terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Mythos - Befana: colher o que foi plantado

Já que estamos em época de festas de final de ano, hoje temos mais uma personagem ligado a este momento do ano, a Befana. Quando comento sobre ela, muitas vezes as pessoas me dizem que nunca ouviram falar dessa personagem, por isso, vamos começar bem do comecinho, falando um pouco sobre o folclore italiano e os costumes acerca do Natal, para depois entrar na história da Befana enquanto deusa.

Na Itália não existe Papai Noel. Bom, com a globalização, hoje o bom velhinho já tem certa popularidade por lá... Mas quem entrega os presentes de Natal para as crianças italianas não é ele, e sim uma bruxinha do bem que se chama Befana. Outra curiosidade: os presentes são recebidos por lá no Dia de Reis (06 de janeiro). Na noite do dia 5 para o dia 6 de janeiro, a Befana pega seu saco de pano com brinquedos, doces e outras coisas, monta em sua vassoura e cruza os céus, visitando a casa de cada criança e deixando lembranças. Para as que se comportaram bem, ela deixa presentes e doces. Para as que não se comportaram tão bem assim, ela deixa um pedacinho de carvão. Aliás, mesmo quem ganha coisas boas quase sempre costuma ganhar um carvãozinho também. O carvão representa a transformação pela qual todos nós podemos (devemos!) passar, para melhorar sempre. Entre as lembrancinhas com significado "educativo", também estão as pedrinhas, ligadas à busca pela estabilidade e firmeza, assim como representam a superação dos obstáculos do caminho. A Befana é representada como uma senhora bem velhinha, de cabelos brancos e roupas remendadas.

Mas como assim uma bruxa entrega os presentes de Natal? Existem várias lendas cristãs explicando isso. A primeira conta que os três reis magos, enquanto seguiam a estrela de Belém, pararam num vilarejo para passar a noite e pedir informações. Foram muito bem recebidos pela matriarca, uma senhora sábia e acolhedora, que lhes deu de comer e lhes permitiu passar a noite em sua casa. No dia seguinte, os reis magos a convidaram para se juntar a eles na visita ao menino Jesus. Ela negou, pois não podia deixar a vila, era a matriarca e tinha muitas pessoas que dependiam dela ali. No entanto, pouco depois ela se arrependeu e resolveu procurar pelo menino Jesus para prestar-lhe homenagem. Desde então ela presenteia as crianças todos os anos no dia de Reis, lembrando que todos temos dentro de nós algo de sagrado.

Outra versão conta que a Befana visitou o menino Jesus. Ao invés de lhe oferecer presentes, ela lhe ofereceu sua reverência e respeito, e dividiu com o menino o que mais precioso tinha: as lembranças do filho, morto há algum tempo. Contou a ele como estava triste por haver perdido o único filho, e que por ser mais velha, não podia ser mãe outra vez, o que a deixava muito triste. Comovido, o menino fez dela a mãe de todas as crianças da Itália. Desde então ela cruza os céus em sua vassoura e deixa lembranças para os seus filhos nesta data especial.

Quanto aos mitos que deram origem à Befana, algumas fontes sugerem que seu nome veio da pronúncia italiana da palavra grega epiphania (algo como aparição divina). Há uma deusa sabina/romana chamada Strina. De seu nome derivam palavras como a latina strix (coruja - animal relacionado à noite, à magia, à sabedoria e aos mistérios), e a italiana strega (bruxa). Talvez daí a ideia de representar a Befana como bruxa. De acordo com os mitos desses povos, a deusa Strina era uma deusa anciã, uma velha sábia celebrada ao fim das festividades do solstício de inverno, que durava cerca de doze dias e marcava o auge do inverno - e o consequente retorno do sol, da luz do mundo. Strina trazia presentes para as pessoas: o retorno da vida na terra, da luz. Ela deixava frutas secas e pães nas casas como presentes que simbolizavam o fechamento do ciclo anterior e um recomeço, com nova vida e novas esperanças.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar analisando os presentes trazidos pela Befana. O que na sua vida precisa ser transformado? Quais foram as pedrinhas (maiores ou menores) que você enfrentou neste ano? Por fim, o que foi doce como as balas e chocolates que ela coloca nas meias das crianças?

2- Fechar um ciclo não é fácil. Porque é preciso colher tudo aquilo que foi plantado, seja bom ou ruim, e armazenar ou dar um fim útil à colheita. A colheita que fica largada nos campos logo apodrece com a umidade ou é levada por animais ou aproveitadores. É preciso estocar, limpar, cuidar. Assim são as consequências das nossas escolhas. Seja lá o que tenhamos escolhido, as consequências sempre chegarão até nós, e é apenas lidando com elas, abraçando-as como o ceifador que abraça deu facho de trigo, que podemos nos libertar. Isso se chama responsabilidade, e é apenas com ela que temos liberdade e autonomia. O novo ciclo só pode chegar e trazer renovação quando já demos conta por completo do ciclo anterior. Só assim nos abrimos de verdade para o novo. Não tenha receio. Colha, dê um fim digno à sua colheita e prepare-se para a renovação.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ágora - Depressão de final de ano

Eu queria entender porque nessa epoca de festas tantas pessoas ficam deprimidas. Isso quer dizer que essas pessoas tem depressão?
Eunice N. - São Paulo


Bom dia, Eunice!

Muito boa a sua questão. Nesta época de festas de final de ano acontece mesmo um aumento das crises depressivas e também das tentativas de suicídio. Muitas dessas pessoas têm depressão mesmo, o que coloca os psicólogos e outros profissionais de saúde mental em alerta. No entanto, nem sempre a pessoa tem depressão. É normal a pessoa ter, em certos momentos da vida, fases depressivas ou ansiosas sem que isso signifique que ela tem um transtorno mental, pois a depressão entendida pelos profissionais segue critérios diferentes para o diagnóstico, não é a mesma depressão que se popularizou na boca do povo. Fulano está deprimido. Quase sempre, aos olhos do profissional, Fulano está apenas triste ou chateado com uma situação. Sentir é normal, o ser humano é um ser que sente. O que não é normal é sentir tristeza, raiva, desespero o tempo todo.

De todo jeito, vamos voltar ao tema. Por que tantas pessoas se sentem assim durante as festas de final de ano? Bom, este é um caso interessante, pois é um fenômeno quase que puramente cultural. Digo isso porque é a nossa cultura ocidental/judaico-cristã que pinta este momento como uma época de união, fraternidade, harmonia, etc. No entanto, como todos imaginam, nem todas as pessoas olham para suas vidas e de fato encontram motivos para ter este tipo de sentimento. Alguns têm histórias difíceis, associadas ou não às festas de fim de ano. Outros se deparam com a solidão, vivemos uma época em que se preza ter mil contatos, mas quantos desses são relações que nos levam a ter laços mais profundos e duradouros? Outras pessoas, ainda, ao olharem para suas vidas, simplesmente não enxergam uma solução satisfatória para seus problemas e desafios, o que as leva a sentir uma grande impotência, tristeza e até raiva devido à frustração. A depressão (ou os estados depressivos) acontecem quando a distância entre a vida real e a vida sonhada é grande demais. A pessoa não consegue perceber nesse vazio a vida possível. O depressivo caminha na contramão do sentido que esperava que sua vida tivesse, e com isso se vê cada vez mais distante de sua realização (pessoal, profissional, etc.). E aí fica muito difícil estar contente num momento em que parece que todos falam de bons sentimentos e de grandes transformações no ano novo quando, por mais que a pessoa se esforce, ela pouco encontra de agradável em sua vida, não percebe as soluções.

Independente de ter um diagnóstico de depressão (que não dura apenas nestas semanas) ou deste ser um sentimento momentâneo que desaparece em janeiro, o sentimento depressivo (na época que for) indica uma grande insatisfação com algo em nossa vida. E antes que a coisa fique mais grave, é importante investigar isso direitinho, percebendo o que exatamente não vai muito bem na nossa vida. E aí, fazer os ajustes necessários, dar os passos a que tanto resistimos, enfim, aproveitar o clima e transformar para melhor tudo aquilo que não está muito legal. A vida é nossa para sermos felizes, merecemos estar nela!

Feliz 2014 para todos! Vamos aproveitar o clima de transformação e fazer acontecer!
beijos,
Bia


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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

5 Ideias para cultivar a paz interior

"O primeiro dos bens, depois da saúde, é a paz interior." - François de La Rochefoucauld (1613-1680), pensador francês.

Gosto muito de falar e pensar sobre a paz. A paz é aquilo que temos de mais precioso, pois sem ela todo o resto perde o colorido. Quando começo a falar sobre isso, muita gente me interrompe com o mesmo argumento, por isso, antes de passar para as ideias, vou responder a essa questão. Não, paz é muito diferente de estagnação e marasmo. Uma vida em paz pode (deve!) ser cheia de atividades, responsabilidades e novidades. O que muda? A forma como olhamos para essa nossa vida e, por consequência, a forma como nos sentimos frente a ela. Resumindo, entendo a paz interior como a postura tranquila frente aos acontecimentos e desafios da vida, a confiança no futuro e em nós mesmos. Nem sempre seremos os melhores, mas sempre faremos o nosso melhor, confiando e acreditando nas nossas escolhas. Pensando nisso, separei aqui algumas ideias para manter a paz interior (mesmo que a sua vida, como a minha, seja super corrida e cheia de atividades!).


