quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que é ter foco?

"Tente mover o mundo - o primeiro passo será mover a si mesmo." - Platão (pensador grego do século V a.C.)

Hoje em dia, com a valorização cada vez maior da vida profissional, ouvimos muito sobre a necessidade de ter foco. Ter foco nos estudos para passar no vestibular. Ter foco na carreira para ser um profissional melhor e receber as regalias que isso envolve (benefícios, promoções, prestígio social...). Mas, afinal, o que é ter foco? E como saber se o temos na medida "certa" (usarei aqui o termo saudável, me nego a pensar o ser humano em termos de certo ou errado).

Todos precisamos de metas. Elas nos ajudam não apenas a direcionar nossos esforços e recursos para algo que nos faria sentir realizados e felizes, mas também fazem com que nossas ações ganhem um sentido. Seja qual for a sua meta, é muito importante que você tenha consciência dela, para que haja com clareza. Aliás, é muito bom que se tenha mais de uma meta, em diversos setores da vida. Alguém pode manter o foco em começar um novo projeto profissional, passar a fazer exercícios físicos, melhorar a vida afetiva e planejar uma viagem para as férias, por exemplo, sem que uma meta prejudique a outra. Além disso, com mais de uma meta, a chance de atingir um objetivo aumenta... no popular, é pouco provável que tudo, em todas as áreas da vida, dê errado de uma só vez!

É, eu sei, algumas pessoas com astigmatismo sentem tontura
ao olhar para esta foto. Sentiu? Visite seu oftalmo!
A primeira coisa que deveríamos perceber é se todas as nossas metas são compatíveis. Já se diz na física, dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, assim como um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. O que quero dizer? Não dá para planejar passar as festas de final de ano em casa com a família e também planejar uma viagem nessa época. Uma das metas será frustrada. É bem difícil planejar arrumar mais um emprego e também passar mais tempo com as crianças... Mas, é claro, tudo pode ser reajustado. Posso ter dois empregos e reservar os domingos como dias de brincadeiras e passeios com os pequenos. Posso planejar uma viagem com a família na época das festas. Tudo pode ser ajustado e planejado para que fique o mais fiel possível ao nosso ideal.

Mas até que ponto o foco é saudável? Costumo dizer que o foco não pode ser tão fraco que faça a pessoa se sentir perdida na vida, nem excessivo a ponto de fazer da pessoa uma bitolada que, em prol de conseguir o que quer, atropela tudo e todos que estiverem na frente, até a própria saúde. Nesse caso, muito frequente em pessoas viciadas em trabalho, os famosos workaholics, é importante parar e repensar, ir abrindo pequenas brechas aos poucos no corre corre da vida. É preciso ver que outras esferas da nossa vida são tão importantes quanto aquele super negócio com os empresários americanos... Ajuda especializada com um profissional de psicologia pode ser muito útil se este for o seu caso.

No outro polo temos o contrário. Aquela pessoa "sem foco". O primeiro ponto a ser pensado nesse tipo de caso é se a pessoa realmente não tem foco. Porque em boa parte dos casos, o que acontece é que a pessoa tem focos diferentes daqueles que a sociedade valoriza. Talvez esteja empenhada em ser uma pessoa muito presente na educação dos filhos enquanto eles ainda são pequenos. Ou em conhecer o maior número de lugares e culturas diferentes. Ou em buscar algum tipo de espiritualidade que preencha a vida com um sentido especial. Ou em tratar algum problema de saúde. Ou em algum projeto profissional extra oficial. Enfim, muitas vezes as pessoas apontadas como alguém sem foco (muitas chegam a acreditar nisso!) na verdade têm apenas um foco pouco valorizado pela sociedade, focada em produzir e acumular. Talvez ela viva bem assim. Talvez até dê risada quando lhe perguntam se não gostaria de ter um foco como a maioria.  Em alguns casos, no entanto, pode ser necessário ajustar o foco para que englobe também os setores da vida que, supostamente, vêm sendo negligenciados, pois tal como o hiperfoco em trabalho, existe a pessoa muito focada em festas, por exemplo, numa medida em que isso atrapalha o bom andamento das outras esferas da vida, como os estudos, trabalho, relacionamentos... Será que não se pode ter algum outro tipo de atividade (profissional, um curso, um hobbie...) no período do dia em que as crianças estão na escola? Ou reservar as viagens apenas para as férias, feriados e finais de semana, mantendo uma rotina mais regular nos demais períodos?

