quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Necessidades e Excessos

"O consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção." - Adam Smith (filósofo escocês do século XVIII)

Durante minha graduação em psicologia fiz, com algumas colegas de sala, um trabalho junto a mulheres que se prostituem nas ruas de São Paulo. Durante as entrevistas, invariavelmente surgia o tema "por que essa profissão", quando nós não perguntávamos, a própria mulher começava a explicar. Nosso grupo entrevistou desde mulheres que cobravam R$5,00 (isso, cinco reais) por um programa até as que cobravam valores altos, beirando os mil reais. E todas elas sempre davam a mesma resposta, independente da pergunta ser feita ou não: faço isso por necessidade. Entrevistas feitas, começamos a questionar... quais as necessidades de cada uma? Algumas falavam de pobreza e miséria. Outras falavam sobre roupas de grife e artigos de luxo. E aí, quando eu comentava sobre o andamento da pesquisa com amigos e familiares, sempre tinha alguém que dizia "poxa, mas tanta gente também passa necessidade! Por que não foi fazer faxina? Ou trabalhar numa loja? Ou de telemarketing?" Bem, o fato é, não foram. Seja lá qual tenha sido a razão da escolha delas, ou o motivo pelo qual a vida se desenrolou dessa maneira.

 Mas o que quero discutir aqui hoje não são os motivos que levariam alguém a se prostituir, seja por escolha ou não. Quero discutir as necessidades do ser humano. Se em parte existem algumas necessidades que qualquer ser humano tem, seja lá na cultura, lugar, época ou classe social em que viva (como as necessidades fisiológicas - alimentação, água, sono...), também existem as necessidades que variam de acordo com o lugar e o contexto em que vivemos (e por contexto, pensamos desde o tempo e a cultura, até o gênero, faixa etária, ocupação...). O que para alguns é apenas um luxo desnecessário, para outros é um item de primeira necessidade. Para alguns, aqueles minutinhos a mais na cama de manhã são uma grande necessidade, sem eles o dia não começa! Já outros não abrem mão de começar o dia com caminhada e exercícios físicos, ou com um bom café da manhã, ou meditando, ou anotando os sonhos da noite anterior... É importante conhecer e respeitar as próprias necessidades, pois assim vivemos com mais qualidade.

Mas a questão começa quando as necessidades passam a ser moldadas não pelo próprio sujeito, mas impostas pelos discursos da mídia (e reforçadas pelas pessoas e instituições com quem convivemos). Uma tarde por semana atendo pessoas carentes como voluntária num ambulatório de saúde no bairro do Rio Pequeno, São Paulo. Lá, uma coisa que me chocou bastante foi a frequência com a qual adolescentes me procuravam com a queixa de que são odiados pelos pais. Não sofriam maus tratos, nem negligência, nem violência.  Quando questionados a razão do suposto ódio, vinha a resposta: "porque minha mãe disse que não pode me dar o video game / o celular novo que lançaram. Se me amasse faria um sacrifício, né?" Não, não é. Entendo a pressão social imposta por muitas campanhas publicitárias. Algumas delas são cruéis ao ponto de fazer a pessoa pensar que só será amada e feliz se tiver os artigos anunciados. Será que ter você em casa, nutrir, dar carinho, estudo e até trazer na terapia, conversar, passar bons momentos juntos, já não são mais provas de amor suficientes?

Para os povos antigos, a coisa mais importante era garantir segurança e fertilidade. Fertilidade das mulheres, mas também dos animais e da terra. Assim, com essa combinação, a vida se manteria, pois haveria a sonhada abundância. Abundância e prosperidade com as quais (em outros contextos) sonhamos até hoje. Porém, se antes a abundância significava ter todas as necessidades supridas, hoje se busca o excesso. E o problema do excesso, diz o sociólogo Zygmunt Bauman, é que ele nunca é o bastante. Nada nunca se torna excessivo porque a pessoa é incentivada a querer mais e mais, numa competição sem fim com a própria sombra.

O resultado disso? Para Bauman hoje em dia as pessoas são reduzidas a consumidores. Comprar (seja um produto, um serviço ou um afeto) é o que lhes mostra quem são, e não mais a relação com os outros. Nesse contexto que o autor propõe, quando a pessoa é vista apenas como consumidora (e é assim que boa parte da mídia nos percebe!), nossa única função no mundo é essa, consumir. Não é amar ou se divertir, ou fazer um bom trabalho, ou procurar ser um ser humano melhor. Tudo isso passa a ser, nessa linha de pensamento, algo sem sentido, que não leva a nada. Triste. E mais triste ainda é quando o produto a ser consumido passa a ser outra pessoa. Não só os usuários de redes sociais que colecionam amigos (com os quais nunca conversaram ou interagiram, são apenas mais produtos na sacola de compras!), mas também aqueles que reduzem o outro. O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas menciona que hoje em dia as pessoas tendem a reduzir o outro a apenas uma faceta de sua personalidade. Ou melhor, a um papel ou função. E aí dá nisso: para a empresa, o funcionário não tem vida fora do horário de expediente. Para o estudante, o professor está 24 horas por dia nessa função, como não corrigiu as provas de ontem? Como que o mecânico deixou a oficina e foi almoçar? Que descaso com o consumidor!  Para Habermas, essa redução das outras pessoas a apenas uma face nos faz entrar num individualismo isolacionista. Quando não existem sujeitos, e sim papéis ambulantes, o indivíduo se sente solitário, por achar que suas dores e alegrias, seu modo de vida e suas escolhas são um fenômeno único no mundo, não consegue perceber que isso acontece na vida de todos os outros. Aliás, muitos nem se dão conta que todos os outros também têm uma vida com necessidades, planos, sucessos e fracassos... Se apenas ele é um sujeito, não existem pares com quem se relacionar!

Como contornar isso? Procurando ver a si mesmo e ver o outro como sujeitos inteiros. Mantendo o que Habermas chama de "mundo da vida", o mundo das relações pessoais e dos afetos. Sabe aquele grupinho entre amigos ou familiares tão queridos que você sente que pode ser apenas quem é, sem máscaras, sem competições desnecessárias?  Aqueles que não ligam se as suas notas nem sempre são tão boas ou se você foi ou não o funcionário do mês. Aqueles pra quem você pode telefonar de madrugada. Aqueles com quem pode apenas ficar descalça e brincar na chuva, sem pressões e sem medo de ser feliz, pois sabe que eles te amam assim como você é. Provavelmente são eles, o seu "mundo da vida", que suprem suas necessidades mais básicas: a de poder ser a pessoa que você é.

2 comentários:

  1. Acho que a cada dia é mais difícil de encontrar esses grupos sem competições desnecessárias.

    Parece que ta todo mundo "contaminado" a nossa volta rsrs, seja nos almoços de família, num bate papo no barzinho com os amigos...

    Rogéria

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    1. É raro encontrar mesmo, Rogéria. Mas, sabe, algumas vezes fico pensando, se cada um mudar um pouquinho, acho que a coisa acaba indo! Claro que é um trabalho lento, de formiguinha, mas sempre podemos criar nosso grupo cooperativo, espalhando a cooperação e a solidariedade pelos grupos com que convivemos. Logo mais e mais pessoas a nossa volta vão tomando coragem de se permitirem ser eles mesmos quando estiverem com a gente, porque sabem que o receberemos com respeito. E, com interações saudáveis e tranquilas, as pessoas logo acabam generalizando esse jeito de viver para os outros grupos e ambientes de que participam.
      Abraço e muito obrigada pelo comentário!

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