1- Cumprimente as pessoas
Começando em casa, logo cedo! Deseje bom dia para a sua família ou outras pessoas que moram com você, para os vizinhos, para o porteiro do prédio... e não pare! Diga o mesmo ao motorista do ônibus, aos colegas e amigos, aos desconhecidos que encontramos todos os dias no caminho para as nossas atividades. Seja gentil. Na hora do almoço ou na volta para casa, faça a mesma coisa. Diga "até logo" para as pessoas. Deseje boa noite. Pasmem, ao dizer isso já escutei de pessoas que fazer isso seria falsidade. Eu não penso assim. Antes de tudo, é questão de boa educação e de tratar os outros com  o respeito que merecem. É muito bom receber um "bom dia" de desconhecidos. A gente se sente reconhecido enquanto cidadão, cria-se um ambiente gostoso onde as pessoas têm permissão de viver fora das burocracias do sistema, no mundo em que a vida acontece e as pessoas interagem com tranquilidade. Além disso, se quiser pensar apenas em você mesmo, dizer "bom dia" aos outros é fazer isso também para si mesmo. Ouvimos o nosso bom dia e a resposta da pessoa nos desejando o mesmo, e com isso nossa mente entra na frequência dessas palavras e passa a se comportar buscando que a gente de fato tenha um dia bom.

2- Dê atenção às suas palavras
Sabe aquelas historinhas de criança em que é preciso dizer a palavra mágica para que a realidade se transforme? Tem muito mais realidade nisso do que se pensa. As palavras são mágicas! Somos seres da linguagem, somos feitos de palavras e de histórias e são essas histórias que vivemos, pretendemos viver e também aquelas que gostaríamos de ter vivido que moldam o mundo em que vivemos. Preste atenção à forma como você "conta" suas histórias. Principalmente os adjetivos. Que características (boas ou ruins) mais saem da sua boca ou mais passam pelo seu pensamento? Isso conta muito sobre a sua forma de levar a vida. Ninguém vive em paz maldizendo tudo e todos, porque no caminho, acaba maldizendo a si mesmo. Faça o teste. Passe alguns dias sem maldizer nada e sem reclamar (mesmo reclamar para si mesmo é ruim, pois nos faz seguir um padrão segundo o qual o mundo é inóspito e não merecemos a paz e as alegrias). Sim, é difícil até pegar o jeito. O pulo do gato é mudar seu foco. Deixe de focar o que não está bom e foque naquilo que você almeja e valoriza. Não vai com a cara do Fulano? Não prestigie, ande com quem te faz crescer. Não gosta de determinado lugar ou atividade? Vá atras do que te faz bem. Não tem mesmo como fugir? Veja o lado bom da situação, com certeza tem algum! E não, isso não é falta de crítica, isso é sobre olhar a vida com os olhos da paz e do crescimento. Falta de crítica é outra coisa.

3- Respeite-se!
Coma direito, dando seu tempo para mastigar e apreciar sua refeição, escolhendo alimentos nutritivos e saudáveis. Durma bem, em tempo suficiente. Mantenha seu ambiente limpo e organizado. Trabalhe, estude, mas reserve um tempinho para a diversão e para ficar "a toa", isso também é necessário. Ah, e muito importante: não se sabote. Respeite suas escolhas e escolha sempre o que o seu coração mandar, mesmo que pareça uma escolha meio estranha. Geralmente nos frustramos muito menos assim. Mantemos a paz interior, também, quando somos fieis aos nossos valores e sentimentos. Respeite-os. Não adianta nada achar que todo mundo precisa nos respeitar se a gente mesmo não se respeita. Aliás, respeitamos os outros quando sabemos nos respeitar. Se a pessoa não respeita e considera nem a si mesma, como esperar que respeite os outros?

4- Conecte-se ao sagrado
Ore, medite, reflita sobre temas como a paz, o amor, o equilíbrio e a harmonia. Importante dizer: aqui, entendo por sagrado o transcendente, isto é, aquilo que vai além de nós, além desta realidade aqui e agora. Tanto faz se você chama esse sagrado de Deus, Deusa, anjo da guarda, orixás, energia cósmica, a Luz, o Bem... ou até se o transcendente estiver em algo não espiritual, como as causas sociais-humanitárias, o amor ao próximo, uma vida familiar tranquila e feliz. Quando nos conectamos ao transcendente, recuperamos o futuro. Não como algo distante ou ameaçador, digno de preocupação, e sim como algo pleno da esperança que nos enche de vida e nos leva a respirar novos ares.

5- Foque a gratidão
Seja grato por tudo aquilo que tem. Seja grato por todos aqueles que participam ou já participaram da sua vida, todos eles cumpriram seus papeis para te transformar em quem você é hoje. Seja grato também pelas perdas e por aquilo que não tem. Elas também tiveram um papel importante no seu caminho, mesmo que atravessá-las tenha sido dolorido e difícil. A gratidão nos coloca em contato com os padrões da abundância, das sincronicidades e com a certeza de que merecemos uma vida harmoniosa e feliz.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Mythos - Bênção Celta: a força dos bons desejos

Hoje a coluna Mythos está um pouco diferente. Não temos um mito, no lugar disso, temos um texto de inspiração celta que sempre me traz o sentimento de proteção e compaixão, por isso achei que seria interessante colocá-lo aqui no blog nesta época do ano. Esta é uma das versões de um texto chamado bênção celta. Não encontrei fontes que mostrem com certeza se a oração é mesmo de origem celta ou se é algo mais moderno, de inspiração na cultura desse povo, o que acho bem mais provável. Mas, independente da origem, é um texto muito belo e que nos abre o caminho para refletir sobre os bons desejos e a força que eles têm. Vamos ao texto:


Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalente ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as pedras do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, em que a tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.
Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.
Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver. Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.
Aquele amor que não se explica, só se sente. Que esse amor seja o teu acalento secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
Que a estrada se abra à sua frente. Que o vento sopre levemente às suas costas.
Que o sol brilhe morno e suave em sua face.
Que respondas ao chamado do teu Dom e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho. Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante e que a ansiedade jamais te ronde.
Que a tua dignidade exterior reflita uma dignidade interior da alma.
Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos que não buscam atenção.
Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.
Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada tecida em torno do cerne do assombro.
Que a chuva caía de mansinho em seus campos...
E, até que nos encontremos de novo...
Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.
Que despertes para o mistério de estar aqui e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.
Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.
Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração, e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.
Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!


Questões para reflexão:

1- O que você costuma desejar? Não falo aqui sobre bens de consumo, e sim sobre aquilo que você espera que aconteça. Aliás, um desejo sincero é mais do que esperar acontecer, é uma certeza, algo forte e que pode dar um sentido maior à toda a nossa vida, e até mesmo às experiências ruins. O que você deseja, em que acredita com força e esperança?

2- As esperanças são fundamentais para a nossa vida. Não importa muito se é a esperança de superar um grande obstáculo, como uma doença grave, dificuldades em casa, ou algo menos grave, como a esperança de que faça som no final de semana. Aliás, mesmo se está tudo bem, é muito saudável nutrir esperanças de que a vida continue a ser boa e generosa conosco. Porque as esperanças nos libertam da fluidez do tempo, desta realidade presente e que certas vezes não nos permite explorar o nosso potencial (em todos os sentidos) da maneira como gostaríamos. Por isso, é interessante ter clareza de quais são essas esperanças. Pelo que, exatamente, você está esperando? Quais são suas expectativas?

3- O sentimento de proteção também é importante, tanto quanto a esperança. Diferente dela, a proteção não necessariamente nos aponta o futuro, mas nos dá a certeza de que estamos bem e de que merecemos estar onde estamos, não somos um peso morto, e sim pessoas que estão aqui para dar o melhor de si mesmas de acordo com seus talentos e dons. Isso cria a sensação de que temos o direito de estar aqui e, assim, nossa confiança aumenta. Qual é a sensação de proteção para você? Como você a sente em suas emoções e no seu corpo? Concentre-se e amplie essa sensação ao máximo. Surge a esperança. E o sentimento de que podemos vencer qualquer dificuldade, pois há algo muito maior e muito melhor reservado para nós.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ágora - Acreditar em Papai Noel é bom para a criança?

Bia, antes de tudo quero te desejar um feliz Natal, cheio das bênçãos de Deus para você e sua família. Minha pergunta é sobre Natal. Tenho um filho de 5 anos, o nome dele é Enzo. O problema é que esses dias a gente estava indo no supermercado e já está tudo preparado pras festas e ele viu um cartaz com o papai Noel numa loja. O Enzo adora Natal! Ele ficou muito animado com o cartaz, apontava e gritava todo feliz que colocaram a foto do papai noel lá mas ele sabe que os brinquedos vem do Polo Norte, não das lojas normais! As pessoas que passavam sorriram, mas eu fiquei pensando se ainda está tudo bem pra um menino da idade dele acreditar em Papai Noel. Ele já tem 5 anos, é inteligente e bem esperto, por isso não entendo como que ele acredita nessas coisas. Devo deixar ele acreditar mais um pouco ou conto pra ele que papai noel não existe? Até que idade é normal acreditar nessas coisas? Muito obrigada e outra vez, boas festas! 
Ana Paula G. D. - Goiania, GO


Oi, Ana Paula!

