quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Você já planejou a sua velhice?

"O importante não é por quanto tempo viverás, mas que qualidade de vida terás." - Sêneca (jurista e escritor do Império Romano, 04 a.C. - 65 d.C.)

No último final de semana estive presente no V Seminário de Psicogerontologia da UNIP, em São Paulo. Foram discutidos diversos temas ligado ao envelhecimento e aos idosos, como qualidade de vida, relação com as famílias, estratégias usadas pelo psicólogo no trabalho com pacientes idosos, doença de Alzheimer, depressão e outros transtornos que podem surgir com o envelhecimento. Mas também se discutiu muito sobre o envelhecimento saudável, que é sobre o que eu gostaria de comentar com vocês. Afinal, tanto faz se você tem 15 anos, 35, 55 ou 85, estamos todos envelhecendo!

O convívio entre diferentes gerações faz bem para todos nós,
mais jovens ou mais velhos.
Vamos começar com alguns números. Segundo o psicólogo americano Donald Schultz, que apresentou uma videoconferência no evento, em 2065, haverá mais de 5 milhões de centenários apenas nos Estados Unidos. Isso me chamou muito a atenção. Em 2010 estive presente em outro evento de gerontologia na PUC-SP, onde falou-se muito na 4a idade (idosos a partir dos 80 anos) e sobre como havia tanta gente na 4a idade em São Paulo. E agora, apenas dois anos depois, fala-se em centenários e em super centenários (120 anos). Pessoas nessas faixas etárias serão cada vez mais presentes e precisamos conhecer suas características e necessidades, para lidar com elas da melhor maneira possível. A  expectativa de vida vem aumentando de forma alarmante. Assim, se pensamos numa vida de 120 anos, seremos idosos durante metade desse tempo (dos 60 aos 120 anos). É preciso pensar não apenas em estratégias para que o processo de envelhecimento ocorra com saúde, mas também é necessário rever a visão que temos das gerações mais velhas.

Maria Luisa T. Bestetti, no ótimo texto "Falando de arquitetura em moradias para idosos", aponta que ter 80 ou 90 anos hoje em dia é muito diferente de ter essa faixa etária antigamente. Cada vez mais as pessoas têm acesso aos serviços de saúde. Cada vez mais os tratamentos são preventivos ao invés de curativos. E cada vez mais a tecnologia se desenvolve, possibilitando detectar problemas de saúde antes que se instalem no corpo. Mas não é apenas isso. Hoje a visão que temos do idoso vem mudando a passos largos. Se antes o "velhinho" estava apenas esperando pelo fim da vida, o idoso de hoje pode ser uma pessoa ativa, que faz ginástica, viaja com amigos, passeia com os netos, trabalha, cuida da família, namora, tem passatempos...

Por que então o medo de envelhecer? Por um lado, percebo com frequência os sentimentos de tédio e de vazio. Num mundo como o nosso, em que só tem valor quem produz e gera renda (financeira!), o idoso fica esquecido, é percebido por muitas famílias como um entrave na vida dos mais novos. Isso porque perdemos o sentido do envelhecer.

Imagine uma tribo ou povoado num tempo em que não havia escrita. Ou em que a escrita era reservada a uns poucos privilegiados. Os mais velhos do grupo eram quem mantinha o povo unido, pois eram eles quem sabiam e ensinavam as histórias e tradições, mantendo a identidade cultural do grupo. Nosso presente não tem sentido se não conhecermos esse contexto em que vivemos. E, se não sabemos de onde viemos, como saber para onde vamos?

Como você planeja sua velhice?
Além disso, percebo com pesar que perdemos o contato com os ciclos da nossa vida. Quase não temos ritos de passagem. Ah, tem as festas de 15 anos que voltaram a moda!, alguém pode sugerir. Bem, mas se você observar friamente, apesar de divertidas e bonitas, essas festas são só  isso mesmo: apenas festas. Não é como se a vida da garota fosse mudar dali para frente: antes dos 15 ela já usava salto alto, roupas "de mocinha", já namorava... Muitas culturas têm ritos de passagem para a velhice. No Japão, por exemplo, a entrada na velhice é tradicionalmente celebrada no aniversário de 60 anos, o kanreki. Outros povos, sobretudo povos antigos, que contavam o tempo com base nos ciclos da natureza, costumavam celebrar a menopausa, num bonito rito de passagem que dá à mulher madura a permissão de gerar frutos não mais em seu ventre, mas em sua alma, mantendo vivas as histórias e tradições. Com o rito de passagem para a velhice a pessoa meio que recebe "permissão" para voltar-se para si. Enquanto o jovem é voltado para o mundo (trabalho, festas, amigos, filhos...), o idoso pode se permitir voltar-se para si com mais cuidado e com maior liberdade, já não tem mais as obrigações de antes.

