quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A dor da frustração

"A recordação da felicidade já não é felicidade; a recordação da dor ainda é dor." - Lord Byron (poeta britânico, 1788 - 1824)

Vamos começar a conversa de hoje com o mito egípcio de Ísis. Ela era a deusa da cultura e dos mares. Era também a deusa mãe dos mistérios da vida, podia adiar a morte, curar e interferir nos destinos dos seres humanos. Ísis era casada com seu irmão Osíris, que fora assassinado por outro irmão deles, Set. Inconsolável, Ísis cortou os cabelos e rasgou suas vestes, lamentando a morte do amado enquanto perambulava pela terra como uma mulher de carne e osso. Chegando na Fenícia, a rainha Astarte se sensibilizou com a situação da pobre mulher e a acolheu como ama de seu filho pequeno. Ísis afeiçoou-se ao menino e resolveu fazer um ritual para imortalizá-lo. Entretanto, Astarte chegou durante o processo e, horrorizada, retirou o filho do fogo, interrompendo a magia de Ísis que, por conta disso, revelou à rainha que era uma deusa e explicou-lhe sua real situação. Astarte contou à deusa que sabia onde estava o corpo de seu amado Osíris, na árvore que ficava no centro do palácio. Ísis levou o corpo do marido para que fosse sepultado. Entretanto, Set descobriu e, furioso, partiu o corpo de Osíris em inúmeras partes e jogou os pedaços no Nilo. A busca de Ísis se tornara ainda mais difícil, pois precisava encontrar e montar todos os pedaços. Quando o corpo de Osíris estava completo, Ísis inventou o processo de embalsamamento e seu amado voltou a viver, tão vivo quanto fora antes de ter sido assassinado! Inclusive, depois disso tiveram um filho, Hórus, que após derrotar Set, se tornaria o primeiro rei dos vivos no Egito.

Por que é difícil lidar com as perdas?
Comecei com o mito de Ísis porque ele ilustra bem o processo pelo qual nós todos passamos quando sofremos alguma dor muito grande: lamentamos a perda, buscamos por uma totalidade e superamos obstáculos para que então nos percebamos inteiros outra vez. Isso é interessante porque mostra algo sobre o que raramente se reflete hoje: formas para superar a dor. Não se pensa nisso porque a dor já não é mais parte da nossa vida. Seja a dor da perda de alguém que amamos ou uma simples dor de cabeça. Não toleramos a dor. Um jeito muito simples e concreto de verificar isso é perguntar a alguns colegas quais medicamentos eles trazem na bolsa. Talvez você se surpreenda com a quantidade de remédios que algumas pessoas carregam mesmo sem estarem doentes. Porque pode aparecer aquela dorzinha de cabeça chata... Porque pode ser que a menstruação venha e traga cólicas... Porque pode ser que a comida enlatada do almoço me faça mal... Porque talvez eu não saiba outra forma de mostrar o quanto me importo comigo mesma. Ninguém tolera a dor!

Mas e quando a dor não é no corpo? Imagine a frustração de se sentir dilacerada por dentro ao receber uma notícia triste ou quando algo importante para nós não saiu como o planejado e não poder tomar um analgésico sequer! O que resta? Lamentar, juntar os pedaços e reconstruir, tal como fez Ísis. E, quem sabe, de tudo isso ainda haverá algum fruto?

Vejo a baixa tolerância à dor como uma das muitas faces da baixa tolerância à frustração (outras faces podem ser o medo exagerado de se envolver - com uma atividade, com um relacionamento ou com a gente mesmo; a resistência às mudanças; diversos tipos de compulsões; medo de se expor ou de assumir o que quer, entre tantas outras faces). Vivemos numa sociedade que prega que precisamos ter muito, mas que nunca se lembra de nos contar o quanto teremos de trabalhar para estarmos onde queremos chegar. É um mundo que tenta nos dizer que devemos ser, sempre, pessoas de muito sucesso em todas as áreas da vida. Mas qualquer pessoa sabe que nem sempre é assim. Nem sempre as coisas saem como planejamos. O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) certa vez disse que "nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram." Frustração! Por que não sabemos lidar com ela?