Que lindo o seu filho, impossível não sorrir com o seu email! Não tem nada de errado com ele e sim, é normal que crianças de cinco anos ainda acreditem em personagens de fantasia. Nessa fase da vida, até mais ou menos os sete anos, a criança não separa muito bem o que é real do que é imaginação. Na cabecinha dela, é como se tudo fosse uma coisa só! Não, não acho que precisa falar para uma criança tão nova que Papai Noel não existe. Permita que ele viva essa fase de fantasia. Passar bem e viver tranquilo essa fase, é importante para que o Enzo passe bem pelas fases seguintes e tenha um bom desenvolvimento emocional.

Acreditar é uma capacidade importante e devemos deixar que a criança desenvolva isso bem. O potencial para acreditar (seja no que for) é o que sustenta a nossa capacidade de ter fé. Não falo apenas sobre a fé religiosa, mas também (e principalmente) sobre a fé no futuro, sobre a capacidade de ter esperanças e de acreditar que a vida pode ser boa e que conseguimos uma boa colheita quando plantamos e cuidamos. Por isso, a idade certa para deixar de acreditar em Papai Noel é quando a criança por si só chegar à conclusão de que folclore é folclore, e realidade é realidade. Neste momento, o emocional da criança estará pronto para deixar de acreditar em fantasias e passar a ter crenças um pouco mais maduras.

Portanto, a nossa capacidade de acreditar e de ter fé não tem nada a ver com inteligência ou esperteza, mas sim com o nosso emocional. Assim, a fé é mais madura ou mais imatura dependendo da fase da vida em que estamos, e dependendo também do nosso amadurecimento emocional. Isso quer dizer que um adulto com mais de 50 anos, mesmo que tenha boa inteligência, bom senso crítico, seja bem sucedido e tudo o mais, se for emocionalmente imaturo, pode ter a fé infantilizada, com crenças rígidas, fanatismo e pensamento de causa-consequência (que não considera a influência de outros elementos em um fenômeno). Repito, essas características de fé um pouco mais rígida são comuns na criança e é preciso atravessar essa fase vivendo-a plenamente para que venha a próxima, não há motivo para preocupação.

No entanto, é nosso dever enquanto adultos e cuidadores fazer que as crianças atravessem com tranquilidade essa fase de suas vidas. E é bem simples fazer isso: deixe um pouquinho de lado o pensamento mais lógico dos adultos e desça ao nível da criança. Brinque. Não é organizar a brincadeira ou ficar mandando, é se divertir junto com o Enzo. Preparem-se para o Natal. Conversem sobre por onde o Papai Noel deve estar passando com o trenó naquela hora, vejam filmes e desenhos animados sobre o Natal, leiam livrinhos de lendas natalinas. Cultive a fantasia. Preparem a casa para o Natal juntos, façam desse momento (e dessa fase da vida do Enzo) algo gostoso para se lembrar sempre com carinho. Quando a fase é bem vivida, sem ser acelerada e sem pressões desnecessárias, a criança pode andar no ritmo dela, e superar essa fase quando estiver realmente pronta para a próxima, evitando assim que haja questões não resolvidas nesta fase, o que bloquearia as próximas.

Não existe uma idade limite para acreditar em Papai Noel ou outras histórias de fantasia. Cada criança tem o seu tempo e o seu ritmo, e é fundamental respeitar esse tempo delas. Porque além desse desenvolvimento emocional do qual comentei, o respeito a ajuda a se sentir adequada e aceita, confiante para ser quem realmente é.

Boas festas para vocês!
beijos para você e para o Enzo.
Bia

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Geração Canguru - Matéria da Revista AT

Esta semana compartilho com vocês esta matéria, escrita pela jornalista Joyce Moysés, da qual participei com depoimento técnico enquanto neuropsicóloga. A matéria é sobre a adolescência, que hoje se estende pela vida adulta, e foi publicada domingo passado (15/12/2013), na Revista AT do Jornal A Tribuna, de Santos.


Geração Canguru

É polêmico! Psicólogos pregam que a adolescência agora vai até os 25 anos. E sobre o número de homens com mais de 30 anos na casa dos pais.

Um adolescente incomoda muita gente, um adulescente incomoda muito mais? Resposta complexa. De um lado, pais preocupados porque o(a) filho(a) não pretende sair de casa tão cedo nem casar, e ainda desconhece qual é seu verdadeiro talento. De outro, os próprios desabafam ao psicólogo, professor ou tio gente boa que não sabem direito o que fazer da vida e se querem formar família.

A geração canguru veio para ficar... na cola dos pais. É tendência nacional. Dados recentes do IBGE mostram que de 2002 a 2012, aumentou de 20% para 24% o número de jovens de 25 a 34 anos morando na casa de origem. Desses, 60% são homens.

Para esquentar a discussão, surge neste ano nova orientação de psicólogos britânicos para que os colegas considerem que a adolescência vai até os 25 anos. Laverne Antrobus, psicóloga infantil e juvenil da clínica Tavistock, em Londres, defende que os jovens precisam receber apoio e auxílio por mais tempo, e que os pais devem perceber que nem todos se desenvolvem no mesmo ritmo.

"A ideia de que aos 18 anos você é adulto não parece real", disse a psicóloga em entrevistas, explicando que a mudança corrige lacunas no sistema de saúde e educação e acompanha o mundo atual, tão complexo, exigindo dos jovens maior maturidade emocional, desenvolvimento hormonal e atividade cerebral.

A neurociência tem mostrado que a evolução cognitiva deles continua num estágio tardio e que a maturidade, a autoimagem e o julgamento são afetados até que o córtex pré-frontal seja totalmente formado. Por isso, a partir de agora há três estágios da adolescência: dos 12 aos 14, dos 15 aos 17 e dos 18 em diante.

Beatriz Carunchio, psicóloga e neuropsicóloga, vê aqui no Brasil a situação por dois lados. Acha bom pelo ponto de vista de que o mundo ficou mesmo complexo e exigente com os jovens, que precisam de mais estudo e preparo financeiro antes de alçarem voo. "No entanto, faz com que sejam vistos e tratados como incapazes em alguns casos, dificultando que assumam a responsabilidade por si mesmos. Certa vez uma mãe me procurou, aflita, e perguntou se eu atendia adolescentes. A idade do menino: 37 anos", ilustra ela.

"Hoje não somos mais taxativos com relação à idade de início e de final das fases do desenvolvimento humano. Cada pessoa tem um tempo próprio de maturação", pondera a psicóloga clínica Elza Aly. Vide o que a consultora de sustentabilidade Elaine Pimenta ouviu da filha de 20 anos: "Não sei por que você está preocupada; eu adorei a notícia. Vai aliviar a pressão para que a fase adulta chegue o quanto antes". Já o ator Paulo Santos relativiza: "Fiz 24 neste ano, já sou casado, com dois filhos".

Medo da independência

Para o psicólogo Frank Furedi, da Universidade de Kent, no Reino Unido, a medida vai elevar o número de jovens infantilizados. Razões econômicas lideram as justificativas para o fenômeno. Mas Frank acredita que o plano de fundo é a perda da aspiração por independência.

"Quando eu estava na universidade, ser visto com meus pais decretaria minha morte social. Agora parece que é a regra", radicaliza Frank, alertando que esse sentimento de dependência pode dificultar a construção de relacionamentos maduros.

Amadurecer requer ainda contato constante com as próprias emoções, na opinião de Antonela Trofa, terapeuta transpessoal com foco em autoconhecimento, saúde integral e qualidade de vida. "Por conta de tantos estímulos internéticos, apego a celulares, videogames, percebo aumento da dedicação ao mundo virtual em relação ao cultivo dos vínculos. Isso gera pouco tônus emocional pela falta de treino. E aí esse jovem vai para a vida adulta sabendo muito do mundo da razão e pouco das coisas do coração. Quantos, por falta de conexão com seu eu ou até pelo eco da voz dos pais vibrando dentro deles, se deixam levar pela profissão que vai dar mais dinheiro, status, etc. E pagam o preço com pouco brilho nos olhos e aquela sensação de que tudo perdeu a graça. Ou facilitando doenças físicas e emocionais, de ansiedade a depressão". A polêmica continua...

Depende do suporte financeiro

Elza nota que nas classes favorecidas, pais sonham com seus filhos bem estabelecidos, pós-graduados, então não têm pressa de que saiam de casa. São permissivos e olham mais para as necessidades individuais de cada herdeiro.

"Agora, se esses jovens vão cursar faculdade longe de casa, amadurecem mais rápido, pois precisam achar a solução para seus problemas sozinhos", compara a psicóloga, que não observa o mesmo em seu trabalho em ONGs.

"Nas famílias de baixa renda, não há espaço físico, emocional e financeiro para tutelar os jovens por muito tempo. As etapas são aceleradas, e eles saem de casa por volta dos 18 anos. Poucos vão para as universidades. A maioria trabalha desde cedo e, muitas vezes, é para manter todo o clã", analisa.

Outras motivações

A violência é um grande sintoma do nosso tempo, mas muitas vezes o que está por trás da superproteção é alguma questão emocional dos pais (receio de envelhecerem ou da solidão são motivos bem atuais) ou pela própria dinâmica da relação (insegurança de permitir que o outro vá...), na visão de Beatriz. "Há ainda a questão do consumo: interessa ao mercado, pois o adolescente é um dos grupos que mais consome, tendo a retaguarda financeira da família", completa a neuropsicóloga.

E como sabemos quando atingimos a vida adulta?

