quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ano novo vida nova?

"Jamais haverá ano novo se continuar a copiar os erros dos anos velhos." - Luis de Camões (poeta português, 1524-1580)

Você já deve ter reparado nisso. Sempre que se aproximam as festas e, com elas, a passagem de ano, parece que um sentimento diferente toma conta de boa parte das pessoas. Alguns dizem que é esperança. Outros dizem que é o sentimento (ou o desejo?) de renovação que chega com o ano novo. E aí começa uma série de tradições que vão desde comer alguns alimentos e evitar outros, vestir roupa nova e/ou de determinadas cores, pular ondas no mar, fazer listas com "promessas" (de emagrecer a trocar de emprego e, por que não, de namorado!) e por aí vai.

O comportamento das pessoas na virada do ano é uma coisa que desde menina me deixa curiosa. Porque é algo que contagia! Você vê alguém lá, todo animado com esperanças de uma vida melhor - que chegará com as doze badaladas! - e já começa a fazer planos também. Pintar a casa, praticar esporte, trocar o carro pela bicicleta, começar um curso novo... Por que agimos assim? Gosto muito desse clima de renovação, tenho que admitir isso. Depois das festas juninas, o ano novo é minha data comemorativa preferida. Fica um clima de paz e união, uma esperança! Mas, de novo, por que? Por que esperar o ano novo se podemos mudar em qualquer outra época do ano, bastando que a gente queira e faça as escolhas que direcionem nossos passos para onde queremos ir? Parece que os finais de ciclo tendem a nos colocar nessa situação. Como será o novo? Que preparações fazer? Tanto faz se é o fim do ano, o término de um curso, o fim de um tratamento ou de um relacionamento, uma mudança de emprego. O comportamento frente aos "novos tempos" é bem parecido.

Isso me lembra muito a questão dos ritos de passagem. Arnold Van Gennep (1873-1957) foi um antropólogo francês que se dedicou ao estudo dos ritos de passagem em diferentes culturas. Ele concluiu que os ritos de passagem representam um processo de vida, morte e renascimento. Talvez daí a esperança que sentimos e a renovação que almejamos. Além disso, Van Gennep também aponta que, em geral, os ritos de passagem são estruturados em três partes: separação, transição e incorporação. Durante a separação, é comum que os neófitos (as pessoas que vão passar pelo ritual) fiquem isolados, sejam indígenas que passam parte da puberdade num local fora da tribo ou estudantes aguardando o momento da formatura numa sala separada da que estão os familiares e amigos. Então segue a transição, o ritual em si. Isso muda a forma como a pessoa se percebe e como é percebida pelos outros. Morre o "eu" antigo para dar lugar ao novo. Ou, se preferir, o mesmo "eu" renasce num novo papel e/ou posição social (torna-se adulto, profissional, casado, pajé ou o que for). Por fim, ocorre o que Van Gennep chama de "incorporação", isto é, a pessoa que passou pelo ritual é reintegrada ao grupo com seu novo status, posição, papel... Por exemplo, a festa que se segue após um casamento ou aquele momento em que se cumprimenta alguém que acaba de defender seu mestrado ou doutorado. Essa pessoa já não é mais aquela que costumava ser. Foi profundamente transformada pelo rito de passagem.

Voltando ao nosso tema, a passagem de ano. Apesar da atitude de algumas pessoas nessa época me lembrar a de alguém prestes a viver um rito de passagem, não acho que se trate disso. Depois da meia noite, continuamos os mesmos, com os mesmos papéis, as mesmas funções, a mesma vida. E, de maneira geral, poucas pessoas levam adiante suas resoluções de ano novo. Assim, a virada de ano não é um rito de passagem no sentido acadêmico de Van Gennep. Mas me parece que muita gente anseia por isso. Desejam aquele momento mágico em que, ao terminarem as doze badaladas da meia noite, elas estarão mudadas (para melhor!) e a vida será diferente, mais fácil e mais feliz. Como já conversamos em outro momento (clique aqui para lembrar!), em nossa sociedade dificilmente encontramos ritos de passagem que sejam levados a sério, e não vividos somente como uma grande festa. E parece que muita gente sente mais falta deles do que estes tempos de correria nos permitem admitir.

Terminando por este ano, quero aproveitar para desejar a todos um 2013 muito feliz e com muita coragem de buscar aquilo que realmente faz sentido para cada um de nós. Como será o futuro? Só podemos sonhar e supor. 

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