quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Nomes, apelidos e sobrenomes: uma questão de identidade


"Todos os casos são únicos, e muito similares a outros." - Thomas S. Elliot, poeta e dramaturgo norte-americano (1888-1965)

O texto desta semana surgiu de uma conversa com alguns amigos sobre o filósofo e médico Sexto Empírico. Mais especificamente, sobre o nome dele. Ou melhor, o sobrenome, Empírico. Explico nossa curiosidade: como um estudioso que viveu na antiguidade grega, pode ter como sobrenome "Empírico", linha de pensamento que prega que para se conhecer um fenômeno, é preciso usar a percepção, os órgãos dos sentidos, quando essa postura formalizada por Locke, no século XVII? Muito estranho! Coincidência? O primeiro ponto da nossa discussão foi que apesar do empirismo ter sido formalizado muito depois, a observação de fenômenos com o objetivo de aprender é muito mais antiga que o próprio Sexto. Não é pelos sentidos que uma criança pequena começa a conhecer o mundo? Além disso, Empírico não era o sobrenome de Sexto, mas provavelmente um tipo de apelido que deixava clara sua postura adotada em seus estudos médicos. Em tempos antigos, uma pessoa de destaque ganhava um "sobrenome" ligado a ocupação, local de origem, etc. que a diferenciava das demais. Passamos então a falar sobre a origem dos nomes, e é sobre nomes que vou falar hoje.

Nome traz à tona a discussão sobre como nos identificamos e como os outros me reconhecem. Prazer, eu sou a Beatriz, mas ninguém me chama assim, nem mesmo a minha mãe! Pode me chamar de Bia. E assim a identidade vai se moldando a quem somos. Mas nem só de nomes é feita a identidade. Ela também é marcada pela nossa origem, grupos dos quais fazemos parte, papeis sociais que desempenhamos, ocupação, pontos da nossa história... O rapaz de origem oriental, a menina da escola X, a senhora do grupo de orações do meu bairro, o advogado que resolveu mudar de ramo e abriu um café, o homem que se divorciou da esposa. Assim, diz Antonio Ciampa, psicólogo social com quem tive a oportunidade de estudar identidade na PUC-SP, a identidade não é estática. Não é uma coisa que formamos e pronto, mas está sempre em transformação, a cada momento, pois tudo aquilo que fazemos nos transforma. E transforma a maneira como nos vemos e como somos vistos, como nos colocamos perante à vida.

Você vê a jovem ou a velha na imagem?
Há diferentes formas de perceber e significar a mesma coisa!
Outra coisa: se a identidade se forma ao longo da vida, não somos os únicos responsáveis por ela. Porque viver é interagir, de um jeito ou de outro. A forma como os outros pensam que somos à primeira vista, o que Ciampa chama de "identidade pressuposta", assim como a forma como os outros nos percebem (identidade posta), também marcam quem somos. "Moça, o banco é ali, perto daquele senhor careca de óculos!" Isso também é parte da identidade dele. Quando o leitor imaginou o homem do meu exemplo, provavelmente já fez suposições sobre como ele dave ser, o que gosta e o que não gosta. Daí surgem preconceitos (para ver outro texto em que falamos sobre preconceito, clique aqui!) e com os preconceitos, surgem apelidos. Não necessariamente o bullying ou algo pejorativo, mas qualquer tipo de apelido não derivado do nome. Quando chamamos alguém por algum termo que não é o nome da pessoa, marcamos a identidade dela. A típica história dos pais que procuram psicoterapia para o filho que não tem sossego e, ao fim da consulta, chama o garoto: "vamos, peste!" Oras, como a pessoa vai responder a isso? A tendência é cumprir a "profecia", agir como o outro espera que eu haja. E o pai da suposição espera um garotinho terrível! Precisaria de muito questionamento para agir diferente disso.

Exercício para esta semana: pegue papel e lápis e vá para um lugar tranquilo. Anote todas as formas possíveis que poderiam te identificar. Valem nomes, origens, apelidos de todo tipo, pontos significativos da sua história, observações sobre como os outros te percebem... Isso é importante para ajudar no autoconhecimento. E não é apenas sobre como você se identifica, mas sobre a forma como nos colocamos no mundo. O garotinho que o pai chama de "peste" não se posiciona frente à vida da mesma maneira que outra criança chamada por apelidos mais construtivos ou "apenas" pelo nome. A visão que tem de si mesmo, provavelmente é falha, marcada pelo apelido pejorativo vindo de pessoas tão importantes para ele como seus pais. Sua perspectiva de futuro também é bem diferente da sonhada por outra criança cujos pais reforçam constantemente a criatividade ou a mente ágil ou o bom desempenho em esportes ou a sensibilidade ao lidar com as pessoas...

Outro passo: como você gostaria de se ver e de ser visto? Esta seria a "identidade mito", aquele ideal que todos têm, cada um a seu modo, e ao qual buscamos corresponder, ainda que nem sempre tenhamos consciência deste movimento. Quanto mais conhecemos a identidade mito (semelhante ao que os psicanalistas chamam "ideal de ego"), mais saberemos sobre nós mesmos, sobre nossos sonhos, sintomas ou mesmo sobre o motivo pelo qual agimos assim e não de outro jeito.

Para terminar, como já conversamos em outro texto (clique aqui para rever!), não transforme suas qualidades em problemas! Existem muitos jeitos de perceber uma mesma característica e de aproveitá-la para o nosso próprio bem e para o mundo em que vivemos. A menina que vive com a cabeça nas nuvens vai ter melhoras incríveis, inclusive na autoestima, se passar a se identificar como a menina criativa. O que seria de Sexto Empírico se fosse "Sexto Inxirido"? Na certa meus amigos e eu não conversaríamos sobre ele tantos séculos depois... Para mim, identidade é uma busca por ser a pessoa que gostaríamos de nos tornar. E nunca é cedo demais ou tarde para isso. Precisamos apenas ter coragem de ser.




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