psicológico. Quem sabe você (ou outras pessoas de seu convívio) não estejam apenas transformando suas qualidades em problemas. E, acredite, isso pode trazer muitos problemas!!

Por que, então, não usamos o lado bom das nossas características? Cada um tem seu jeito de ser, que nunca é igual ao de mais ninguém. Por que não procurar tarefas em que podemos usá-las a nosso favor? A pessoa criativa do exemplo provavelmente seria uma contadora horrível, se distrairia muito e erraria ainda mais. No entanto, poderia ser uma ótima artista, arquiteta, escritora, terapeuta... 

Hoje convido o leitor a escrever uma pequena lista de características. Aliás, pequena não! Uma grande lista, quanto maior melhor! Escreva toda característica que se lembrar, independente de você se identificar com elas ou não. O passo seguinte é ler a lista e (com muita sinceridade, nada de tapear, hein?!) ver quais delas se aplicam a você. E, então, tentar se imaginar com aquelas características que você não tem. Como é ser uma pessoa nervosa? Como é ter habilidades musicais? Você pode descobrir coisas muito interessantes sobre si mesmo. Depois, tente agrupar características. Por exemplo, ser cauteloso, estrategista e ser inseguro podem ser visões/expressões diferentes de uma mesma coisa, dependendo de quem vê, da situação que se apresenta e da maneira como a pessoa vivencia essa característica em seu dia a dia. Esta é uma ótima atividade para a gente se conhecer melhor.

Pra terminar o texto de hoje, um pedido. Não deixe que ninguém transforme suas qualidades em problemas! Todas as suas qualidades são pedras preciosas, pois contam sua história e mostram quem você é. Não deixe que os outros transformem seus diamantes em cacos de vidro. E, principalmente, não seja você a fazer isso consigo mesmo.

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