"Não podemos nos basear só no desenvolvimento corporal", avisa Beatriz. "Os britânicos alegam que a adolescência foi aumentada porque o cérebro se desenvolve por completo aos 25 anos em média. Mas existe a plasticidade neuronal: ele está sempre em movimento e transformação, pois a cada dia criamos novas sinapses e nascem novos neurônios, mesmo quando somos mais velhos... Nesse aspecto, o desenvolvimento nunca termina".

Um panda não pode ser pato

Antonela alerta aos pais que atentem para as projeções e altas expectativas com relação ao filho, pressionando-o a agir apenas para agradá-los. São aqueles que repetem que se sacrificam tanto por ele... Esse peso emocional desgasta a todos.

Fazendo uma analogia com o filme Kung Fu Panda, a terapeuta lembra que a função dos cuidadores é contribuir e orientar o panda a ser o melhor panda que ele desejar ser, em vez de fazê-lo acreditar que, sendo filho de pato (pai adotivo do personagem), certamente será um... pato. Devem deixar que o coração e os sonhos do próprio indivíduo o conduzam nas escolhas e no seu caminhar na vida. "O universo perde quando não expressamos o que está inscrito em nossa essência".

Pratique o CHA

Claudio Behr, professor há 21 anos e coach para pré-vestibulandos, acrescenta: "os pais devem se tornar gradativamente desnecessários. Para isso, o conceito CHA é útil. Percebo tantas famílias e escolas focando muito na letra C (conhecimento ou competência) e pouco na letra A (atitude, ligada à competência)! Conhecimento é um saber infinito, mas hoje disponível na internet. E vejo que a atitude dos pais vem bloqueando a dos filhos. Dependendo de como protegem, mantêm numa bolha e capengas de H e A. Se acham que o conhecimento vai resolver a vida deles, só preparam para a melhor faculdade e o melhor cargo. E o resto? É comum que façam um monte de cursos. E a gente sabe que muitos perdem o emprego por falta de A", opina Claudio.

Já viu adolescente índio?

Beatriz ressalta que não temos ritos de passagem claros que marquem a mudança de fase. "Com isso, aquela que seria um breve momento de transição se alonga cada vez mais". Nas comunidades indígenas, é diferente. "Ou o garoto passa a noite na floresta de olhos vendados ou precisa caçar um bicho...", exemplifica Claudio, avisando que nossa cultura perdeu um pouco isso.

Ele vê hoje os rituais importantes para nós: o primeiro vestibular (muitas vezes é quando o garoto conhece a frustração) e o primeiro casamento ou nascimento do filho (quando não dá mais para fugir das responsabilidades). "O vestibular exige balancear o CHA assim como o trabalho, o casamento, a paternidade... Até quando viver as coisas boas da vida adulta (bebida, sexo, viagens com os amigos...), mas recorrer aos pais na hora do sufoco?

Uma bússola interna

Morar com eles traz vários benefícios, mas deve existir uma data de validade. Tudo na vida implica em ganhos e perdas, obrigações e direitos, dor e alegria. E as perdas (do colo materno, por exemplo), são importantes para o amadurecimento emocional, potencializam o processo de aprendizagem.

"É melhor ter escolhas do que não tê-las, mas quando são muitas... A gente fica perdido. Aconselho um trabalho de autoconhecimento e que pais e professores passem conceitos de propósito, valores para afastarem estereótipos do que trará mais felicidade", finaliza o coach.


Matéria de Joyce Moyses, publicada no jornal A Tribuna, no dia 15/12/2013, em Santos, SP.

Joyce Moyses é jornalista e escreve na Revista AT (Jornal A Tribuna), além de dar palestras sobre as transformações trazidas pela mulher no mercado de trabalho, sociedade e cultura.


Email da autora - joyce@joycemoyses.com.br

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Mythos - São Nicolau: compaixão e empatia

As festas de final de ano estão chegando. Resolvemos entrar no clima! Hoje a coluna Mythos é sobre uma personagem cristã. Lembrando a todos que um mito (que em grego significa "discurso") é uma narrativa de cunho sagrado, seja da cultura que for. Pensei antes em abordar o Papai Noel na coluna desta semana, mas achei que poderia ser mais interessante conversar sobre São Nicolau, conhecido por ser um dos inspiradores da figura do bom velhinho.

São Nicolau Taumaturgo (taumaturgo significa "aquele que faz milagres") foi uma pessoa que realmente existiu. Ele viveu entre os séculos III e IV e foi arcebispo de Mira (hoje, Demre), na Turquia. É conhecido também como São Nicolau de Bari, pois seu corpo foi sepultado na cidade de Bari, Itália. Até o século XIX, quando o Papai Noel assumiu seu lugar, era São Nicolau quem entregava os presentes de Natal. Ele era retratado com trajes de bispo, e saia durante a noite na época de Natal, jogando moedas de ouro pela chaminé das casas de pessoas mais necessitadas.


Nicolau sempre teve problemas com as autoridades. Nascido durante o império de Deocleciano, esteve preso por se recusar a negar sua fé cristã. Mais tarde, já arcebispo, teve um problema dentro da própria Igreja, quando esbofeteou um dos líderes que se opunha a suas práticas de caridade. Foi impedido de continuar como arcebispo por causa disso, mas não deixou de ajudar as crianças e os mais pobres. Foi a primeira figura do cristianismo a se preocupar com a educação das crianças e de suas mães.

Nicolau foi transformado em santo depois de terem atribuído diversos milagres a ele, inclusive o milagre de trazer crianças mortas de volta à vida. Muitas histórias se acumulam ao redor de sua figura, e é difícil dizer o que é realidade, o que é metáfora e o que é apenas lenda. São Nicolau tornou-se símbolo do Natal não no seu país de origem, e sim na Alemanha. De lá, a fama se espalhou por todo o mundo.


Questões para reflexão:

1- O mito de São Nicolau nos coloca de frente com a capacidade de empatia. Empatia significa saber se colocar no lugar do outro. Não apenas se imaginar na situação que o outro enfrenta e pensar o que faríamos, mas sim considerar a situação através do olhar desse outro e pensar o que poderia ser feito tendo os recursos (físicos e interiores), a história de vida, o conhecimento e os sonhos dessa pessoa. Ou seja, ser empático é compreender uma realidade através da ótica do outro, no sentido mais pessoal (visceral) da palavra. Você costuma exercitar a empatia? Com quais pessoas é mais fácil ou mais difícil fazer isso? Por que?

2- Que tipos de pessoa ou de situação mais despertam a sua compaixão? Diferente da empatia, a compaixão não implica em sentir o que o outro sente, mas sim em sentir o que você mesmo sente ao olhar para outra pessoa numa situação delicada. Como você lida com a compaixão? Faz algo que está ao seu alcance para melhorar a situação difícil (seja ela qual for) de outra pessoa ou apenas "espera esse sentimento passar"?

3- Ao sentir compaixão e empatia (e usar esses sentimentos para algo bom), nos humanizamos. Percebemos que a realidade pode ir muito além desse mundinho em que vivemos. Com isso, nossa própria realidade e nosso potencial se ampliam, pois entramos em contato com o transcendente, isto é, com algo que vai além de nós mesmos. E, nesse contato, encontramos o sagrado na face do nosso semelhante.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Ágora - Por que preciso ajudar todo mundo?

Bia! a pergunta é: porque eu tenho essa necessidade de querer ajudar todo mundo? Tipo: vejo uma confusão, lá vou eu tentar amenizar...... ou, tá rolando um preconceito .... eu vou lá tentar acabar com isso. Tipo, é uma necessidade, senão eu durmo mal MAUHAUAH!!!! Ainda mais quando vejo haters! detesto essa mania imbecil de bruxinho odiar cristão pq lá atrás aconteceu isso e aquilo. Mano, isso já foi! Fala-se tanto de perdão e não vejo fazerem isso!!!!! Cara, a igreja matou mesmo na época, estavam na era da conquista, todos os povos ja fizeram isso. Vikings por exemplo. Pagão adora viking mas odeia cristão, e pelo mesmo motivo!!!!!!!!!! Vikings devastavam as terras dos outros para colocar o q era deles, os cristãos e outros povos fizeram o MESMO.
Raquel M. - Santos, SP