Quando Bestetti fala sobre arquitetura, diz algo semelhante. Para a autora, temos hoje a "tecnologia da praticidade". Graças aos equipamentos que temos, podemos forjar o clima que quisermos dentro de casa. Ninguém precisa mais se preparar para o inverno nem fazer grandes planos para o verão. Podemos congelar praticamente qualquer tipo de alimento. Ninguém mais precisa aguardar aquela festa de família para saborear um assado ou um prato especial. Ninguém mais precisa esperar com ânimo os primeiros frutos amadurecerem. Abra o congelador e pegue o que gostar, em qualquer época do ano ou momento do dia. Até mesmo os jardins podem estar sempre floridos e as árvores frutíferas podem ser plantadas já carregadas de frutos, pois todo tipo de planta é cultivada em estufas durante todo o ano. No meu entender, isso nos isola dos ciclos de plantar, cuidar, acompanhar o germinar e o crescimento, colher... É um mundo em que não se valoriza o apego a nada (nem o apego aos que amamos!), pois fomos educados a ter tudo ao alcance das mãos o tempo todo. E tudo, até mesmo pessoas, podem ser descartáveis nessa lógica.

E o envelhecer? Quando a gente se aliena dos ciclos, isto é, quando a gente ignora essas diferentes fases (do ano, das plantas, das estações, das marés, da lua, da vida), ignoramos a nossa própria condição como um ser vivo. Todo ser vivo se transforma. O bebê se torna criança, que se torna jovem, que vai amadurecendo mais e mais até encontrar seu próprio fim. Esse é o sentido, é nessa direção que andamos pela vida. Nosso mundo não nos permite esse desenvolvimento. Olhe para as roupas, para um exemplo bem claro. Todos se vestem como adolescentes, tanto faz se ainda é criança ou se já saiu da adolescência faz tempo. Porque é legal. Porque é prático. Porque minha turma anda assim. Porque quero me sentir mais jovem, no máximo com uns 30, mesmo que eu já tenha passado dos 50 há tempos! Quem vai saber, não é? Isso demonstra como, apesar das mudanças que já vêm ocorrendo na nossa sociedade, por exemplo o Estatuto do Idoso, que existe no Brasil desde 2003 (e que você pode conhecer clicando aqui), ainda é preciso mudar mais. Por que envelhecer deixou de ser algo natural para ser ruim?

Para compreender isso, é preciso compreender nossos medos e angústias com relação ao envelhecimento. Medo de perder o corpo jovem (será que um corpo mais maduro não tem sua própria beleza? Não pode ser atraente ao seu modo?). Medo da proximidade inevitável da morte (jovem ou velho, ninguém escapa dela). Medo de adoecer (o que, é sempre bom lembrar, pode acontecer em qualquer fase da vida). Medo de depender dos outros (como se até então não dependêssemos de ninguém para nada!). Parece-me que boa parte dos medos ligados ao envelhecimento são, mais profundamente, um certo pudor em mostrar as próprias fragilidades. Todos somos frágeis em algum aspecto, mesmo que você seja jovem e forte fisicamente. Todos precisamos do outro em algum momento. Além de compreender o que tememos no envelhecer, é preciso conhecer os idosos. O convívio entre diferentes gerações não apenas é saudável para todas elas, como também nos acalma. Acalma os jovens, que aprendem que envelhecer é algo natural e pode sim trazer muitos benefícios. Acalma ainda os mais velhos, que podem redescobrir com os jovens certa leveza na vida. E acima de tudo, é fundamental que, independente da sua idade, você faça planos. Por que não ter planos para a velhice? O que gostaria de fazer quando se aposentar? Ou quando tiver 80, 100 anos? Somos encorajados a planejar as próximas férias, a planejar o que fazer quanto terminar o colégio ou a planejar nossa vida profissional. Mas nunca ninguém te fala sobre planejar a velhice, como se estar vivo naquela fase já fosse um "bônus". Tenha planos. Planos dos bons, daqueles que nos fazem esquecer da hora. Quem tem planos vive mais e com mais qualidade, pois há algo de bom a ser buscado. Busque o que te faz feliz. Tanto faz a sua idade.

2 comentários:

  1. Muito bom seu texto, Bia!
    Concordo em todos os aspectos. E que venha a velhice!

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