quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Os muitos Eus que habitam em nós

"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou o que? Um quase tudo." - Clarice Lispector

Existem muitos Eus dentro de nós. Cada um tem seus próprios valores, seus próprios modos de agir, suas próprias metas e intenções. Todos estão lá dentro, como personagens esperando por um sinal para entrar no palco e se mostrar ao mundo. O Eu que trabalha duro e honra todos os compromissos. Mas também o Eu que não quer nem saber. O Eu que ama festas, amigos, multidões e bagunça. Mas também o Eu que não vê a hora de chegar em casa, tomar um banho quente, vestir o pijama e ficar por algum tempo sozinho com seus pensamentos. O Eu que gosta de cuidar e o que gosta de ser cuidado. O Eu que quer a liberdade de um pássaro, vivendo bem ao lado do Eu que quer apenas a segurança de um abraço.

Não, (ainda) não fiquei louca! O que quero dizer é que existem muitos Eus, muitas personagens dentro de cada um de nós. É como uma orquestra em que a confiante talvez toque piano, a ousada toque bateria, a que valoriza tradições toque sanfona, a que gosta de contar histórias toque flauta, a que tem medo toque pequenos guizos muito baixinho, a que quer ser aceita toque um sambinha no pandeiro... cada Eu no seu ritmo, cada Eu tocando sua própria música. Bagunça? Na verdade não. Porque entre todos esses Eus que habitam em nós, existe o maestro, ou o ego, falando em termos psicológicos. Esse é o Eu que organiza os demais, mostrando quando é a vez de cada um deles se destacar, quando dois ou mais Eus precisam tocar suas músicas juntos para superar alguma dificuldade. "Ah, mas eu não! Eu sou eu mesmo, sou verdadeiro!" Não estou falando de falsidade. Porque todas as personagens são você, são parte de quem você é. E por isso, tem o potencial para agir de maneira autêntica. Complicado? Não. Olhe para a sua vida: provavelmente você não trata seus superiores no trabalho ou os seus professores da mesma maneira como trata sua avó. Nem trata os seus alunos ou pacientes da mesma maneira como trata um filho, por mais carinhosa e maternal que você seja. Também não trata um desconhecido na fila do banco como trata um amigo querido. Porque em cada um desses momentos estamos em um papel diferente. Em cada um deles o maestro nos orienta dizendo que um certo personagem é quem deve se destacar naquele momento. Além disso, é importante lembrar que existem tantas personagens quanto existem situações na vida (e formas de agir em cada situação).

Procure prestar atenção em você. Quem são as personagens que têm mais liberdade para "sair" e se mostrar ao mundo tal como são?  Alguma personagem gera conflitos (internos, com você mesmo; ou externos, com as outras pessoas)? Por exemplo, procure imaginar de que outras maneiras essa personagem conflitante poderia mudar a performance para que as coisas fiquem mais harmoniosas? A confiante não precisa atropelar todo mundo nem bater de frente com agressividade, pode dizer para que veio com calma e com respeito. Afinal, é "a confiante", não "o rolo compressor"!

Procure perceber também quais são as personagens que quase nunca (ou nunca) aparecem. Será que existem áreas da sua vida onde essas personagens "secundárias" poderiam trazer mais vivacidade e harmonia? Algumas pessoas já me disseram que gostariam de ser mais otimistas, ou mais tranquilas, ou mais extrovertidas, mas "acho que não tenho essa personagem em mim". Como não? Somos um kit completo! Estão todas aí. Talvez algumas estejam mais enferrujadas do que outras por falta de atuação ou mesmo por falta de prática. Talvez estejam tão no fundo que quase não podemos ouvir sua música. Mas estão todas aí. Convide-a para sair e tocar sua música, dançar sua dança ou apenas dizer o que gostaria de dizer.

Outra atividade interessante para conhecer suas personagens é imaginar como cada personagem reagiria a determinada situação. O que cada uma delas faria num dia de folga na praia? Como cada personagem reagiria a uma crítica? Certamente a prudente não reage a uma discussão com o companheiro/a da mesma forma que a agressiva. Nem a tímida reage a uma cena engraçada da mesma maneira que a criança interna.

Outra coisa interessante. Você vai reparar depois de alguns dias prestando atenção a isso que apesar de todos termos as mesmas personagens, elas são diferentes em cada pessoa, vão vestindo roupagens e fantasias de acordo com a forma como escrevemos sua (nossa!) história. A confiante talvez tenha se tornado "aquela que aprendeu a ser ela mesma superando dificuldades". A medrosa talvez se apresente como "aquela que, por sofrer violências, decidiu que era melhor se retrair". A personagem agressiva talvez seja "a pessoa que ataca por medo de ser atacada" ou apenas "a pessoa que precisa de afeto mas não sabe como conseguir". Cada personagem tem sua própria história. Ou melhor, cada personagem conta a nossa história de um jeito. Converse com as suas personagens. As que estão sempre aí e as que estão lá no fundo, quase caladas. Pergunte-lhes como poderiam se expressar mais harmoniosamente, em que tipo de situação cada uma delas poderia ajudar. Peça-lhes que contem suas histórias de vida, seus medos e desejos. E, acredite, elas contam mesmo! Lembre-se que para que o maestro escolha com sabedoria e eficiência qual personagem irá atuar numa situação, ele precisa conhecer muito bem a todas elas. O contato mais estreito com as personagens que habitam em nós nos dá dicas valiosas de como viver com mais harmonia e de como ser quem realmente somos.

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