quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Para que as rotinas?

"Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão." - Fernando Pessoa

Muita gente acredita que deve fugir delas. Temê-las. Evitá-las ao máximo. As rotinas muitas vezes são apontadas como causa do tédio na vida das pessoas, da falta de tempo para se fazer o que gosta e até do fim de relacionamentos aparentemente sólidos. E aí passam a vida tentando se livrar da rotina!

Na clínica, costumo dizer aos meus pacientes que tudo que a gente coloca na nossa vida está aqui por um motivo, seja um plano, um comportamento e até mesmo um sintoma. E inclusive as rotinas! Nós as criamos (ou pelo menos concordamos em segui-las) por algum motivo misterioso. Seja por facilitarem o dia a dia, seja por organizarem determinadas tarefas, ou apenas porque " é mais fácil assim".

No entanto, ao invés de pensar se gosta ou não de rotina, seria mais produtivo pensar de qual tipo de rotina estamos falando.

Da rotina imposta a nós por outra pessoa, que faz a vida perder a cor e cair num marasmo e, quando percebemos, temos um monte de tarefas para cumprir e nem sabemos como as tais foram se tornar parte da nossa vida? Não, muito obrigada!

Mas e a rotina que faz bem? Nosso corpo tende a se manter mais saudável com horários fixos para dormir, acordar, fazer as refeições... E a rotina escolhida por cada um de nós porque nos faz sentir bem, como a caminhada de manhãzinha ou o encontro com os amigos e familiares no final de semana? Não faz sentido fugir daquilo que nos faz bem, certo?

Algum tempo atrás, uma amiga comentou que o filho de 4 anos estava ansioso e impaciente. Perguntei se ele tem uma rotina. A criança se acalma (e nós adultos também!) quando sabe o que vai acontecer, ou melhor, quando sabe o que esperar do futuro. É importante dizer para a criança coisas como "é hora do almoço, depois será hora de brincar!" Assim a pessoa tem a chance de aprender a se planejar e também de se preparar para o que está por vir, para o futuro. Para os pequenos, recursos como musiquinhas ajudam a perceber e a marcar a passagem do tempo, a rotina e a mudança de uma atividade para a seguinte (não é a toa que escolas de educação infantil são cheias de musiquinhas!). Para o pessoal mais velho, uma agenda ou apenas uma lista de tarefas pode ajudar muito!

A rotina é boa quando nos ajuda a ter organização e a cumprir nossas tarefas (sejam elas profissionais ou pessoais). Isso nos acalma, pois nosso cérebro entende a ordem dos acontecimentos e aprende a se planejar. Por exemplo, se temos um horário para dormir e levantar, perto desses horários o corpo já começa a secretar hormônios e substâncias ligadas ao sono e ao despertar, o que facilita bastante os dois momentos. Fora das atividades biológicas, a rotina também ajuda na compreensão de atividades sociais. É importante ter horários para estudar, trabalhar, fazer as tarefas do dia a dia e também para a diversão. Não apenas por funções do corpo como sono e hormônios, mas porque assim nos tranquilizamos quanto ao futuro, diminuindo muito o estresse e a ansiedade do dia a dia.

Entretanto, a rotina não faz bem quando nos aprisiona. Quando nos tira a liberdade (e isso acontece sempre que não escolhemos aquilo que diz respeito a nós e a nossa vida!). Quando não escolhemos, a rotina imposta nos aprisionando em meio a tarefas e atividades que "temos que" cumprir apesar de não fazerem sentido algum para nós. Nunca deixe isso acontecer! Esteja muito atento ao seu dia a dia, especialmente naquelas pequenas coisinhas que tentamos dar pouca importância. Para que acordar e sair correndo, já começando o dia de mal humor se você pode se organizar, talvez levantar um pouquinho antes e ter tempo de anotar seus sonhos, meditar, tomar um café da manhã com calma, enfim, começar o dia de forma tranquila e assim ter mais vitalidade para os próximos compromissos e atividades? Pode parecer simples, mas se ganha muita qualidade de vida com pequenas mudanças na rotina.

Mas, é claro, antes de mudar alguma coisa é preciso conhecê-la! Pegue papel e lápis. Desenhe um círculo. Como é a sua órbita? Como é o ciclo do seu dia? Anote as atividades de um dia típico no círculo. Todas elas são prazerosas? Alguma delas você gostaria de modificar? Que horários "sobram" para você? Como você poderia organizar sua rotina de maneira mais harmoniosa e eficiente? Tudo aquilo que está no seu círculo foi uma escolha sua? Quanto mais escolhas a gente faz, mais autonomia a gente tem. E para isso acontecer, é fundamental conhecer sua rotina para então identificar os pontos que estão bem e os (potencialmente) geradores de conflitos.

Crie para si mesmo e/ou para sua família uma rotina funcional, que permita desempenhar as diferentes atividades e tarefas de maneira harmoniosa e saudável. E não se esqueça de deixar brechas, espacinhos de respiro. Lembre-se que até a rotina da natureza tem uma estação dedicada às flores!



6 comentários:

  1. Fez-me refletir sobre a minha rotina - estudante, portanto envolve a escola -; ironicamente a escola (imposta a todos) me é parte da rotina que me faz bem, e sei que me será difícil mudar de rotina ano que vem visto que terminarei o ensino médio.

    Ótimo texto.

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    1. Muito obrigada! Essa fase de deixar a escola é mesmo um momento difícil para a maioria das pessoas. De um lado, a animação pelas tantas coisas novas que vêm por aí, novos amigos, novas rotinas e desafios... Do outro lado, dói deixar para trás o que conhecemos. Nada nunca mais será como é. Por isso é importante viver o presente, para que os bons momentos nos fortaleçam e, ao mesmo tempo, ficar de olho no futuro: fazer planos e buscar colocá-los em prática, escolhendo uma vida que faça sentido para a gente! Boa sorte! =)

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  2. Gostei muito da ideia de criar uma órbita de atividades. É muito mais fácil agir quando se pensa estar no centro de um micro universo, onde tudo gira em nosso entorno. Entendo que uma rotina é essencial para o autoconhecimento, principalmente quando se é ansioso e instável emocionalmente. Abraços.

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    1. Concordo com você, Valdir. Uma coisa legal para o autoconhecimento seria, antes de criar (ou melhor, modificar) nossa rotina, prestar atenção às rotinas que já seguimos (muitas vezes sem nem perceber!).
      Abraço.

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  3. Essa conversa de rotina me lembrou um livro que li recentemente. Ele se chama O Túnel do escritor argentino Ernesto Sabato. Ele conta a história de um artista obcecado por uma mulher, mas tragicamente ele percebe que ela nunca será sua e decide matá-la. Escrevi uma módica resenha sobre ele, aí vai o link se você estiver interessada: http://cabrestussuburbanus.blogspot.com.br/2012/11/o-tunel-de-ernesto-sabato.html

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