quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que não valorizamos as boas notícias?

"Seja como for o que penses, creio que é melhor dizê-lo com boas palavras." - William Shakespeare

Vivemos na era da informação. Ninguém quer ficar desinformado. Chegamos ao ponto de ter canais de TV especializados em jornalismo 24 horas. Sites na internet constantemente atualizados com as notícias mais recentes. Mas poucas vezes se para e pensa no teor das notícias e no impacto que podem ter sobre nós.

Os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, em seu livro A Construção Social da Realidade, afirmam que construímos a realidade em que vivemos (e a nós mesmos) através da linguagem. Interiorizamos um discurso, seja ele vindo de pessoas (em especial aquelas que os autores chamam de "outros significativos", por exemplo, nossa família, amigos, companheiros, enfim, pessoas que têm uma importância maior em nossas vidas e cujas palavras também terão grande importância para nós), ou o discurso vindo de instituições, como a escola, a ciência, as religiões, a mídia... Após interiorizado (ou seja, quando lemos ou ouvimos o que foi dito ou escrito - ou ainda quando percebemos o que nos foi transmitido por linguagem não verbal: comportamentos, ações, imagens, expressões faciais...), o discurso é "digerido", passando por um processo em que refletimos sobre ele, fazendo correlações com outras informações que temos, sejam elas técnicas, pessoais, histórias que ouvimos de amigos, lembranças... Por fim, exteriorizamos o discurso, agora marcado pelos nossos próprios conteúdos. E, enquanto fazemos isso, o interiorizamos outra vez, por exemplo, quando ouvimos o que dizemos. Logo, existe uma grande quantidade de discursos e informações disponíveis para serem interiorizadas e passarem pelo processo descrito. Consensos são criados nesse diálogo que nunca para e nunca termina ou, usando as palavras dos autores, são criadas referências. Formamos assim, um conjunto de referências: ideias e símbolos compartilhados entre nós todos, também conhecido como cultura.

Faça uma experiência: passe um dia inteiro vendo e
valorizando o que há de bom na vida, em você, nos
outros,  na realidade...
Comecei toda essa conversa acadêmica para mostrar como aquilo que vemos, ouvimos ou percebemos marca o nosso mundo interno e a nossa identidade, refletindo também na nossa realidade externa. Claro que não somos uma esponja, temos crítica, ao longo da vida aprendemos a separar o joio do trigo. Mas, uma vez que conhecemos uma ideia, ainda que não nos agrade, já não somos mais os mesmos. Por que, então, não valorizar mais as boas notícias?

Entendo que, na era da informação, precisamos estar bem informados sobre o que acontece ao nosso redor. E nem sempre são coisas boas. Agora, sei também que tudo tem limite. Não basta saber que houve um terrível acidente aéreo  com X vítimas? Muitos gostam de acompanhar as investigações das causas de um acidente. Mas será que é mesmo necessário, em nome da informação, ver por dias a fio, às vezes por semanas, o choro daqueles que perderam alguém importante ou as imagens dos destroços? Qual é o limite entre a informação e a exploração da dor do outro? Na era da informação, esse limite, se existe, não é claro.

Por que, então, compactuar com isso? Veja bem, não estou defendendo a alienação, só estou questionando com que tipo de discurso temos alimentado nossas mentes. Que tipo de discurso você permite que se torne parte de você e ajude a construir sua realidade? Quais são as suas referências?

Uma curiosidade interessante é que têm aparecido mais e mais sites apenas sobre boas notícias. Pode parecer estranho, mas se existem jornais apenas sobre crimes e perseguições policiais (com grande audiência, devo acrescentar), por que não um sobre boas notícias? Um desses sites que gosto de acompanhar é o Só Notícia Boa (conheça clicando aqui), onde podemos ler desde novidades sobre músicas, filmes e livros, notícias sobre tecnologia e ciência, saúde, economia, educação e mesmo sobre acontecimentos de solidariedade entre pessoas. Por que paramos tudo para saber sobre um crime horrendo e cruel, mas não prestamos atenção a algo bom?

Uma atitude sensata seria valorizar mais as boas notícias. Já notou como o tempo dedicado a elas na TV, por exemplo, é muito menor que o tempo dedicado às tragédias, crimes ou problemas do tipo que for? Ninguém voltou a entrevistar os medalhistas olímpicos alguns meses após os jogos, como fazem com familiares de vítimas de acidentes de grande repercussão ou com acusados de crimes bizarros. O telejornal de horário nobre não reprisou aquela notícia boa sobre o vizinho que ajudou outros moradores durante uma enchente. Ou sobre o garoto simples e humilde que passou no vestibular. Ninguém foi lá acompanhar como é o dia a dia dele, como foi a rotina de estudos e o que mudou na vida dessa pessoa com o acontecimento. E, se alguma emissora reprisou a matéria sobre um novo medicamento ou vacina descoberto por cientistas brasileiros, na certa cortou a maior parte da reportagem. Por que? Por que negar a esperança?

As boas notícias (sejam da mídia, dos amigos ou dos grupos dos quais fazemos parte) são importantes porque nos trazem esperança. Nos fazem acreditar que algo melhor é possível e viável. E é a esperança o que nos faz continuar. Certa vez quando eu era estudante de psicologia, durante uma orientação para minha iniciação científica, meu orientador, Prof. Dr. Ricardo Franklin Ferreira, me disse o seguinte: "você acorda cedo e vem para a universidade todos os dias não porque gosta de aprender, mas porque tem esperança em algo melhor. Você sabe que, a cada manhã que você vem para cá, está um dia mais perto de ser a psicóloga que vai se tornar no futuro." Essa fala me marcou e me inspira até hoje. Sim, somos seres movidos pela esperança. E só há esperança quando alimentamos nossa mente, nosso ser, com bons discursos. Claro, com consciência de que coisas ruins também podem acontecer. Mas sem negar a felicidade, pois ser feliz não é um crime. Talvez por isso não dê audiência.

2 comentários:

  1. Acredito muito na teoria do copo: Você pode vê-lo muito cheio ou muito vazio. Sempre fui muito pessimista e insegura antes de começar a aplicar essa teoria na minha. Às vezes nos prendemos tanto nos aspectos ruins de alguma coisa que acabamos incapacitados de ver o lado bom. Se você passa o dia inteiro conectado a informação negativa começa a contestar o valor da vida. Afinal, em um mundo com tanta coisa ruim, vale a pena mesmo viver? Como um professor me disse uma vez, os bons são maioria, só que praticam suas ações em silêncio, enquanto o mal faz questão de deixar suas atitudes claras. A quantidade de bons ações no mundo pode ser maior, ou igual, a quantidade de crimes e desastres. Só que como você mencionou, o bem não dá tanta audiência... Uma pena!

    Adorei o blog, tem muito conteúdo e você escreve muito bem!

    Beijos ;*

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    1. Falou tudo, Beatriz. Temos mesmo que usar o otimismo (ou a criatividade?) e ver que toda situação, mesmo que pareça ruim, traz algo de bom. Às vezes bem escondidinho, mas traz. Obrigada pela visita e pelas belas palavras! Espero te ver por aqui mais vezes.
      beijos

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