quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Seu corpo conta a sua história

"Amar a si mesmo é o começo de um romance que vai durar a vida inteira." - Oscar Wilde (escritor irlandês do século XIX)

Já notou a importância que damos ao corpo no mundo em que vivemos? Pipocam salões de beleza, clínicas de tratamentos estéticos e academias, aumentam o número de cirurgias plásticas, todos querem ficar mais bonitos e parecer mais jovens. Chegamos a um ponto em que é valorizado apenas o corpo bonito (seja lá o que isso for!), jovem e saudável. Mas por quanto tempo podemos manter nosso corpo nos padrões que o mundo de hoje exige? E a que custo (financeiro, para a saúde, para a autoestima)? É aí que entram  absurdos como meninas que fazem cirurgias de aumento dos seios aos 15 anos (quando ainda nem sequer terminaram de se desenvolver!) e também transtornos como a anorexia e a bulimia, por exemplo, compulsão por exercícios, por medicamentos "milagrosos" e por aí vai. Então o corpo de hoje não "tem que" ser apenas jovem e bonito. É um corpo medicalizado, pois usa e abusa de recursos da área médica para moldá-lo aos padrões que nos fazem acreditar serem belos e saudáveis.

Um corpo saudável é um corpo integrado e amado
(por si mesmo principalmente)
Mas e as diferenças individuais?? Sim, aquelas mesmas que te fazem ser uma pessoa única e original... Até porque cada um tem a sua própria opinião sobre o que é ou não é bonito. O corpo é um símbolo de quem somos, pois ele conta a nossa história. Por trás de cada marca, postura, jeito de se movimentar, brinco, cicatriz, tatuagem, sintoma, dor, marcas de expressão, corte de cabelo, intervenção cirúrgica, entre tantos outros elementos, há uma história para contar. A sua própria história. Ela pode envolver acidentes e doenças... mas o corpo também fala sobre sua alimentação, sobre hábitos do seu dia a dia como a prática esportiva (ou a falta dela), o tipo de lazer e de trabalho, o tempo que se expõe ao sol, expressões faciais frequentes (e as emoções que as acompanham), entre muitos outros.

Aliás, o corpo não conta "apenas" a nossa história individual, conta também sobre o povo em que vivemos. O antropólogo e sociólogo francês Marcel Mauss escreveu um texto chamado As técnicas corporais (que, aliás, é um lindo texto, recomendo que quem não leu leia!). Ele afirma que cada cultura tem sua maneira particular de lidar com o corpo e de representá-lo. Indo além, mesmo dentro de uma cultura, a relação com o corpo (como o percebemos e somos percebidos, como nos arrumamos e como esperam que nos arrumemos, como nos movimentamos...) é bem diferente para cada gênero e faixa etária. O autor comenta como a divulgação de filmes americanos na França (o que, na época de Mauss, era uma grande novidade) vinha mudando as formas como os franceses caminhavam e se moviam, que aos poucos ficavam cada vez mais parecidas com os atores americanos. Isso é interessante, pois nos permite pensar que a maneira como lidamos com nosso corpo, e como nos colocamos no mundo a partir dele, é aprendida. E pode ser mudada!

É claro que, o mais importante é cada pessoa estar bem com ela mesma. E aí faz mudanças no corpo, conscientemente ou sem nem se dar conta de que caminha com a cabeça mais erguida após aquele acontecimento super esperado, por exemplo. Mas quando a mudança é feita só para estar no modelinho imposto pela sociedade, a coisa complica. Porque os modismos mudam, os discursos da mídia deixam de ser transmitidos quando param de gerar lucro. Por que apagar a sua história? A pessoa passa a vida correndo atrás de um ideal que nunca poderá ser atingido. E não apenas pela mudança constante do discurso da mídia sobre o que é belo ou feio, mas porque cada um é cada um. Quer emagrecer e ser mais saudável? Legal. Mas saiba que magreza nem sempre é sinônimo de saúde, do mesmo jeito que o sobrepeso nem sempre é sinônimo de doença. E que, se você já tem mais de 16 ou 17 anos, dificilmente voltará a ter o corpo que tinha na puberdade, lá pelos 13 anos. Quer tingir os cabelos brancos? Muito bem, eu também faço isso. Mas não se iluda, ninguém realmente pensará que a cor é natural, por melhor que fique em você e por mais parecida que seja com a original.

Mas as mudanças nem sempre são "por querer". E aí a coisa é muito mais delicada. Por exemplo, no caso de amputações, cirurgias cardíacas, de retirada de tumores, do apêndice ou o que for. Pessoas que passam por isso muito provavelmente precisarão de um tempo de adaptação maior ao novo corpo do que alguém que escolheu fazer uma nova tatuagem, por exemplo. E vale a pena consultar um profissional de psicologia para ajudar a passar pela mudança. Em crises, estar bem com você mesmo faz toda a diferença.

Outras mudanças são naturais, como o processo de amadurecimento do corpo, seja na puberdade, seja o envelhecimento. Ou as mudanças que o corpo passa durante a gravidez. Todas essas transformações, mesmo que naturais, podem ser vividas de maneira tranquila ou como um conflito, depende apenas do olhar que a pessoa der a elas.

Para terminar o texto desta semana, proponho uma reflexão. Olhe-se no espelho. O que você vê? Não pense em padrões, você não precisa ser mais/menos alto ou mais/menos magro, ou quem sabe se bronzear... Não, neste momento você apenas é como é. Sem preconceitos, procure perceber o que o seu corpo conta sobre a sua história. E sobre os seus hábitos? Se puder, tenha papel e lápis com você e anote as impressões, ideias e emoções que aparecerem. Depois leia e reflita: essa é a vida que você gostaria de ter? Claro que não mudamos o passado, ele faz parte de nós e  sempre nos marcará. Mas daqui para frente, podemos optar por seguir como vínhamos seguindo se isso nos faz bem ou mudar o que quisermos na nossa vida. Por exemplo, que hábitos poderiam ser deixados de lado e quais novos hábitos podem ser adotados? Que posturas você gostaria de mudar para viver uma vida com mais qualidade? Talvez sorrir mais? O sorriso ajuda nosso corpo a liberar uma série de substâncias relacionadas à saúde e ao bem estar, como a serotonina. 

Olhe-se com olhos críticos, pois só assim saberá se a sua vida segue no sentido que você gostaria que seguisse. Mas acima de tudo, olhe-se com os olhos do amor. Porque apenas você é você. Seja no corpo, seja na história de vida, no jeito de ser, nos planos para o futuro... Permita-se ser essa pessoa aí do espelho, faça dela a pessoa que você gostaria de ser. Ouça o seu corpo com amor, para que ele não precise falar com você através de dores e sintomas. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário