quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ouvir a voz interior

"Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fossemos feitos de ferro." - Sigmund Freud (criador da psicanálise, 1856-1939)

Hoje vamos falar sobre ouvir a voz interior. Ou sobre ouvir a voz do coração, em palavras mais poéticas. Para muita gente isso é besteira. Para muitos outros, "é claro que me escuto, o que você pensa que faço o tempo todo? Não sou um alienado!" Mas será que ouve mesmo? Pergunto porque, com muita frequência, pessoas desses dois grupos me procuram com a queixa que revela o principal sinal de que a pessoa não se ouve: "parece que a minha vida não caminha exatamente para onde eu gostaria que ela fosse". E aí vem o primeiro baque, porque quem caminha não é a vida, é o próprio sujeito! É a pessoa quem não está indo para onde gostaria, e não a vida! E é claro que aí nada mais na vida faz sentido, pois o sentido (perdão pelo trocadilho!) em que a pessoa avança não é aquele que ela gostaria.


Quando isso acontece na vida de alguém, as consequências podem ser as mais variadas, de sintomas físicos  (corriqueiros ou mais graves, incluindo alergias, dores misteriosas sem causa concreta, pequenos e grandes acidentes) a depressão, síndrome do pânico ou compulsões (por compras, por comida, por sexo, etc.), passando pelos sentimentos de insatisfação, tédio e vazio. Observe bem se você não se sente assim. Talvez não o tempo inteiro, mas em alguns momentos da vida (se você observar com cuidado perceberá que são os momentos em que "a vida" não foi para onde você esperava que fosse).

Muito bom, identificamos a raiz da questão! Quem gosta de jardinagem sabe bem que não basta cortar as ervas daninhas de um vaso de flores ou de um canteiro de legumes, é preciso remover as raízes, caso contrário ela voltará a crescer e provavelmente vai prejudicar a plantinha que estamos cultivando. O que quero dizer? Oras, não basta tentar preencher o vazio que você sente comprando tudo o que vê pela frente ou se entupindo de comida ou de remédios para dor. Nem adianta justificar a falta de esperança alegando que tem depressão/alergias/enxaqueca/etc. Vamos olhar para o problema sem medo!

O tratamento mais funcional e menos invasivo? Ouvir a voz interior. Ela pode falar com você através de sonhos (aliás, eu super recomendo a todos que anotem seus sonhos, mesmo que se lembrem apenas de uma pessoa ou uma cor ou uma sensação...). Pode falar de forma mais concreta nos planos que temos ou que gostaríamos de ter. Se você pudesse fazer qualquer coisa de sua vida, o que faria? Não precisa se jogar de uma vez num a grande mudança, comece devagar e respeite o seu ritmo. O que você gostaria de fazer num final de semana livre, por exemplo? Ir a festas? Sair com amigos? Visitar aqueles parentes que você não encontra há muito tempo? Passar o dia num parque ou na praia? Ou se permitir ficar em casa assando pão e lendo amenidades? Mas pense bem! É o que você gostaria que conta aqui, e não que que você pensa que os outros acham que você deveria gostar! Pode parecer banal pensar nas próprias preferências, mas, se eu sugerir os leitor que faça uma pequena lista com dez atividades que realmente goste de fazer, muitos terão dificuldade. Ah, e quando resolvemos ignorar nossa voz interior (porque não paramos para ouvir ou apenas porque é mais "prático" assim), ela continua falando mais e mais alto, na forma de sintomas físicos, mentais, emocionais...

Vamos lá, aqui vai uma pequena atividade para ajudar no processo de ouvir a si mesmo. Pegue uma folha de papel e dobre duas vezes, formando assim quatro espaços. No primeiro espaço, coloque o título "gosto e faço". No segundo, "gosto e não faço". No terceiro, "não gosto e faço". E no último, escreva "não gosto e não faço". Agora respire fundo e limpe a mente. Diga a si mesmo que você está protegido dos olhares e julgamentos dos outros, pode apenas ser você mesmo e ser sincero com você. Agora, preencha os espaços com pelo menos cinco atividades em cada um. Vale qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Desde que elas se refiram a você e a sua realidade, e não a forma como você acha que deveria ser. Terminou? Agora vamos ver... qual dos espaços foi mais fácil de preencher e qual foi o mais difícil? Qual dos espaços tem a maior lista? E a menor? Mais do que isso, em quais estratégias você pode pensar (e colocar em prática!) para mudar esse panorama, se for o caso? Procure se ouvir, se conhecer. Procure no seu dia a dia prestar atenção em como os ambientes, as diferentes relações, as atividades, etc. te fazem sentir. Será que precisa mesmo continuar com o que não te faz bem? Se precisar, será que não tem um jeito de tornar a coisa melhor? Percebo que a questão não é fazer o que não se gosta, afinal ninguém gosta de tudo o tempo todo. O problema é nunca fazer o que se gosta. É aí que chegam os sintomas e a sensação de vazio. E aquela impressão de que "a vida" não anda (ou pelo menos não para a direção que queremos).

É importante ouvir a voz interior e caminhar para onde gostaríamos que a nossa vida fosse. Porque no fim, a vida é nossa, e a única pessoa que você tem o compromisso de fazer feliz é você mesmo. Não quero dizer que precise atropelar os outros, mas sim que apenas nós podemos dizer as palavras que saem dos nossos lábios e apenas nós podemos caminhar com os nossos pés. Ninguém pode fazer isso por nós, ao mesmo tempo em que não podemos fazer isso por ninguém. Não basta apenas agir na vida. As nossas ações precisam fazer sentido para a gente, em palavras mais psicológicas, as escolhas precisam ser autônomas, fruto da nossa decisão pessoal e sincera. Ouça sua voz interior. E faça por você o que mais ninguém pode fazer: busque o que faz a sua vida ter sentido, faça valer a pena!


2 comentários:

  1. Bia, muito legal seu texto.

    Há algum tempo venho tentando me conhecer melhor, me escutar, assumir que o que é melhor para a maioria (como focar um objetivo de vida na riqueza) talvez não seja bom para mim.

    É realmente incrível a paz que temos quando estamos em sintonia com nossos desejos e quando descobrimos quais são as nossas vontades e não as dos outros.

    E seus textos têm me ajudado bastante nesse processo.

    Obrigada

    Rogéria Ribeiro

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    1. Obrigada pelo comentário, Rogéria. Acredito que a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmos é a gente se conhecer de verdade. A peregrinação, a viagem que nos transforma, é a viagem pelo o nosso mundo interior, ao encontro de quem somos.
      abraço

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