terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os vilões da sua vida: o que eles têm em comum?

"Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?" - Clarice Lispector

Talvez por eu ter feito teatro na adolescência ou por escrever quase compulsivamente, gosto muito de comparar a vida a um filme ou peça. Quando imaginamos isso, provavelmente nos vemos como as personagens principais da nossa história, pois somos (ou seria interessante que fôssemos!) a principal personagem da nossa vida. Muito bem! E quem é o vilão?

Você o conhece muito bem... talvez melhor do que gostaria. Muitas vezes o vilão toma a forma daquela pessoa que compete com a gente, não necessariamente de maneira desleal. Outras vezes era aquela professora que nos "perseguia" na escola ou o chefe  que pega no seu pé. Também pode aparecer como alguém que nos trata mal: de antipáticos de plantão a agressores ou estupradores. O colega que você tem certeza que morre de inveja de você. Ou apenas aquela pessoa com quem nunca falamos mas que só de olhar já não fomos com a cara! Uma forma muito comum do vilão de hoje em dia é o outro: aquele que vem de outro lugar, o morador de rua, o usuário de drogas, o homossexual, o doente mental... Afinal, pensam as pessoas de hoje "nós sabemos como somos mas os outros... Na certa vão nos fazer mal!" Esquecem apenas que, para os outros, nós somos o outro... e talvez o vilão!

Não encontrou o vilão lá fora? Convido a procurar lá dentro! Pense nos seus sonhos, por exemplo. Freud já disse em seu livro A interpretação dos sonhos, publicado em 1900, que apenas 02% dos sonhos que temos são agradáveis. Isso mesmo, você leu certo, dois! Os outros 98% são geradores de medo, angústia, raiva, tristeza, tédio ou algum outro tipo de desprazer. Quem são seus vilões? Monstros e fantasmas? Bandidos e assassinos? Desconhecidos que nos perseguem sem sabermos a razão? Alienígenas? Animais ferozes? Uma pessoa misteriosa que força o sonho numa sequência de acontecimentos desagradáveis ou tediosos?

É importante conhecermos nossos vilões, pois isso nos ajudará a conhecer mais sobre nós mesmos. Que tipo de vilões você atrai para sua vida (incluindo para os seus sonhos, pois eles também são parte da sua realidade!)? O que eles têm em comum? Cargos de poder? Atitude prepotente? O olhar? Não assumem as responsabilidades deles? Ou será que chamam você a assumir as suas responsabilidades? São controladores? Cada um encontrará as características dos seus vilões. E, junto com elas, encontrará suas próprias características. Por que será que pessoas em posição de autoridade te fazem sentir aquele mal estar? Por que as responsabilidades corriqueiras da vida são tão pesadas? Por que colocar a sua vida em discussão, permitindo que o outro exerça controles sobre você?

O psicólogo suíço Carl Jung (1875 - 1961) dizia que todos temos em nossa personalidade um arquétipo chamado sombra. Ela guarda tudo aquilo que resistimos a ver em nós mesmos - mas que, muitas vezes, não perdemos tempo em ver no outro! Guarda também características e habilidades que poderíamos ter desenvolvido mas que ainda não tivemos a oportunidade. Jung diz ainda que, para manter-se psicologicamente saudável, é importante trazer a sombra para a luz, isto é, conhecê-la e integrá-la à nossa personalidade. Olhar para os vilões é uma das boas formas de fazer isso.

Questione-se! Por que a notícia sobre aquele crime te causou tanta indignação? Por que aquela pessoa (que, em muitos casos, você mal conhece e/ou está apenas cumprindo o trabalho dela) te faz sentir raiva/medo/angústia/etc.? O que isso diz sobre você? Sobre o seu jeito de ser, suas memórias, seus planos e receios... Existem pessoas que quando olham para trás vêem um histórico de abandonos em suas vidas, ou de abusos e assédios, de agressões, de bullying, de perseguições, de exclusões... Se for o seu caso, cabe refletir: o que essas experiências (e os participantes) tiveram em comum? E, mais do que isso, por que a mesma história se repete tantas vezes na vida da mesma pessoa?

Não existe aventura sem desafios. E quando aparecem os desafios, junto vêm os vilões. Todos eles são maus? Nem sempre. Na vida real, geralmente não. Primeiro porque, muitas vezes, a coisa não é pessoal. A vendedora mal humorada trataria qualquer cliente mal, calhou de ser você. Segundo porque, muitas vezes, a pessoa está apenas cumprindo a tarefa dela. Professores cobram a lição de casa e chefes exigem um trabalho bem feito, não estão te perseguindo quando fazem isso, nem decidiram ao levantar da cama que passariam o dia te chateando. Terceiro, muitas vezes a pessoa nem mesmo sabe que o comportamento dela te atinge. Seu concorrente não compete com você para atormentar sua vida, assim como você, ele também depende desse trabalho para se manter! Talvez seu familiar coma sempre a parte crocante do pão porque imagina que você goste mais do miolo! Mudando a forma de perceber essas situações da vida, a coisa muda... e talvez os antigos vilões se tornem aliados e até bons amigos!

O caso é outro? Você sofre abusos, assédios e agressões? Nesses casos não cabem rodeios, minha opinião se resume a uma só palavra: DENUNCIE!!!

2 comentários:

  1. Bia, amo o teu blog! Tua maneira de escrever é linda, o leitor sente como se falasse com uma amiga, abordas temas serios e necessários com sensibilidade mas sem deixar de ir ao ponto!
    um grande beijo cá de Portugal!

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  2. Muito obrigada, Maria Inês! É uma grande surpresa e também uma grande alegria para mim saber que um texto meu cruzou um oceano! Um beijo para você e para os leitores de Portugal!

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