quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ousar, transgredir e criar

"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se." - Soren Kierkegaard (filósofo dinamarquês precursor do existencialismo, 1813-1855)

Ousadia e transgressão. Muitos temem essas palavras. O Dicionário Online de Português define ousar como "tentar, empreender com coragem, audácia, atrever-se (...)". É graças à ousadia, portanto, que transgredimos. Muitas pessoas têm medo de ousar, mas nem sempre sabem disso. Geralmente esse medo se traduz por insegurança ou na escolha pelo tradicional, pelo habitual ou pelo conhecido, em geral porque "assim é mais fácil". É claro que é. Ousar envolve coragem, envolve ter que se expor e a grande possibilidade de ouvir críticas, que nem sempre serão gentis e agradáveis. Por outro lado, é a ousadia que move o mundo. Porque sem ela, as coisas nunca seriam diferentes.

Freud, em seu texto Tipos Libidinais (1931, vol. XXI das Obras Completas), destaca que existem três maneiras do sujeito se posicionar no mundo, que seriam a maneira erótica (pessoas que valorizam mais a busca por afeto), a maneira obsessiva (pessoas que o autor define como "conservadores veículos da civilização"), e a maneira narcísica (pessoas mais voltadas à autopreservação). É claro que todos nós temos em nossa personalidade elementos dessas três formas de posicionamento frente à realidade mas, para Freud, uma delas sempre se destaca, geralmente combinada a um tipo secundário. Em termos psicológicos, falamos no texto dessa semana sobre aqueles momentos pelos quais todos nós passamos em algum momento ou fase da vida, em que o medo, ricamente disfarçado de autopreservação, prevalece sobre a busca por afeto ou sobre a vontade de agir no mundo ou seja lá o plano que temos em mente. No popular, insegurança, dúvidas e dilemas. Quero X, mas e se não der certo? O que os outros vão dizer? E quando eu chegar lá não gostarem de mim? E se?

Ousar também é estar em equilíbrio. Não é fácil. Pode doer. Mas vale a pena!
Já comentei outras vezes sobre o quanto gosto de mitologia. Gosto porque os mitos mostram de forma artística, poética e, muitas vezes, mostram de maneira assustadoramente real, as questões e situações pelas quais nós todos, em algum momento da vida, passamos ou passaremos. Na mitologia grega esse tipo de situação envolvendo ousadia e convenções sociais fica clara quando pensamos nos deuses Dionísio e Apolo. Dionísio é o deus do vinho, das festas, da alegria e transcendência - seja pelo álcool do vinho ou mesmo por estados místicos que podem ocorrer após meditações intensas. Já  Apolo é o deus que conduz o carro do sol, portanto, é aquele que, tal como o sol, nunca falta e nunca se atrasa, é considerado entre os antigos gregos como um deus civilizador e que pregava que tudo deve ter a sua justa medida. Conhecidas as personagens! Mas hoje não vou contar uma história envolvendo esses deuses. Ao invés disso, examinaremos esses dois enquanto arquétipos, ou seja, formas e estruturas, "modelos" que todos temos na psique e que, alguns mais outros menos, se manifestam em nossas vidas, seja na personalidade ou nos sintomas, sonhos, desejos... Sem dúvida, Dionísio e Apolo são figuras muito diferentes, basta ver o que cada um deles rege e imaginar. São figuras quase opostas. Entre os antigos gregos, Apolo era um deus muito querido e muito cultuado, pois a razão era uma qualidade (ou uma forma de agir?) muito valorizada. É a razão que permite pensar em estratégias, criar e aprender filosofia, é ela que permite que existam e sejam cumpridas as leis e regras. Assim, quando os gregos antigos (e muita gente hoje) valorizavam a razão, isso não se limitava à produção de conhecimento, como muitos pensam. Ao valorizar a razão, os gregos antigos visavam um estilo de vida regrado, buscando o equilíbrio e evitando excessos de todo tipo, sempre tendo em mente a "justa medida" pregada por Apolo. E é aí que entra Dionísio. Havia dias especiais no ano dos gregos, dias dedicados ao culto a Dionísio e ao vinho. Numa comparação grosseira, eram festas semelhantes ao carnaval no Brasil. Festas de excessos dos mais variados tipos, em que a "justa medida" passa bem longe! Eram, porém, festas muito necessárias, com um importante papel a desempenhar no equilíbrio da sociedade, da psique, da vida. Porque as regras e convenções nunca se equilibram sozinhas, precisam de um contraponto, como uma balança de pratos em que, se enchermos apenas um dos pratos, não há como manter a balança em equilíbrio.

Assim, a ousadia se manifesta sempre que agimos contra as convenções, quando transgredimos e/ou criamos algo novo. Não apenas no sentido ruim de transgressão (crimes, por exemplo). Ela pode ser bela e muito produtiva, como ocorre nas artes, na literatura, nas religiões e mesmo nos sonhos. Quando um escritor cria um mundo de fantasia, está subvertendo a realidade externa. Porque o escritor fala de uma realidade mágica, de possibilidades e situações que não estão aqui e agora. E, se for um bom escritor, fará o leitor acreditar, por alguns momentos, que a história é real (e, em algum sentido, sempre é). E, quando lê, também o leitor transgredirá a realidade fria e regrada, viajando num mundo de fantasias que, por mais realistas que sejam, não estão aqui e agora, mas num campo intermediário entre a imaginação do escritor e a do leitor.

A transgressão está em tudo aquilo que nos leva a alguma realidade além do aqui e agora. Ou, no caso de projetos, quando temos aquela super motivação que nos faz sentir esperança (independente do plano que possamos ter, vejo que os resultados que esperamos quase sempre são referentes a ter uma vida melhor, diferente da atual). Mesmo sabendo que sempre existe uma chance das coisas não saírem como planejamos, é a ousadia que nos apresenta a possibilidade de transgredir esta realidade estanque e concreta, é ela que nos faz arriscar ainda quando parece que daremos um passo em falso, pois a ousadia, ao trazer esperança, nos faz confiar num bom resultado e em nossa própria capacidade de transformar a nossa vida e a nossa realidade. Nesse sentido, a transgressão e a ousadia podem ser um passo importante para que se viva de maneira mais plena, de acordo com aquilo que valorizamos e que sonhamos para nós. Para haver crescimento, os opostos não podem guerrear, precisam interagir pacificamente, absorvendo as diferenças e aprendendo um com o outro, isto é, amadurecemos quando somos capazes de integrar os opostos que fazem parte de nossas vidas e de nós mesmos. Porque mesmo para buscar um equilíbrio "perfeito", a "justa medida" de Apolo, nunca haverá equilíbrio preenchendo apenas um dos pratos da balança.

Nenhum comentário:

Postar um comentário