Oi, Raquel!
Consigo perceber dois temas na sua questão. O primeiro é a "necessidade" de ajudar a todos. E o segundo seria o ódio entre pessoas de diferentes religiões ou caminhos espirituais. E como achei as duas relevantes e interessantes, vamos falar sobre as duas!!
Sobre precisar ajudar, existem diversas possibilidades, e apenas você poderá saber de verdade qual delas é o seu caso. Uma possibilidade é quando a própria pessoa pede ajuda, ou uma opinião. Nesses casos, muitas vezes quem pediu ajuda, na realidade não queria algo sincero, mas sim que alguém "passe a mão na cabeça", que dissesse que ele está certo e todos os outros errados. E como, em geral, não fazemos exatamente isso, o ajudado se revolta contra nós. Se for este o seu caso, vale a pena avaliar o motivo desta necessidade (ajudar quando pedido, mesmo sabendo que a pessoa vai ficar chateada com a sinceridade e vai sobrar para nós!). Muitas vezes, o que está por detrás desse comportamento é um grande desejo de ser vista pelos demais como uma pessoa útil, eficiente, que se preocupa com todos, e com isso, ser aceita e ter sempre o seu lugar no grupo. Em geral, essas necessidades não são conscientes e, mesmo que sejamos aceitos e queridos a ponto de não termos de nos preocupar com isso, a origem do comportamento pode estar no início da infância, fase em que o sentimento de aceitação é muito importante. Outro ponto, é o sentimento de empatia. Algumas pessoas que se percebem "obrigadas a ajudar" têm uma grande capacidade empática, isto é, de se colocar no lugar do outro e compreender a situação pelos olhos dele.
Outro caso, bem diferente, é o da pessoa que, seja pelo motivo que for, se sente na obrigação de ajudar até quem nunca pediu ajuda. Aliás, existem pessoas que acham que precisam ajudar até mesmo quem nem sequer sabe que "precisa" ser ajudado! Se o caso for este, provavelmente a pessoa que quer ajudar é quem precisa de ajuda e não percebe. Precisa ser vista, mas que seja por olhos cuidadosos e carinhosos, que venham notar a sua necessidade de crescimento e possa conduzi-la de forma amorosa, fortalecendo a confiança que ela tem em si mesma de maneira que ela possa expor aquilo que pensa ou sente com segurança, sem a necessidade de apontar os problemas dos outros para isso.
Independente do motivo por trás da necessidade de ajudar a todos, percebo que é interessante pensar em si mesma e procurar, antes, se ajudar. Quando a gente se depara com o problema de outra pessoa, é muito legal pensar se já passamos por algo do tipo, o que faríamos ou fizemos. Toda característica, quando excessiva, se torna um problema. A pessoa muito altruísta, muitas vezes nem sequer percebe suas necessidades mais básicas, e isso não é bom, pois tira o ser do seu equilíbrio. Vivemos num mundo meio estranho, pois o egoísmo impera mas, ao mesmo tempo, incentivam um altruísmo que, muitas vezes, vai além do saudável (deixar de cuidar de si em pontos importantes para cuidar de outro que, supostamente, precisaria mais... será?).
Quanto à segunda parte da questão, acho ótimo que se coloque em discussão as religiões, filosofias de vida, caminhos espirituais ou como prefiram chamar. Esse tipo de debate, quando feito de forma respeitosa e sem fanatismos, pode levar a um grande crescimento. Muitos dos nossos valores estão claros na filosofia que seguimos, e refletir sobre eles sempre ajuda a transformar o que for necessário ou então a firmar aquilo que realmente faz sentido para nós.
Mas muitas pessoas são dogmáticas ao ponto de não aceitar que os outros pensam diferente. Apenas o ponto de vista deles está correto e passam a professar um ódio, ainda que disfarçado, por quem pensa ou vive de outro jeito. Pessoas assim geralmente têm um ego muito frágil, por isso precisa se afirmar o tempo inteiro. E como não tem muitos recursos internos (autoconfiança, boa argumentação, senso crítico, etc.), fazem isso diminuindo e atacando quem lhes parece ameaçador, seja essa ameaça sentida como o "deixar de existir" (ataque), seja apenas pela pessoa/grupo atacado ocupar uma posição de destaque, que a pessoa de ego frágil (o "hater") sabe lá no fundo que quer mas não está pronto para assumir.

Espero ter contribuído com a discussão.

beijos,
Bia



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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Quais são os obstáculos do seu caminho?

"Perante um obstáculo, a linha mais próxima entre dois pontos pode ser a curva." - Bertold Brecht (1898-1956), dramaturgo alemão

Nosso caminho de vida nem sempre é aquela estrada reta, livre e com o asfalto tão liso que parece até um tapete. Algumas vezes o caminho de todos nós tem trechos mais difíceis, curvas perigosas, bifurcações, trechos de neblina ou mal sinalizados, buracos... Como ultrapassar essas etapas?

Antes de saber como, precisamos saber "o que". Conheça os obstáculos do seu caminho. Para isso, é importante a gente saber quais são as nossas maiores dificuldades frente a alguma meta (seja uma meta grandiosa ou mais simples, algo da vida profissional, familiar, pessoal, etc.). Para algumas pessoas, o mais difícil é ter foco e não se distrair. Para outras, o difícil é se dar um tempo, se permitir uns minutinhos de respiro. Para outras essa questão de foco e ritmo está bem, mas sentem dificuldade quando precisam lidar com pessoas ou demonstrar suas habilidades sociais. Outras, apesar de populares e carismáticas, focadas e com bom ritmo, desanimam e largam tudo pela metade no primeiro contratempo. Qual é a sua dificuldade?

Quem foi que disse que a maneira convencional é a única válida para superar as dificuldades?
Muitos problemas podem ter mais de uma solução válida!

Para algumas pessoas este é um assunto muito dolorido. Quando pensamos naquilo que não conseguimos, muitas vezes temos a impressão de que é um grande "defeito" nosso, um problemão, ou de que nunca vamos conseguir dar certo. Mas não é nada disso! A gente só pode superar as nossas dificuldades quando vai além dos limites. Por isso, é fundamental conhecê-los bem, pois é isso que nos ajudará a criar planos e estratégias de ação.

Muitas vezes, percebemos que as nossas dificuldades são justamente o contrário dos nossos pontos mais fortes. A pessoa super atenta e cumpridora de prazos, que tem dificuldade em soltar a imaginação e a criatividade. Ou a pessoa muito carismática e com ótimas habilidades sociais, mas que tem dificuldade em sentar-se e produzir algo mais focado e racional. O que quero dizer é que cada um tem suas características e seu jeito de ser, sem que um jeito seja melhor ou mais adequado do que outro. Entretanto, quando identificamos e suprimos a nossas maiores dificuldades, podemos melhorar muito a nossa eficiência e a busca pelas nossas metas.

Mas como suprir essas dificuldades? Depende muito de qual é a dificuldade e como preferimos lidar com elas. Se a sua dificuldade é com prazos, horários e uma atitude mais focada, muitas vezes uma agenda ou uma simples lista de tarefas podem ajudar muito. Se a dificuldade é lidar com as pessoas, pode começar dizendo "bom dia" a todos que encontrar pelo seu caminho, você logo terá uma rede de conhecidos simpáticos a você, com quem poderá começar a desenvolver suas habilidades sociais. Se o problema é colocar a mão na massa, criar (e se forçar a seguir) uma rotina funcional pode trazer grandes mudanças. Enfim, atitudes simples e práticas podem fazer uma grande diferença na hora de lidar com as dificuldades.

Para terminar, um aviso. Dificilmente a nossa maior dificuldade se torna o nosso ponto forte. O que precisamos fazer é supri-las e, ao mesmo tempo, trabalhar as nossas metas de forma que nossos pontos mais fortes (sejam eles quais forem - todo mundo tem os seus!) sejam valorizados e ganhem o papel de destaque nessa busca. Não desdenhe dos seus pontos fortes. Eles são seus maiores tesouros e, se pensados estrategicamente, podem ser de grande ajuda ao lidar com as dificuldades.  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mythos - Quetzalcóatl: sacrificar-se pelo outro

Hoje vamos conversar sobre um deus dos povos da América Central, muito presente entre os astecas e toltecas. Quetzalcóatl é considerado por alguns pesquisadores como um dos principais deuses desses povos. Alguns dizem que ele era representado como um homem branco, de barba e olhos claros. Mas há poucas fontes para essa teoria. Mesmo porque seu nome significa "serpente emplumada", por isso muitas vezes ele também é representado como um homem coberto de ornamentos de plumas. No entanto, "quetzal" também significa "preciosidade" e "coatl", "coisa". Portanto, outra tradução possível seria "coisa preciosa".

Quetzalcóatl é um deus de vida e morte. Essa dualidade é muito frequente na cultura asteca. Ele é o criador das artes e da manufatura, por isso muitas vezes é visto como alguém que contribui para a vida do ser humano. Por outro lado, ele também é visto como terrível, para quem se fazia até mesmo sacrifícios humanos (sacrificavam um escravo comprado 40 dias antes de sua festa, cujo corpo seria comido pelos participantes de classe mais alta, ritualisticamente). Quetzalcóatl simboliza as energias que emergem da terra, daí a ideia da serpente emplumada. Nesse aspecto representa a abundância da terra (vegetação, recursos e a produção agrícola), pois é ele quem dá ao ser humano tudo aquilo que precisa para viver.

Quetzalcóatl, escultura asteca.
Um mito muito simbólico que envolve este deus é o da criação dos seres humanos. Entre os astecas, o mundo foi criado e recriado incontáveis vezes, pois sempre era destruído por cataclismos. Na última vez em que ocorreu a criação, Quetzalcóatl desceu ao mundo dos mortos (talvez simbolizando que mesmo os deuses enfrentem a morte), recolheu ossos humanos e verteu sobre eles seu próprio sangue, criando a humanidade novamente. Este trecho mostra a importância dos sacrifícios humanos na prática religiosa dos astecas, bem como a relevância do sangue enquanto substância carregada de energia vital. De forma reversa ao mito, os sacrifícios humanos serviam, entre este povo, para manter os deuses vivos, alimentando-os com a energia vital humana.


