quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Qual é o seu lugar na vida?

"O que importa não é o ponto de partida, mas a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher." - Cora Coralina

Boa parte das pessoas que procuram um psicólogo se faz esta pergunta em algum momento: qual é o meu lugar na vida? O cenário onde a pergunta é feita pode variar bastante, do emprego que de repente deixou de ser estimulante para tornar-se tedioso, relacionamentos que parecem sempre acabar mal, até o ambiente familiar que pode ser sentido por alguns como um ambiente de muitas exigências e poucos recursos, entre tantas outras possibilidades. Essa questão pode aparecer ainda diante de qualquer tipo de insatisfação ou escolha com a qual a pessoa se defronte e tenha dificuldade em superar. A escolha da profissão, um novo relacionamento, após um trauma ou acidente... Claro que a coisa nem sempre é tão clara assim. Muitas vezes a pergunta é feita de maneira inconsciente, seja na forma de sintomas (psicológicos ou físicos, mais leves ou mais graves), seja na forma de situações que teimam em se repetir na vida da pessoa (situações de abuso ou assédios de diferentes tipos, conflitos com autoridades, conflitos/sintomas ao ter de fazer escolhas sozinho, problemas que se repetem nos relacionamentos...).

"Os valores pessoais", René Magritte, 1952
Em meu mestrado, procurei investigar como ocorre a atribuição de sentido para a vida. Para isso, entrevistei e apliquei questionários em peregrinos brasileiros, de ambos os sexos, com idades entre 18 e 54 anos. Via de regra, quase todos mencionam como motivação para a viagem a necessidade de saber o seu lugar na vida, o que deixavam claro em frases como "quando olhava para minha vida, o que eu sentia era uma grande insatisfação", "eu olhava para a minha vida e ela não ia para onde eu queria que fosse", ou ainda "era como se a pessoa que eu era e a que eu mostrava para os outros não fosse a mesma". Nem sempre temos consciência da questão, mas parece que a insatisfação é um ponto que se mostra com frequência quando essa pergunta aparece na vida da gente. Muitas vezes, a insatisfação vem camuflada no tédio, no desânimo, na sensação de vazio, nas compulsões, no cansaço excessivo...

De toda forma, numa tentativa de responder a pergunta de forma que nos acalme e que preencha nossa vida com sentido, surge a "necessidade de se encontrar". Há algum tempo li um dos ótimos livros de Jostein Gaarder, chamado O dia do coringa, que conta a história de um menino de 10 anos que parte com o pai numa viagem em busca da mãe, que havia abandonado o lar anos antes. Em meio a diálogos e situações que nos levam a repensar muito a nossa própria postura na vida, o garoto conta ao leitor, com a simplicidade de seus 10 anos, que a mãe partiu dizendo que precisava se encontrar e que, na opinião da criança, pessoas com essa necessidade deveriam respirar e ficar bem paradas por alguns momentos, antes que ninguém nunca mais as encontre. É exatamente o que convido o leitor a fazer. Vamos parar por um momento e respirar bem fundo.

Agora sim podemos continuar. A respiração profunda serviu para que, antes da reflexão, o leitor tome consciência de seu corpo e de onde está neste tempo e neste espaço. Voltando. Costumo dizer aos pacientes na clínica que nem sempre temos os planos tão claros na nossa mente. Não somos máquinas, é normal nos sentirmos perdidos de vez em quando. E é claro que estar numa situação assim não é nada tranquilo, ao contrário, gera angústias, ansiedades e temores. Qual é o seu lugar na vida? Talvez seja difícil responder a questão de pronto. Geralmente é. O que proponho nesses casos é usar um pouquinho a nossa imaginação. Por um momento, vamos nos permitir pensar sem julgamentos de certo ou errado, sem que você precise se preocupar em ser adequado ou em ter aquela vida perfeitinha ou ainda sem se preocupar com a viabilidade e a aplicabilidade dos seus planos. Vamos apenas imaginar e, para facilitar as coisas, vamos adaptar um pouco a pergunta: qual você gostaria que fosse o seu lugar na vida? Não se reprima, a ideia neste momento é soltar a imaginação, brincar com várias possibilidades. E, nessas brincadeiras, podem aparecer coisas bastante interessantes.

