quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Perdoar o passado e seguir em frente

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós." - Jean Paul Sartre (escritor e filósofo existencialista francês - 1905-1980)


A vida nem sempre é um caminho plano e florido. Algumas vezes podemos nos deparar com pedras, com buracos profundos ou com subidas tão íngremes que nos fazem duvidar da nossa capacidade de continuar. Algumas vezes, percebemos o obstáculo e habilmente o contornamos. Outras vezes, porém, só percebemos o buraco quando já estamos lá dentro. Ou só vemos a pedra quando já temos os joelhos esfolados pelo tombo. Acidentes acontecem no caminho de todos...

O que fazer? No dia 1º de novembro de 1755, a cidade de Lisboa foi devastada por um terremoto de quase 9 graus de intensidade. Não bastando isso, houve em seguida um tsunami e um grande incêndio que durou por volta de 5 dias. A maior parte das construções foi totalmente destruída ou seriamente danificada. Não se sabe o número de mortos, mas estima-se entre 10 mil e 100 mil. Desastre? Imagine só, em meio a tudo isso, uma grande onda de saques! Na ocasião, com o caos sob controle, o rei Dom José, vendo a dimensão dos estragos, perguntou ao general Pedro D'Almeida o que se poderia fazer. E a resposta foi simples, mas muito sábia: "sepultar os mortos e cuidar dos vivos".

Porque não usar as pedras do caminho para
construir algo que nos leve mais longe?
Sempre me lembro dessa pequena história. Porque algumas vezes é o que nos resta fazer, deixar ir o passado e cuidar do que ainda tem jeito. Ao contrário do que muita gente pensa na hora do problema (seja uma doença, problemas de relacionamentos, perder o emprego, acidentes ou o que for), os contratempos, maiores ou menores, não são exclusividade de ninguém, em algum momento acontecem com qualquer pessoa. Claro que muitas coisas podem ser previstas e prevenidas. Outras, no entanto, fogem ao nosso controle. Para quem gosta de escrever, se a sua vida fosse um livro, estou falando daquele momento mágico em que a história parece ganhar vida na imaginação do escritor e se desenrolar por si só. O fato é: a coisa aconteceu. E não foi agradável.

Outra vez, o que fazer? "Sepultar os mortos e cuidar dos vivos." O que aconteceu, por mais terrível que tenha sido, agora é parte de você porque ajuda a contar a sua história. E nesse sentido, o acontecimento sempre vai estar lá e sempre vai te marcar, de uma forma ou de outra. Eu sei bem como muitas vezes é mais fácil culpar outras pessoas, só porque dói tanto admitir que uma coisa realmente ruim aconteceu com a gente, mesmo que há muito tempo atrás. E sei também que em muitos casos, a culpa é mesmo do outro (por exemplo, casos de estupro, agressões ou outras formas de violência gratuita).

O primeiro passo depois da queda é avaliar os danos, admitindo assim o que aconteceu, mesmo que apenas para si mesmo. Sim, determinado fato aconteceu, faz parte da minha história e me faz sentir ... (insegurança, medo, raiva, culpa, solidão, tristeza, etc.). Avalie os danos. Desde que passou por isso, o que mudou? Quais dificuldades surgiram? De locomoção (em caso de acidentes físicos), dores, medos, insegurança, dificuldades de relacionamento... É importante, depois que algo grave acontece na nossa vida, deixar que esses sentimentos saiam. Não tenha vergonha de chorar a sua perda, seja ela a perda da saúde, da paz interior, do emprego, de um relacionamento... É como se você dissesse para si mesmo algo como "sim, aconteceu e me afetou desse jeito". Porque ignorar só vai tornar tudo mais difícil. Afinal, como superar um problema que eu não admito que existe? É como lutar contra moinhos de vento!

O segundo passo, já disse Pedro D'Almeida, é cuidar dos vivos. Admitiu o que houve, viveu o seu luto pelo tempo que precisou, percebeu as reações que o acontecimento desencadeou em você e/ou na sua vida. Agora vamos ver o que restou. O que ainda está inteiro aí? Ou o que pode ser consertado, reconstruído? Existem problemas que trazem uma solução criativa e inovadora bem escondidinha, só é preciso olhar bem. Você deve conhecer histórias assim. O grande executivo que após ser demitido ou após um período de doença ou de estresse intenso resolveu mudar tudo e abrir um restaurante porque gostava mesmo é de cozinhar e de ver as pessoas juntas e felizes. Ou a pessoa que sofreu algum tipo de violência e, ao se recuperar, tornou-se uma militante ativa pela paz ou pelos direitos das minorias. Ou o garoto desengonçado que sofreu bullying e hoje busca conscientizar outros jovens de que as diferenças são o maior tesouro que temos. Ou a pessoa que nunca teve um bom relacionamento com os pais e decidiu fazer diferente com os filhos. Existem muitas histórias como essas. Algumas vezes os diamantes mais valiosos estão escondidos sob as pedras mais brutas.

Depois do tombo, só poderemos seguir em frente se nos levantarmos. Do contrário a pessoa poderá, no máximo, se arrastar pela estrada. E, acredite, isso causará mais estragos do que tomar coragem para levantar! Essa coragem vem quando olhamos para o que houve e pensamos sobre isso e sobre o que nos causou, dando um sentido ao acontecimento, o que faz com que ele se encaixe na nossa história e ganhe coerência. A partir daí poderemos realmente perdoar. Não apenas os outros envolvidos na situação, mas perdoar principalmente a si mesmo e ao fato em si, através da compreensão e da aceitação dos nossos sentimentos. E aí sim podemos levantar e seguir em frente, ainda mais fortes do que costumávamos ser.

6 comentários:

  1. Oi Bia!
    É ter consciência da finitude da vida e de que o nascimento não foi opção. Porém viver é uma escolha e anular a vida é uma tolice. O hoje, na verdade, é tudo o que temos para o dia.
    Prazer estar aqui! Com tempo, venha ler e comentar MUY AMIGO SECRETO no http://jefhcardoso.blogspot.com
    Caso goste do texto e do blog conto com seu voto na 2ª fase do Top Blog 2012, obrigado.
    Abraço e tenha um bom dia!

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    1. Obrigada pelo comentário, Jeferson! Realmente, só temos o agora. Não é a toa que o presente tem esse nome!! Vou lá conhecer seu blog sim!
      Abraço

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  2. Bia, achei sei blog hoje por acaso. Achei o texto maravilhoso. Aos poucos vou lendo os outros ;)

    Rogéria Ribeiro

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    1. Obrigada, Rogéria, fico muito feliz que tenha gostado! Ah, e venha ler sempre que quiser, publico um novo texto toda semana. =)
      abraço

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  3. Muito bom o blog, Bia.

    Abraços
    Admirador anônimo

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    1. Muito obrigada! Fico feliz que esteja gostando! Volte para ler sempre que desejar.
      abraço

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