quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Jornada ao Fundo do Poço

"No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas." - Aristóteles (pensador grego do século V a.C.)

O assunto de hoje é um pouco desagradável, mas todos passam por isso em algum momento da vida. Falo das crises existenciais. Não aqueles pequenos contratempos que acontecem na vida de qualquer um, ou aquelas épocas mais caóticas em que temos problemas no trabalho, discussões em casa e, como se não bastasse, a geladeira para de funcionar! Claro que nada disso é agradável. Mas não são problemas que nos jogam no fundo do poço nem nos fazem pensar sobre o sentido de acontecerem na vida da gente (porque  sabemos que acontecem na vida de todos!).

A crise existencial não é isso. É uma queda, um colapso de todas as certezas que tecemos e que fazem (ou faziam!) nossa vida ter algum sentido. Não somos mais quem sempre pensamos que éramos. Você sabe bem, falo daquelas situações limite: divórcio, problemas sérios de saúde (com você ou com pessoas queridas), acidentes graves, desemprego, mortes, incêndios, inundações, violências, dívidas que levam a pessoa a perder tudo o que tinha...

Quero contar rapidamente o mito da deusa suméria Inana. Mitos são ótimas formas de conhecer a nossa realidade, pois falam diretamente para as nossas emoções, são uma porta para o inconsciente. Inana era a rainha do céu e de tudo que havia abaixo dele. Era responsável pela fertilidade, civilização e cultura. Inana tinha dois pretendentes e casou-se com um deles. Não demorou para que o marido se tornasse arrogante e quisesse o lugar dela. Ele sugeriu a Inana que ela visitasse a irmã, rainha do mundo dos mortos. Ninguém que tivesse ido até lá jamais retornou, mas Inana não tinha medo. Ela combinou com o primeiro ministro que, caso não voltasse em três dias e três noites, ele faria os ritos funerários e seu marido seria o novo rei. Em cada um dos vários portões que Inana atravessou até o submundo, ela teve que entregar aos guardiões  dos portais suas jóias, símbolos reais e roupas, despindo-se completamente de quem era, até que restasse apenas sua essência. Chegou nua ao mundo dos mortos, tal como nasceu. Ao olhar para a irmã, a deusa da morte de cabelos negros e olhos de pedra, Inana passou três dias e três noites como morta, suspensa como um cadáver. Como ela não voltou, o primeiro ministro seguiu as instruções que ela deixou. Mas o pai de Inana, que sabia de tudo, foi socorrê-la, enviando água e comida para reviver a deusa. Saindo do submundo, Inana corria com demônios em seu encalço, e por muito pouco não ficou presa lá. Ao chegar ao seu reino, ficou furiosa com a presunção do marido, que tramou para tornar-se rei. Enviou-o então para o submundo, como substituto dela e retomou seu lugar como rainha do céu.

Esse mito nos fala das crises reais de nossa vida, da experiência de sermos despidos totalmente daquilo que antes nos dava certeza de quem somos. Uma vez no "submundo", ou no fundo do poço se você preferir,  tudo o que nos resta é a nossa coragem e a nossa força interior, e é apenas com elas que poderemos contar para retornar e escapar dos "demônios" que tentam nos manter lá, pois na maioria dos casos estamos  (ou nos sentimos como se estivéssemos) sozinhos.

Como sobreviver quando parece que apenas viver se tornou impossível? Nada vive no mundo dos mortos... Mas uma certeza ainda temos: se sobrevivemos à descida, sobreviveremos ao retorno. E quando chegarmos, viveremos de maneira diferente, pois quem já foi ao "mundo dos mortos" e olhou para aquela realidade, nunca mais será a mesma pessoa. Será para sempre marcada pela experiência da descida. E, muito provavelmente, essa se tornará sua maior força e sua maior referência de sucesso e de coragem.

Talvez esse tipo de experiência seja a chance que a vida nos dá de perceber que tudo aquilo de que nos despimos e que antes pareciam ser o que somos, na realidade nem era tão importante assim. De que adianta um cargo ótimo se não temos saúde e/ou perdemos momentos importantes com pessoas queridas? Ou um relacionamento com uma pessoa "maravilhosa", porém construído com base em mentiras? Os momentos de crise nos ensinam a valorizar nossa força interior, pois ela é o que de mais nosso temos. Assim compreendemos que o mais importante na vida é a felicidade, e que a felicidade só ocorre quando estamos bem com a gente mesmo, em harmonia. Todo o resto é um cenário!

Nenhum comentário:

Postar um comentário