quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ser o melhor X Ser Feliz

"Nunca imites ninguém. Que a tua produção seja como um novo fenômeno da natureza." (Leonardo da Vinci - século XV)

Vivemos num mundo altamente competitivo. Isto não é uma novidade, basta olhar em volta: o funcionário do mês tem sua foto exibida em local de destaque na empresa. Um motorista fica irritado de um jeito fora do normal quando outro o ultrapassa num engarrafamento (ficando à frente incríveis dois metros!). Muitos colégios organizam as turmas de acordo com as notas dos alunos. E, em muitos deles, as turmas são rearranjadas segundo o mesmo critério após cada prova ou atividade. Boa parte dos jogos e brincadeiras são baseados em competição, um ganha e os demais perdem, mas o importante, tentam consolar, é se divertir. Até mesmo a conversa com os amigos e familiares deixa de ser uma troca afetiva para ser reduzida a contar vantagens e mostrar como somos "bons", ou pior, a falar mal de alguém (que geralmente não está lá) numa tentativa de convencer a si mesmos de que são melhores que a pessoa sobre quem se fala. E assim passamos boa parte da vida tentando mostrar para todos (ou para nós mesmos?) como somos "melhores".

Mas para que competir? A competição saudável move o nosso mundo, alguém pode responder. Isso até pode ser verdade no mundo empresarial, se bem que hoje em dia boa parte das empresas vem repensando essa postura. A competição, seja no mundo do trabalho ou no dia a dia, geralmente surge das comparações. Vejo muito isso nas famílias quando os pais comparam seus filhos/as: "Joaninha é mais esperta que o Bruninho, veja só como lê bem e é mais nova que ele!" Esquecem de comentar que o Bruninho tem outras qualidades ou outros interesses ou talvez não leia tão bem porque precise de óculos. Quando as comparações são frequentes, a pessoa que é diminuída acaba por acreditar que não deve mesmo ser muito "boa" e que precisa se esforçar ao máximo para alcançar os demais, muitas vezes sem questionar se é isso o que ela realmente gostaria. Talvez, se os próprios pais ou pessoas queridas fazem esse tipo de comentário, a pessoa comece a sentir que vive num meio muito exigente e que lhe oferece poucos apoios, não lhe permite ser como é. E temos aí os ingredientes perfeitos para uma competição desenfreada, acompanhada de sentimentos de baixa autoestima, estresse e, com o tempo, depressão ou mesmo doenças psicossomáticas. Precisamos mesmo disso? "Ah, mas competindo aprendemos a ganhar e perder, a lidar com sucessos e frustrações!", alguém pode comentar. Sim, de fato aprendemos, desde que essa competitividade se mantenha em níveis saudáveis e em contextos apropriados. O valor da pessoa não pode ser reduzido ao desempenho dela no trabalho, num jogo, num esporte, nos estudos ou no que for. Um desempenho "bom" ou "ruim" é apenas uma informação sobre uma tarefa ou atividade. É algo que aconteceu e passou, nunca algo que determina o valor de uma pessoa ou quem ela é. 

Costumo dizer na clínica que a vida não é uma corrida, é um caminho a ser percorrido com prazer, apreciando a paisagem e os bons encontros. Para pensar nesta semana: quais competições são saudáveis e quais não têm sentido na sua vida? Procure identificar com quem você compete (colegas, familiares, amigos, desconhecidos ou com você mesmo?) e se a outra pessoa realmente está competindo com você ou está apenas vivendo a vida dela, muitas vezes sem perceber suas intenções competitivas. Como disse certa vez um professor meu, procure perceber se você não estaria competindo com pessoas que cooperam com você. Mais uma: analise em quais áreas da sua vida você tende a competir mais e em quais áreas você se permite viver com maior tranquilidade. Quando competimos procuramos corresponder ao que esperam de nós, ao que "deveríamos ser" ao invés de ser a gente mesmo. Quando aceitamos entrar numa competição sem sentido, trocamos a oportunidade de escolher como gostaríamos que a nossa vida fosse, escolher o que nos deixa feliz, para apenas corresponder a um padrão. É "o melhor" em algo que não faz sentido algum medir como melhor ou pior? Meus pêsames, acabou de trocar a sua originalidade para entrar num modelinho pronto!

Que alternativas nos restam? A cooperação! Como chegar a ela? Em primeiro lugar tendo essa intenção, tendo consciência de que as outras pessoas não estão aqui para te dar rasteiras. Rubem Alves certa vez escreveu um texto muito bonito sobre relacionamentos, no qual ele diz que um relacionamento (de qualquer tipo) para ser saudável deve ser como um jogo de frescobol, em que o objetivo é não deixar a bola cair, e não como um jogo de tênis, em que os jogadores jogam bolas quase impossíveis de pegar. Aliás, jogos cooperativos são ótimas opções para exercitar a nossa cooperatividade, o frescobol é um deles, e você pode encontrar vários na internet ou livros próprios sobre este assunto, com variado número de participantes. Se você tiver crianças, elas costumam gostar bastante desse tipo de jogo, que ensina o valor da amizade, a confiança e a conviver bem com as diferenças de cada um. E por que não jogar entre adultos também? Certa vez uma paciente me ensinou algo lindo quando disse que queria jogar um jogo em que ninguém perde ou ganha, a gente apenas joga juntas e se diverte porque é gostoso ter companhia e poder contar com alguém. Experimente. A cooperação nos ajuda a nos sentirmos amados e valorizados, parte de um todo que vai muito além do nosso próprio umbigo.

2 comentários:

  1. Esse texto me veio em momento certo. Ultimamente estive refletindo sobre a ânsia por competição qual as pessoas alimentam. Eu nunca gostei dessa ideia, mas conforme passa o tempo a sociedade me cobra... Seu texto concretizou a minha, anteriormente abalada, opinião: a competição faz mal.

    Há poucos dias uma professora lançou as seguintes palavras à classe: "Tem de haver competição sim! Esse negócio de que todos são amigos de todos (cooperação), não existe." Lamentei por ela, e pelos alunos que aderiram inconscientemente a isso.

    Boa noite.

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    1. Ótima observação, Criança Lúdica. Muita gente pensa isso da cooperação, infelizmente. Confundem cooperar com ser amigo de todos. Mas cooperar não é bem isso, cooperar é quando todos constroem juntos uma realidade mais saudável, todos buscam juntos chegar a mesma meta. Não precisa ser amigo nem gostar de todo mundo (aliás, como gostar de todo mundo?). O que precisa é ter respeito por todos, independente de gostar ou não das pessoas. Quando respeitamos as nossas diferenças, convivemos bem com as diferenças dos outros. É nas diferenças que podemos ser quem realmente somos. E só existe cooperação quando existem diferenças.
      Abraço.

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