Questões para reflexão:

1- Pelo que você se sacrifica? Muitas vezes ouvimos esse termo "sacrificar" com ouvidos preconceituosos, como algo ruim e até lembrando a ideia da morte. Não é nada disso! "Sacrifício" é "tornar sagrado". E tudo o que é sagrado ocupa uma posição de destaque na nossa realidade. Em tempo: nada é sagrado por si só. Nem imagens religiosas, nem a vida humana, nem a natureza, nada. Somos nós, seres humanos, de posse da nossa capacidade de exercitar a religiosidade e espiritualidade (no sentido de ligar-mo-nos a algo que vai além de nós mesmos - deuses, ideologias, esperanças num mundo melhor, os outros, etc.), tornamos certos elementos da nossa realidade sagrados através da nossa crença. Isso quer dizer que somos nós mesmos quem criamos o sagrado conforme atribuímos um sentido de sagrado a determinadas coisas e valores. O que você torna sagrado, ou pelo que você se sacrifica? Quais são seus maiores valores? O que vale o seu sangue, a sua vitalidade?

2- Já comentei outras vezes o quanto as dualidades são ricas. Se bem integradas, elas não geram conflito algum, ao contrário, se unem e se transformam numa terceira coisa, muito maior que a soma de suas partes. A dualidade mais bela neste mito é a criação. Quetzalcóatl criou a humanidade envolvendo ossos mortos com seu sangue, com a parte mais nobre e viva de si mesmo. Em retorno, o ser humano mantém o deus vivo com sua vida, com seu sangue, reafirmando a sacralidade a cada sacrifício (com o perdão do jogo de palavras!). Esteja atento a quais dualidades existem em você e na sua vida. Conheça-as. Mais do que isso, perceba como você relaciona os lados dessas dualidades: de forma conflituosa, equilibrada ou ainda integrada a ponto de orientarem e "sacralizarem" sua vida?

3- Tudo na nossa realidade e todo momento da nossa vida tem o potencial de ser sagrado se assim quisermos. Os povos mais antigos tinham o costume de ritualizar a vida, suas passagens e ciclos, a realidade... Hoje em dia perdemos muito disso, os rituais, que deveriam ser, por excelência, um mito/discurso "encenado", se tornaram produtos de consumo, ou pior, um teatrinho mal feito. Com isso, o ritual (religioso ou não religioso - casamentos, formaturas, aniversários de todo tipo, mudanças na nossa vida...) mal encenado é "pior" do que ritual nenhum. Porque o rito existiu, mas não cumpriu seu papel. Não chegamos a nos envolver e aí os símbolos poderosos de transformação não nos tocam o coração. Reflita sobre os rituais que existem no seu dia a dia. Você chega a perceber que são rituais? Que fique claro: não falo de pompas e frufrus, mas sim de envolvimento! Perceba como você se prepara para os rituais do dia a dia (refeições, hora de dormir, banho, chegadas e partidas, encontros e reencontros...). Como você os encena? Com pressa e sem dar grande importância ou com o devido envolvimento? Apenas quando a gente se envolve com essas pequenas coisas, tornamos nossa vida e nosso dia a dia sagrados para nós mesmos. É no envolvimento que mora o "colorido" da vida.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ágora - Intolerância religiosa, bullying e discriminação

Eu queria perguntar na Ágora, mas não põe meu nome que tenho vergonha ta? Sou de uma cidade pequena no interior do Paraná e sofro preconceito porque não sou cristão. Minha avó é "mãe de santo" e minha família toda frequenta o candomblé. Eu amo minha religião e espero crescer muito nela. Não somos pessoas ruins como dizem, nossa crença prega o bem e o amor mas só que os outros não entendem isso. Na escola me xingam e me chamam de tudo que é nome, macumbeiro, falam que sou do diabo e mais outras coisa piores que não vou repetir por respeito a você e quem ta lendo o blog. Também se recusam a falar normal comigo sem ser pra me xingar, a sentar perto e a fazer os trabalhos. Sair com o pessoal então é uma coisa que nunca aconteceu, eu não sou bem vindo. Fico muito mal. É que isso é muito chato em casa me falam pra deixar pra la mas nao aguento mais. Queria que parassem já tentei conversar e explicar para os meus colegas que candomble não é nada daquilo que eles acham, já tentei resolver com conversas e parece que nada funciona. Outro dia eu estava muito triste com isso e fui falar com a diretora, mas ela me falou que não era um problema da escola e que ela sente muito mas não pode fazer nada pra me tirar dessa. Ainda bem que ano que vem já vai ser o ultimo e vou terminar a escola e sair de la. Espero que as coisas melhorem logo. Queria saber o que vc acha dessa situação. Obrigado.
V. - Paraná


Bom dia, V.

Isso é mesmo muito desagradável. Só quem já sofreu preconceito (por crença, etnia, lugar de origem, etc.) sabe o quanto é desesperador lutar para ser aceito entre pessoas de mente estreita, que não conseguem entender que antes de tudo somos todos humanos. Aliás, eu não acho só que isso é muito chato. Isso também é crime. Inclusive, no Brasil o crime de discriminação pode ser punido com cadeia, pelo que vi no site do Governo Federal (clique aqui para conferir a lei 9459, contra diversos tipos de preconceito). 

O Brasil é um Estado laico. Isso significa que não existe uma religião "oficial" na qual as leis e a conduta do povo se baseiam. Assim, a diversidade religiosa é permitida. O problema é que, apesar da liberdade ter sido dada, as pessoas não foram ensinadas a lidar com ela. E demonstram isso arrumando problemas! Infelizmente a discriminação não acontece apenas em escolas ou entre adolescentes, V. Isso acontece na sociedade, no mundo. E é digno de muita preocupação, pois se as pessoas não podem nem sequer respeitar quem pensa diferente, como podem ter a esperança sincera de serem respeitadas e viver num mundo com mais paz e menos violência? Não dá.

Aliás, se isso acontece (também) dentro da escola, não é apenas discriminação ou intolerância religiosa. O que seus colegas fazem com você ao xingar, excluir e dar apelidos pejorativos se chama bullying e, ao contrário do que a diretora te falou, é um problema da escola, sim. Precisa de intervenções, precisa ser pensado e discutido entre todos, não só para que pare de acontecer com você, mas também para prevenir que aconteça a outros alunos. Seria interessante voltar a conversar com ela, sabendo dessas informações para que, juntos, vocês pensem em como contornar o problema. Muitas vezes atitudes simples fazem toda a diferença. Algumas escolas chegam a fazer uma "roda das religiões", em que cada aluno pode apresentar a sua para o grupo e todos podem perguntar as curiosidades e conhecer melhor o estilo de vida dos colegas. Preconceito se vence com informação. Ah, V., acho importante que você não vá sozinho ter essa conversa com a direção da escola. Leve a sua família junto na hora de ter essa conversa, ou pelo menos um dos seus responsáveis. Isso, além de fazer com que a direção perceba a seriedade da situação (porque parece que muita gente ainda teima em não levar menores de idade a sério), isso significa ter mais alguém com você, ter testemunhas e também ter alguém ao seu lado ajudando a pensar e argumentar com clareza num momento delicado. Se a direção da escola não quiser ouvir, vale lembrá-los sobre a lei contra preconceito religioso e mesmo contra o bullying (discriminação, ameaças, coações...), que você encontra no Estatuto da Criança e do Adolescente (clique para ver). Apesar do termo "bullying" não ser mencionado lá, fala-se de discriminação, preconceito e intolerância, que é o que vem acontecendo com você, inclusive dentro da escola. Geralmente medidas simples, como ajudar seus colegas a conhecer aquilo que tanto temem e ver que não é nada demais costuma dar bons resultados. A ideia não é "converter" ninguém, e sim ajudá-los a conhecer e a conviver com as diferenças de forma respeitosa. Claro que não basta você falar, é preciso o apoio da família, o respaldo da escola, enfim, é preciso que todos se envolvam e façam desta situação uma grande oportunidade para ampliar a visão de mundo de muitas pessoas. Repito: preconceito se vence com informação.

Nunca se envergonhe por ser quem você é, V., e nem se sinta inferior por causa da ignorância das pessoas.
beijo,
Bia


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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

13 Formas de meditar

"Uma profunda meditação vale mais do que mil palavras." - dito judaico

Existem muitas formas de meditar, algumas delas muito diferentes da imagem que usualmente associamos à meditação. Tenho recebido alguns emails e mensagens de pessoas que perguntam qual jeito é o certo ou o melhor, por isso decidi escrever este artigo apresentando de forma simples algumas maneiras de meditar. Podemos começar dizendo que não há um jeito "mais certo" ou melhor para meditar, muito embora existam formas mais adequadas para uma pessoa em especial, aquela forma que nos sentimos mais à vontade e a meditação parece fluir melhor. Vamos conhecê-las e escolher aquela que melhor nos ajudaria:


1- Respirar
Respirar seguindo certos padrões (ou não!) também é uma forma de meditar. É bem simples e está ao alcance de todos. Basta sentar-se confortavelmente, com a coluna ereta. Uma possibilidade é apenas manter a atenção no fluxo das nossas respirações. As respirações devem ser profundas e lentas. Isso é ótimo também para ser feito na cama, antes de dormir. Outras opções são a respiração do mar (clique aqui para conhecê-la), ou ainda respirar em ritmos. Um bom ritmo para começar é um tempo com contagem até quatro. Inspire contando até quatro, prenda o ar enquanto conta até quatro e expire, outra vez, contando até quatro. Repita o processo enquanto medita. Sempre que perceber que os pensamentos se desviaram, volte a se concentrar na respiração. Caso sinta tontura ou algum mal estar, isso significa que você está mais estressado e tenso. Respire fundo e recomece, sempre respeitando o seu ritmo.