Pequenas frustrações do dia a dia: como as vemos
mostra como lidaríamos com frustrações maiores. 
Percebo na clínica, ao lidar com meus pacientes, que normalmente as pessoas que mais têm dificuldade para lidar com as frustrações da vida são aquelas que têm menos recursos para lidar com as perdas e as dores (naturais da vida), seja por perceberem o meio em que vivem como exigente demais, seja por colocarem para si mesmas metas muito além do seu alcance. É claro que sonhar e ter metas é importante! E que bom se elas forem grandiosas! Mas é preciso ter consciência do tamanho dos nossos passos. Se um estudante quer, digamos, entrar na faculdade, precisa passar por todas as séries escolares que vêm antes do vestibular, precisa estudar, ter períodos de respiro para aliviar o estresse... Enfim, nossas metas exigem envolvimento e dedicação. Cair de vez em quando faz parte. Mas, com certeza, as quedas serão menores e machucarão menos se forem calculadas. Quem já andou de skate ou de patins provavelmente lembra da primeira lição: aprender a cair de um jeito que machuque menos. Isso é fundamental. Como fazemos isso na vida? Calculando nossas metas! Voltando ao exemplo, se quero entrar na faculdade mas ainda estou no primeiro ano do Ensino Médio, vou me frustrar em dezembro. Porque nenhuma faculdade me aceitará antes que eu termine a escola, por mais bonito que o meu sonho seja e por mais que eu tenha me esforçado. Vamos, então, separar a nossa meta maior em uma série de metas menores e mais "alcançáveis": frequentar as aulas, fazer as tarefas, fazer um resumo das matérias, escolher uma boa universidade, um curso interessante... Isso nos aproxima da meta maior e nos acalma, pois saberemos que a conquista veio do nosso esforço, não de uma "sorte" que depende sabe lá de que. E se a conquista depende de nós, podemos nos esforçar para chegar até lá!

Mas e as frustrações? Claro que também podem acontecer com metas menores. Mas provavelmente, perder uma batalha dói menos que perder a guerra. E, por um lado, as pequenas frustrações têm seu lado bom, pois mostram que o caminho que seguíamos não estava dando certo. Ou melhor, mostra que é hora de recalcular a rota! Para o estudante do nosso exemplo, ávido por ir para a universidade, certamente será frustrante tirar uma nota baixa em matemática. O sonho fica mais distante... Mas agora ele sabe que precisa se dedicar mais a esse ponto, ou talvez mudar seus métodos de estudo, esclarecer suas dúvidas...

A frustração pode ser uma grande força que nos empurra para as nossas metas, desde que saibamos vê-la além da dor. A dor tem o seu momento de existir, o mito de Ísis nos mostra isso. Dói ver que aquilo que foi sonhado não se concretizou. Estranho seria não sentir nada! Mas a frustração também nos mostra que é preciso reconstruir. A dor precisa se tornar potencial de ação, talvez aquela revolta/indignação que nos leva a tomar uma nova atitude. É preciso saber caminhar em meio aos obstáculos do caminho, percebendo-os e desviando, talvez tropeçando, mas sabendo cair e tendo forças para levantar e continuar.

2 comentários:

  1. Estou na luta estudando para concurso público. E esse artigo trata exatamente do meu caminho nesse momento. Frustração nas reprovações, choro um pouquinho, junto os cacos, me reconstruo, tento perceber o que esta errado e volto a estudar.

    Apesar dos poucos comentários, estou sempre por aqui lendo e admirando os seus textos.

    Rogéria Ribeiro

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    1. Obrigada, Rogéria. O mais importante é sempre ter esperança, aconteça o que acontecer. abraço.

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