Claro, em alguns casos a pessoa realmente não tem um foco. Pode ser o caso de quem apenas se sente meio "perdido", incerto sobre qual caminho escolher. E aí será preciso repensar sobre as escolhas que faz - e, principalmente, sobre as que gostaria de fazer. Pode ser também que a pessoa tenha uma grande dificuldade em manter a atenção em um estímulo. É o caso de pacientes com déficit de atenção, associado ou não à hiperatividade. Pessoas com esses transtornos, quando começam a fazer algo (assistir um filme na TV, por exemplo), são desviadas da tarefa por inúmeros estímulos, algo que vê pela janela, o comentário de alguém, uma ideia que vem de repente... Se for o seu caso, busque ajuda com um psicólogo, pessoas com déficit de atenção e/ou hiperatividade podem sim levar uma vida normal. Ah, mas observe bem! É bem frequente que pais tragam seus filhos com suspeita de déficit de atenção só porque não faz as lições ou não vai bem na escola. Pergunto: e numa atividade que ele gosta (um jogo, um programa de TV, uma brincadeira, o video game...), ele mantém a atenção? Quase sempre a resposta é sim. Damos então a boa notícia: isso não é transtorno de déficit de atenção/hiperatividade! Pode ser um desestímulo com relação aos estudos (ou à vida profissional, no caso de adultos). Pode ser um desencorajamento com relação à escola (por fatores que vão da criança precisar de óculos, insegurança, baixa autoestima ou mesmo casos de bullying ou assédio). Pode ser que apenas não seja incentivado a estudar em casa (tem um horário e um local adequado para os estudos e tarefas?). Pode ser, ainda, que o problema não seja a aprendizagem, e sim a "ensinagem" como diz Rubem Alves. Cada caso é um caso e precisa ser avaliado com cuidado.

Há casos, porém, em que mesmo sem transtorno algum, a pessoa não consegue manter o foco. Sabe aquela velha história do grupo de estudantes que se reúne para fazer aquele trabalho super importante ou para estudar para os testes finais mas, no processo, acabam comentando sobre o jogo da seleção que transmitiram ontem, ou combinando alguma coisa para fazer no final de semana e, no fim, acabam por deixar de lado a meta - o trabalho a ser feito. Quem nunca? Pode acontecer fora do grupo também, em qualquer área da vida. O livro que você ia ler mas abandonou. O passeio que planeja mas nunca faz. A conversa importante cujo assunto é desviado para uma infinidade de outros tópicos, irrelevantes.

O que fazer para melhorar o foco? Primeiro é preciso saber com clareza qual é a meta. Algumas vezes, escolhemos a meta de acordo com nossos desejos e valores pessoais: planejar um passeio, por exemplo. Outras vezes, não fomos nós que, diretamente escolhemos a meta (estudar para uma prova, por exemplo). Segundo: não tenha dó de si mesmo! Nem sempre fazemos o que queremos quando crescemos, muitas vezes fazemos o que precisa ser feito. Não é agradável, por exemplo, para um paciente com sequelas de um AVC ter que vir à reabilitação sabendo que dificilmente voltará a ser como antes. Dói. É chato. Mas precisa ser feito. Tendo clareza da meta, essas são algumas alternativas que podem ajudar a manter o foco:
- Ter um lugar e estrutura adequada. Por exemplo, se você estudar ou trabalhar sentado à mesa, a oxigenação do cérebro (e a atenção) melhoram muito.
- Ter um período para se dedicar à atividade. Se quer passar a praticar exercícios, reserve um horário certo para sua caminhada, por exemplo. Isso dará disciplina, fará com que você crie um compromisso consigo mesmo. O mesmo vale para a hora da lição, da leitura, do planejamento do novo projeto...
- Tenha uma agenda ou listas de atividades. E risque cada tarefa conforme for cumprida. Isso não só ajuda na organização e planejamento, como também faz o cérebro visualizar o quanto já caminhamos, nos estimulando a continuar.
- Ter metas estimulantes e que você realmente queira atingir ajuda (muito!) a manter o foco.
- Pense estrategicamente. Nem sempre o caminho óbvio é o mais indicado, nem o mais estimulante, nem o mais eficaz. Ou, em alguns casos, o óbvio pode ser a solução. Avalie.

Acima de tudo, tenha metas. Metas que valem a pena e que façam sentido para você. Por mais óbvio que pareça, muita gente não se dá conta de que, se não tem meta, também não tem foco. Afinal, como focar algo que não existe? Algumas metas são mais difíceis e trabalhosas, mas, se é o que queremos para nossa vida, valem a pena. Como disse Viktor Frankl, um psicanalista austríaco que sobreviveu ao campo de concentração na II Guerra, "quem tem um porquê enfrenta qualquer como."


4 comentários:

  1. Bia, acho que este foi o melhor texto que vc publicou agora, mas talvez seja porque foi com o qual eu mais me identifiquei. Vc aliou leveza, clareza, coerência, trouxe elementos externos que enriqueceram a espécie de narrativa que vc combinou com um texto com elementos técnicos traduzidos a uma linguagem mais acessível a todos.

    Fiquei também bastante tocado por ser eu mesmo um potencial "deficiente de atenção", além de procrastinar.

    Enfim, quero agradecer pela sua publicação

    Abraço
    Admirador anônimo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Puxa, muito obrigada!
      Fico feliz por saber que o texto tenha ajudado a refletir sobre sua realidade.
      Ah, e lembre-se que todos temos momentos em que a atenção não está 100% sem que isso seja um transtorno mental. Até computadores de vez em quando travam.
      Abraço

      Excluir
  2. Sim, verdade. Foi o que eu imaginei. Melhor realmente seria procurar ajuda profissional.

    Esqueci de dizer que acho que você deveria continuar escrevendo seus textos e depois reunir alguns e publicar de forma impressa. São realmente muito interessantes.

    Abraço
    Admirador anônimo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada outra vez. Esta é uma ideia a ser planejada com dedicação (e que eu gostaria muito!).
      Abraço

      Excluir