2- Entoar mantras e palavras
Pode ser feito sentado com a coluna ereta, deitado antes de dormir ou mesmo em movimento, como durante uma caminhada ou até durante as tarefas do dia a dia. Se você tem o hábito de entoar mantras, pode usá-los. Mas também pode usar palavras que gerem bem estar e harmonia, como "amor", "saúde", "felicidade"... A palavra/mantra pode ser repetido em voz alta ou apenas mentalizado repetidamente. Mantenha a respiração profunda e tranquila. Se os pensamentos se desviarem, volte a atenção novamente para a palavra que estava entoando. Depois, verifique se há algum tipo de relação entre o pensamento intruso e aquilo que você tinha se proposto a mentalizar. Pode ser que descubra sincronicidades interessantes!


3- Oração
Orar também é uma forma de meditação. Tanto faz o tipo de oração, se é algo pronto, decorado há muitos anos, se são palavras que vieram espontaneamente, se é um trecho da bíblia ou outro livro sagrado/de orações. Pouco importa se a oração é direcionada a um deus maior, deusa, anjos, energia criadora, etc. O que conta, quando pensamos a oração como uma maneira de meditar, não é a quem ou a que direcionamos nossa fé, mas sim o contato com algo maior e que vai além de nós mesmos, o contato com o todo, seja lá como a gente compreenda ou acredite que esse todo seja. As orações geralmente nos colocam em contato com um discurso e uma frequência energética de gratidão, perdão e abundância, que o nosso inconsciente tende a adotar como padrão de funcionamento quando repetido com frequência e envolvimento.

4- Concentrar-se em algo
Nossa atenção capta diferentes estímulos no ambiente em que estamos. No entanto, quando meditamos, podemos treinar a atenção concentrada, isto é, selecionar um estímulo e concentrar-se apenas nele. Sempre que outros estímulos do ambiente, ou ainda estímulos internos (pensamentos, sentimentos, sensações) aparecerem, volte a se concentrar no estímulo a que se propôs. Estímulos interessantes para usar como foco de concentração: uma música suave e tranquila, uma mandala a ser contemplada, ou ainda uma paisagem. De preferência, paisagens que mostrem amplidão, seja no mar, num campo ou parque. É mais interessante quando podemos ir até o lugar (se você mora numa grande cidade como eu, pode ir a um parque num horário em que ele esteja um pouco mais sossegado). Contemplar a amplidão cria o sentimento/sensação de que há um mundo a nossa espera para ser conhecido, temos infinitas possibilidades de ser e podemos criar o caminho que gostaríamos de percorrer.

5- Percepção da realidade e o despertar dos sentidos
Para começar, esteja atento apenas ao visual. O que você vê? Escolha uma cor. Perceba tudo no ambiente onde você está que tem essa cor. Depois passe para o auditivo. Feche os olhos e perceba os sons. Procure diferenciá-los. A seguir, é a vez das sensações. Agora, perceba os aromas. Repare que alguns lugares têm seus odores típicos. Cheiro de praia... cheiro de terra molhada depois que chove... os cheiros da casa... de livros antigos numa biblioteca... Procure conhecer o local através do perfume que ele tem. Sinta a si mesmo. Quais áreas do corpo estão mais tensas? Alguma área dói? Sinta o ambiente. Perceba dados como temperatura, umidade e outras sensações que possam aparecer. Agora mantenha o foco na sua percepção, combinando o ambiente a si mesmo. Como você "sente" o ambiente? Por exemplo, você se sente "em casa", protegido, bem-vindo...? Ou, ao contrário, o ambiente passa uma sensação de ameaça e mal estar? Essas sensações são normais e quero deixar claro que não há nada de extraordinário nisso. Para a física, a partir do momento em que estamos num lugar, fazemos parte daquele sistema, portanto é natural que certas características dele nos afetem e que as nossas também deixem marcas lá, pois todo sistema tende a buscar seu equilíbrio e, para que isso aconteça, é preciso haver trocas energéticas (no sentido físico do termo) entre seus componentes. Meditar com percepções nos ajuda a ter mais consciência de nós mesmos e da nossa realidade, o que nos leva a agir de forma mais pessoal e autônoma.


Para quem não conhece, este é um tambor xamânico
e um dos meus sonhos de consumo!
6- Ouvir sons repetitivos
Sons ritmados e repetitivos nos ajudam a entrar num estado de meditação profunda. Muitas pessoas chegam até mesmo a estágios avançados de transe enquanto se concentram em sons ritmados. É fundamental que o local esteja tão silencioso quanto possível (claro, a não ser pelo som!) e que a pessoa esteja sentada ou deitada confortavelmente, com os olhos fechados e respirando profunda e tranquilamente. Um som muito usado para isso é o do tambor xamânico que, por produzir um som primitivo e simples, quando tocado no ritmo adequado, "ocupa" a nossa mente consciente, permitindo-nos um bom mergulho no inconsciente. Além disso, batidas ritmadas remetem ao som de um coração, da mesma maneira que o bebê escuta o coração da mãe quando ainda está no útero, o que tende a gerar uma sensação de relaxamento e aconchego.

7- Caminhada meditativa
Dizem que Sócrates, um filósofo grego do século V a.C., era um grande adepto desta prática! A ideia é bem simples: ocupar o corpo com algo que podemos "fazer sem pensar" (isto é, um movimento tácito) e deixar a mente fluir! Perceba que a ideia aqui é bem o oposto das meditações anteriores, ao invés de trazer a mente para um só foco, que seria o "não pensar", esta técnica visa a reflexão profunda sobre algum assunto ou acontecimento que esteja mexendo com a pessoa naquele momento. Uma dúvida frequente: evite fazer esta meditação naquelas esteiras de ginástica. O objetivo não é dar produção! O que se pretende é que, ao manter o corpo ocupado, a mente tenha a liberdade de pensar com clareza. Além disso, a caminhada é um exercício leve, que ajuda a ativar e oxigenar o cérebro (o que se traduz em maior concentração e clareza mental). Prefira fazer esta técnica ao ar livre, num parque, na beira do mar, ou mesmo pelas ruas do seu bairro.

8- Pintar uma mandala
Como já comentamos em outros artigos (Mandalas: a busca pelo centro e As cores nas mandalas), a mandala é o símbolo da nossa psique, sendo que quando mais nos aproximamos de seu centro, mas nos aproximamos do nosso próprio centro (Self), a porção mais profunda do inconsciente. O Self é considerado por Jung o arquétipo da nossa totalidade. O contato ordenado com o nosso centro nos permite conseguir ou manter o equilíbrio psíquico, conforme damos forma aos nossos conteúdos internos e os preenchemos com afetos (cores!). Se você quiser experimentar esta técnica, prepare os seus lápis de cor e imprima uma mandala no nosso álbum sobre isso lá no Facebook (álbum Mandalas para colorir - clique!). Importante: se a ideia for fazer da pintura (ou desenho, caso você prefira criar a sua própria mandala) um momento de meditação e reequilíbrio, evite parar no meio do processo. Além disso, prefira trabalhar com a mandala num local bem iluminado e silencioso. Caso prefira colocar uma música, fique atento ao repertório. Prefira algo mais tranquilo, em volume mais baixo, e respeitando as suas emoções (ou seja, nada de música "de fossa" se já está meio triste!).

9- Dança circular
As danças circulares são danças tradicionais de diversos povos. São dançadas em roda e a coreografia pode ser bem simples ou muito complexa. Geralmente as danças circulares seguem um tema. Existem as de boas vindas, as usadas para expressar gratidão, as danças de proteção, as que trazem a intenção de trabalhar a criatividade, as emoções ternas como o amor e a afeição, mas também as danças de combate usadas pelos guerreiros. Quando se está envolvido com a dança circular, focando o centro da roda, os movimentos fluem harmoniosos. No entanto, a ideia não é dançar com perfeição, e sim manter o foco na meditação que a atividade oferece. A roda da qual participamos passa a ser vista como uma mandala, nós nos tornamos parte de uma mandala conforme percebemos que estamos conectados aos demais participantes da roda. Durante uma dança circular, é interessante manter o foco no centro sem perder o todo. Nossos corpos ficam ocupados com uma coreografia enquanto nossa mente está concentrada no tema da dança. Esta técnica dá ótimos resultados tanto para pessoas mais introvertidas, que podem se abrir para o outro e para o mundo externo; quanto com pessoas mais extrovertidas, que poderão focar o centro e encontrar a si mesmas.

10- Trabalhos manuais (tricô, modelar argila...)
Muitas pessoas hoje em dia só se sentem realizadas no "fazer". O mundo em que vivemos encoraja isso a tal ponto que, se aquilo que fazemos não aparece, logo as pessoas se queixam de tédio. Mas, ao mesmo tempo, existem situações em que pode ser muito útil envolver-se com o "fazer" mais concreto para dar à mente algum tempo para se organizar. Algumas vezes nos deparamos com problemas que parecem não ter solução. Outras vezes, até vemos alguma saída, mas sabemos que o tempo da situação se desenrolar não é este, seja pela necessidade de obedecer prazos, cumprir etapas ou o que for. Entretanto, mesmo que nosso lado racional compreenda isso, muitas vezes o lado emocional quer apenas ver a questão resolvida. Aí começa a ansiedade, o nervosismo, irritação, desânimo... Quando meditamos ao mesmo tempo que fazemos uma atividade concreta que nos dê um resultado prático (meias de tricô, uma escultura em argila, assar um bolo, customizar roupas ou móveis da casa, etc.), podemos quebrar a angústia da situação. O que acontece é que a mente racional pode descansar, pois se desliga do problema, ao mesmo tempo em que nosso lado emocional se acalma ao perceber um resultado prático sendo criado por nós.