O leitor mais atento, ao pensar sobre a pergunta que propus, logo irá notar que tanto o lugar que gostaríamos de ter quanto o lugar que, gostando ou não, de fato temos, têm algo em comum: ambos são dirigidos pelos nossos valores pessoais. Mais uma vez digo, em qualquer processo de autoconhecimento é de suma importância conhecer nossos próprios valores. Porque, imaginando a vida como um caminho, os valores seriam nosso mapa. E como chegar onde pretendemos chegar sem um bom mapa?

Você pode estar onde quiser estar, você é livre para caminhar no sentido que te trouxer mais satisfação. Estamos o tempo todo interagindo e criando a nossa realidade, pois cada ato nosso, mesmo que apenas um pensamento ou algo que sentimos, nos modifica. Modifica o nosso corpo (expressões faciais, postura corporal, descarga de hormônios e neurotransmissores, sinapses...) e, portanto, cada ato nosso modifica a forma como percebemos a nossa realidade. Então, antes de partir em busca do seu sonhado lugar na vida, prepare-se em todos os sentidos para caminhar até ele com prazer e leveza, apreciando o caminho. Esteja e sinta-se apto a conquistar e ocupar o seu lugar. Busque ser uma pessoa digna de ocupá-lo.

4 comentários:

  1. Ta ai uma pergunta que nunca fiz.
    Também nunca fiz análise.
    Mesmo em fase de crise não senti necessidade de ir a psicólogo.
    Não! Não é resistência. Apenas achei que sairia sozinho e sai. Eu me sinto bem sem necessidade de saber qual é meu lugar na vida.
    Porém, achei o texto interessante.
    Acho que ter habilidade para lidar com as pessoas é interessante. O ser humano é complicado. Nós somos complicados.
    Visite o meu blogue e me analise - rsss.
    Aceito críticas.

    www.cchamun.blogspot.com.br
    Histórias, estórias e outras polêmicas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A beleza das pessoas e bem essa mesmo, Claudio. Sao todas diferentes! O mais importante de tudo e a gente se sentir bem com a gente mesmo e com a nossa vida, o resto e resto. E se, no futuro sentir a necessidade de se fazer perguntas ou mesmo da ajuda de um psicólogo, por que nao?
      Obrigada pela visita e pelo comentário.
      Abraço

      Excluir
  2. Bia, sempre procurar fazer as "tarefas de casa" dos seus textos. Esse apesar de antigo ainda não tinha feito. Como é difícil responder a essa pergunta. Poderia ajudar um pouco mais rsrsrs Quando você fala em como eu gostaria que fosse meu lugar na vida? Quer dizer em aspectos profissionais e pessoais? Tipo gostaria de trabalha em X lugar, fazendo Y coisa. Ou gostaria de continuar sendo uma pessoa ativa nas reuniões em família. É isso? Obrigada. Rogéria Ribeiro.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Rogéria! É isso mesmo. As perguntas podem ser pensadas como um todo, da forma mais ampla possível. Quanto mais contextos da vida (pessoal, profissional, familiar, afetivo, financeiro, social, etc.) você conseguir abranger, melhor. Onde ou como você gostaria de estar quanto a cada setor da vida? No profissional, por exemplo, gostaria talvez de se aprimorar na profissão, ou quem sabe mudar de ramo, ou entrar na empresa x, ou ainda abrir o próprio negócio? Como seria? O mesmo em outros setores, na família, gostaria de um papel ativo, gostaria de conviver mais com os familiares ou quem sabe uma pessoa excessivamente dedicada à vida familiar resolva que chegou o momento de dar mais atenção a si mesma, e assim por diante. É como um guarda chuva, quanto mais a gente abrir, maior o espaço que teremos, mais claro será o panorama que iremos encontrar. Beijo

      Excluir