quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Arte de Construir Pontes

"Através dos outros nos tornamos nós mesmos." - L. Vygotsky (psicólogo russo do século XX)

Já falamos em outros textos sobre a importância de ouvir o outro. Hoje falaremos sobre algo que tem muito a ver com isso: relacionamentos. Muitas vezes os nossos relacionamentos são fonte de alegria, dão um colorido especial às nossas vidas. Outras vezes, podem gerar conflitos e dúvidas. Gosto de pensar em pessoas como seres que trazem dentro de si um mundo inteiro, o mundo delas, que não é igual ao de mais ninguém pois é construído ao longo da história de vida de cada um, influenciado pela maneira como a gente se percebe e pelas interações que temos com o outro e com o mundo externo, por costumes e tradições da cultura em que vivemos, da nossa cultura de origem, entre muitas outras coisas. Se cada pessoa é diferente da outra, é claro que, por mais parecidas que sejam e por mais boa vontade que tenham, as pessoas (amigos, familiares, casais, colegas, etc.) nem sempre concordam em tudo. Aliás, na maioria das vezes não concordam, embora nem sempre assumam isso. Muitas vezes nem ao menos perguntam o que o outro acha, e já saem imaginando a resposta. E acreditando naquilo que imaginaram. E é aí que começa a nossa conversa.

Um relacionamento nunca é verdadeiro quando não existe um esforço de compreender o mundo do outro. Sair do nosso mundinho e se aventurar por mundos desconhecidos. Não esperando que o outro nos complete, mas que venha a somar. Para isso acontecer, é preciso respeito. Antes mesmo do amor, da amizade, da compreensão, da paciência, do companheirismo... porque quando não tem respeito, nada disso existe. Pelo menos não de forma sincera.

É preciso construir pontes que nos levem até o mundinho do outro. E que permitam que o outro visite o nosso mundo. Podemos tentar entender o outro. É claro que nem sempre vamos conseguir. E aí chegamos à questão dos preconceitos. É fato, todos temos nossos preconceitos. Não me refiro a não gostar de alguém apenas pela aparência pessoal, como muita gente imagina quando falamos em preconceito. Este é um conceito que vai muito além disso. Temos um preconceito sempre que fazemos suposições sobre o outro. Se é loira, deve ser burra. Se é religioso, é um fanático ignorante. Se trabalha bastante, não deve ter muitos amigos. Se vem de outro estado ou país, é estranho e não sabe se portar aqui onde vivemos. Se mora na favela, é um maloqueiro. Mas também existe o preconceito positivo, que é tão ruim quanto o negativo: se é japonês, claro que vai entrar na faculdade! É gringo, deve ser rico! Está de terno, deve ser importante! Se a criança está com a mãe, então é bem cuidada! O que quero dizer é que nunca sabemos da vida do outro, a não ser que façamos um esforço para conhecê-lo, com a mente aberta para percebê-lo da maneira como a pessoa se apresenta, não como achamos que ela deve ser ou como queremos que ela seja.

Um ponto interessante é que, entrando em relacionamentos (seja do tipo que for) com o outro, conhecemos mais sobre nós mesmos. Conhecemos sobre nós antes mesmo de começar a construir a ponte. Que preconceito temos? O que será que nos espera no mundo do outro? Que tipos de coisas supomos sobre o outro e a vida dele? Isso nos diz muito sobre a maneira como a gente se coloca para o mundo e para o outro, afinal, o mundo é uma grande sala de espelhos! Mais uma coisa para pensar: como abordamos o outro? Muita gente que se queixa de dificuldades de manter relacionamentos passa a supor que é uma pessoa chata, que tem habilidades sociais horríveis e por aí vai. Muitas vezes o problema é apenas a forma como nos colocamos, como abordamos as pessoas. O relacionamentos dos pais e mães com seus filhos adolescentes, por exemplo, pode melhorar bastante se os filhos sentirem que são tratados como adultos, como iguais, e não como crianças.

Construiu a ponte? Muito bem! O outro quer que a gente entre no mundo dele? Nem sempre. E também isso precisa ser respeitado. Antes de supor que é um antissocial fechado demais, pare e observe. Algumas vezes a pessoa só não está tendo um bom dia ou está num momento mais reflexivo. Às vezes esse é o único NÃO que ele ou ela pode dizer na realidade em que vive. Às vezes essa pessoa tem uma história de vida que a levou a evitar a proximidade do outro. Respeite. O outro aceita sua presença no mundo dele/a? Que bom! Respeite também, se colocando com sinceridade, sendo você mesmo (porque no fim, isso também é questão de respeito - com o outro e com você mesmo!) e respeitando os limites de cada um.

Quando temos relacionamentos verdadeiros, isto é, quando construímos a ponte e nos permitimos perceber o outro como realmente é e deixar com que nos percebam como somos, crescemos muito. Amadurecemos. Porque aprendemos que não existe certo ou errado, apenas o jeito de cada um. E que está tudo bem em sermos como somos se isso nos deixar felizes e não fizer mal para nós ou para a realidade a nossa volta. Percebemos que existem muitos jeitos diferentes de ver e de enfrentar situações parecidas, e que todos esses jeitos tem sua eficácia e suas falhas (inclusive o nosso próprio jeito!). Mas aprendemos principalmente que estar com o outro é uma coisa que vai muito além do físico, é emocional. Um grupo, família, casal, não é um bando de pessoas colocadas juntas fisicamente, mas pessoas que, emocionalmente, se permitem criar e atravessar pontes com respeito, sinceridade e delicadeza.

Um comentário:

  1. Tudo verdade. Pena que nem sempre usamos a arte de descomplicar

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