Uma dica: apesar de serem lindas, essas pedrinhas roladas e
 polidas são muito mais difíceis de equilibrar!
Foto: Bia F. Carunchio
11- Empilhar pedras
Entre muitos povos existe a prática de empilhar pedras. O objetivo é conseguir um estado de paz interior enquanto se reflete sobre algo ou apenas se "parar de pensar" durante a atividade. Empilhar pedras não é tão fácil quanto parece. Quem tentar logo vai perceber que os formatos e texturas precisam se harmonizar para que o equilíbrio se mantenha. Separe um punhado de pedrinhas. Pode ser qualquer pedra, até mesmo essas pedrinhas de brita que a gente encontra na rua. Então reserve algum tempo para a atividade, não desista nas primeiras tentativas. Dez minutos é um bom tempo para começar. Muitas vezes essa atividade meditativa nos ajuda a encontrar soluções criativas para os problemas do nosso dia a dia.

12- Meditação orientada
Estas são aquelas técnicas de meditação em que a pessoa segue um roteiro. Geralmente existe um objetivo específico para isso, como o alívio de um sintoma, a mudança de aspectos emocionais (ser mais confiante, menos tímido, controlar a raiva e agressividade, etc.), ou mesmo relaxar. Algumas vezes, ainda, as meditações orientadas são utilizadas para ter contato com aspectos profundos da nossa psique, como o contato e o aconselhamento com o guia interior ou com o Velho Sábio que vive dentro de todos nós. As técnicas costumam ser um pouco mais complexas que mencionadas anteriormente, pois envolvem respirações, imagens e pensamentos, como se a pessoa fizesse um "filme" passar na mente, sendo ao mesmo tempo o ator principal e o diretor do filme.

13- Meditação guiada
Esta técnica tem os mesmos objetivos da anterior, com a diferença que agora a pessoa não precisa se preocupar em "dirigir" a meditação. Outra pessoa (geralmente um terapeuta) faz o papel de guia ou de diretor. A pessoa que medita apenas acompanha, criando na mente as realidades descritas pela fala do terapeuta. Algumas pessoas têm um pouco mais de dificuldade na meditação orientada, mas meditam bem com alguém guiando-as, pois basta permitir-se levar pela voz do outro. A voz, aqui, atua como um estímulo no qual a pessoa deverá manter o seu foco (aliando isso às imagens mentais e situações criadas pela técnica).

Espero que o artigo tenha ajudado a entender as diferentes formas de meditar. Principalmente, a saber que meditação não precisa ser necessariamente sentar com as pernas cruzadas e olhos fechados... Para terminar, queria dizer que todos podem e devem meditar, isso traz grandes benefícios para a nossa vida. Lembre-se: a ideia não é praticar com perfeição em cada detalhezinho, e sim buscar um estado de tranquilidade e paz interior.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Mythos - Atlas: carregar o mundo nas costas

Hoje temos um mito grego. Atlas é conhecido por carregar o mundo nas costas como castigo. Por isso, hoje vamos aproveitar a simbologia deste mito para falar sobre aquelas questões que nem sempre são nossas, ou sobre aqueles problemas cuja solução nem sempre está nas nossas mãos, mas que ainda assim, temos dificuldade em soltar.

Tudo começou na guerra entre deuses e titãs. Os titãs são as divindades que vieram antes dos deuses e, quase sempre, sua personalidade é menos estruturada e menos complexa que a dos deuses, pois representam elementos mais básicos da natureza, como o sol, a lua, o céu, a terra, os rios, etc; ao contrário dos deuses que, quase sempre, representam aspectos humanos e culturais como o amor, a liderança, o amadurecimento, as questões que envolvem a vida e a morte. Atlas era um titã, filho do titã Jápeto (ligado às mortes violentas, mas também às habilidades artesanais) e da ninfa Climene. Seu nome, Atlas, significa "aquele que suporta", algumas vezes interpretado também como "sofredor". Também na nossa cultura ocidental temos, em diversos idiomas, o hábito de usar a palavra "suportar" com o sentido de "aguentar" provações e dificuldades.


No início dos tempos, Cronos (o tempo) e Reia (ligada à energia da terra) deram origem aos deuses principais. No entanto, Cronos temia ser destronado pelo filho, tal como ele mesmo havia destronado o pai, Urano (o céu), anos atrás. Por isso, cada vez que Reia dava à luz um de seus filhos, ele engolia a criança! Reia, já cansada disso, certa vez deu uma pedra para que o marido engolisse e escondeu o filho caçula, Zeus. Quando o deus cresceu, uma águia lhe contou sua história e, revoltado, ele decidiu salvar os irmãos e punir o pai. E assim foi feito. Zeus libertou os irmãos, fazendo com que saíssem, já adultos, pela boca de Cronos. Juntos, os deuses entraram em guerra contra os titãs. Essa guerra durou dez anos e no fim eles prenderam Cronos e alguns outros titãs que se opuseram aos deuses e aos humanos no tártaro (a região mais profunda do mundo dos mortos). Durante a guerra, muitas coisas aconteceram. Todo tipo de criatura tomou partido de um dos lados. Os seres humanos ficaram ao lado dos deuses, matando gigantes (que estavam ao lado dos titãs) com suas flechas quando os deuses os derrubavam. Quando a guerra terminou, Zeus e seus irmãos prenderam Cronos e alguns dos outros titãs no tártaro, como dissemos antes. Entretanto, alguns dos titãs tiveram castigos diferentes. Atlas foi um deles. Numa das versões do mito, por ter se oposto e tentado destruir os deuses e os humanos, Atlas foi condenado por Zeus a carregar o mundo sobre os seus ombros pela eternidade. Em outras versões do mito, Atlas não carrega o mundo, mas sim o céu/Urano, impedindo-o de chegar à terra/Gaia e, assim, não poderiam copular e gerar mais titãs que ameaçassem os deuses.

Mais tarde, Atlas foi liberado desse castigo pois Herácles construiu pilares que passaram a sustentar o mundo.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar pensando neste mito pelo significado do nome "Atlas". Suportar significa dar suporte, viabilizar, tornar algo viável e possível. Quem tem esse papel é a pessoa que assume a responsabilidade por aquilo ou aquele que está sendo suportado, ou seja, aquele que responde pela coisa/pessoa/local/situação/etc. em questão. Os responsáveis por uma criança ou por uma empresa, por exemplo, são aqueles que lhe dão suporte. Papel e caneta na mão para a primeira atividade! Liste tudo e todos a quem você, de algum modo, suporta (em todos os sentidos da palavra). Tenha a lista em mãos, pois ela será usada nos próximos pontos.

2- É impossível para alguém que trabalhe com saúde ler este mito e não lembrar dos pacientes com problemas e dores na coluna. Claro que cada caso é um caso, mas de forma geral, muitos deles trazem para o consultório situações bem semelhantes àquela vivida por Atlas. A coluna entorta e dói quando tentamos carregar o mundo inteiro nas costas. Aliás, nem precisamos chegar ao mundo inteiro! Os problemas começam quando "suportamos" responsabilidades que não são nossas. Sofrer não é assumir qualquer tipo de responsabilidade. Quando respondemos/nos responsabilizamos por nós mesmos, a vida flui que é uma beleza! O nome disso é autonomia ou, numa linguagem mais popular, "independência". O problema começa quando pegamos para nós problemas e tarefas que não são nossos e que, enquanto estiverem sobre os nossos ombros, além de causarem dor (física ou emocional), nunca serão solucionados, pois não somos nós quem respondemos por eles, por isso não temos como agir sobre essas situações. Releia a lista que fez no exercício anterior. Marque quais responsabilidades não te pertencem. E largue-as. Até Atlas, que era um titã e atentou contra os deuses e a humanidade mereceu sua libertação. Então, você também merece.

3- O outro pólo da questão é a pessoa que não suporta nada, nem a si mesma. Apenas podemos suportar aquilo que nos diz respeito, ao mesmo tempo em que somos os únicos com o poder de agir nas nossas vidas. Por isso, quando alguém se queixa de que a vida não caminha, as coisas não dão certo, que não deram sorte ou queixas do tipo, muitas vezes o que se percebe é uma falta de envolvimento consigo mesmo, uma certa dificuldade em assumir as responsabilidades que envolvem a própria vida, ou mesmo um sentimento de insegurança ao ter de responder por si. Você e pontos fundamentais da sua vida foram colocados na lista do primeiro exercício? Em que posição, no topo ou mais para o final, depois de todas as outras pessoas e situações? Que lugar você ocupa na sua vida?

4- Fazendo um paralelo entre o mito e o corpo humano, o pilar que sustenta o mundo seria a nossa coluna vertebral. Já o mundo seria a cabeça (sede da inteligência e racionalidade, ponto fundamental entre os antigos gregos). A cabeça está apoiada na primeira vértebra da cervical. Quando a nossa postura corporal está alinhada corretamente, evitamos uma série de dores e problemas de saúde, até mesmo o cérebro recebe mais oxigênio e pode funcionar melhor. Nada como ter o mundo apoiado sobre o pilar que lhe deve o sustento, em lugar de tê-lo jogado sobre ombros que não têm nada com isso!