quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O que os seus sonhos dizem sobre você?

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mário Quintana (escritor brasileiro, 1906-1994)

No mundo corrido em que vivemos, pouca gente dá a devida importância aos sonhos. Ou, quando tocamos nesse assunto, logo interpretam a palavra "sonho" no sentido de um plano, algo que queremos muito realizar. Isso também é importante. Mas hoje a nossa conversa é sobre outro tipo de sonho, aqueles sonhos sonhados à noite, enquanto dormimos. Ah, comigo não porque eu não sonho! Sonha sim. Todo mundo sonha diversas vezes por noite, especialmente quando o nosso ciclo de sono entra no estágio REM, fase em que nossos olhos fazem movimentos rápidos e o cérebro funciona numa frequência semelhante à da vida desperta. Em uma noite de sono, um adulto passa por 4 ou 5 períodos de sono REM, quando com certeza sonha e quando tem sonhos mais vívidos.

Os sonhos sempre intrigaram e chamaram a atenção da humanidade. Um dado interessante é que a visão que temos sobre os sonhos se transformou no ano de 1900, quando Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos (na minha opinião uma de suas melhores obras, que vale muito a pena ler!). Até então, pouco se sabia sobre sonhos, que geralmente eram atribuídos a agentes sobrenaturais: deuses, demônios, fadas, anjos, espíritos... Para algumas tribos do Pacífico, o sonho é tão real quanto a vida desperta. Assim, se uma jovem sonha que se casou com um dos rapazes da tribo, por exemplo, eles já são considerados casados. Na Grécia Antiga, os sonhos eram vistos como remédios. Era bem comum que o doente levasse sua klinikos (leito, aquilo sobre o que se deita) para o templo de Esculápio, o filho médico do deus Apolo. No templo, após certos rituais, os doentes passariam a noite dormindo e sonhariam com a cura. Como curiosidade, daí vem o termo "clínica". Mais tarde, na Idade Média, os sonhos bons eram considerados inspirados por Deus e os ruins pelo demônio. Desse período histórico datam inúmeros casos de "bruxas" que se reuniam entre si e/ou com demônios em sonhos. Depois disso, os sonhos continuaram a ser vistos de maneira supersticiosa e, ainda hoje, muita gente olha para eles desse ponto de vista. Se entrarmos numa livraria qualquer, encontraremos inúmeros livretos que trazem os significados dos sonhos de forma supersticiosa, com significados prontos e até números para apostas!

Sonhos que retratam o desejo de voltar ao útero
materno, sentir-se protegido, aceito e amado
são muito comuns em crianças e adultos.
Freud foi um dos primeiros a olhar para os sonhos do ponto de vista científico moderno, apontando que eles não tinham relação alguma com seres sobrenaturais, mas contavam muito sobre a pessoa que sonha. Assim, para Freud, os sonhos são realizações de desejos. Ele cita o exemplo de sua filhinha pequena que queria muito comer os morangos que seus pais dariam de presente a uma pessoa que iriam visitar. Como a menina não podia comê-los, sonhou que realizava este desejo. É claro que nem sempre (aliás, quase nunca) os sonhos são tão literais. Conforme crescemos, desejos muito mais complexos são arquitetados pela nossa psique que, para não causar desconforto, disfarça essas ideias inconscientes através de simbolismos. E aí temos aqueles sonhos confusos em que uma pessoa pode ser representada por outra, ou ainda por objetos, lugares... Carl Jung, contemporâneo de Freud, ampliou o conhecimento sobre sonhos ao explicar que o papel deles não seria apenas o de realizar desejos que sequer desconfiávamos ter, mas especialmente o de reequilibrar a psique, pois o ambiente do sonho permite a livre expressão dos nossos diferentes arquétipos, das "personagens" que moram dentro de nós (para rever uma conversa sobre arquétipos, clique aqui). De qualquer modo, hoje sabemos que os sonhos são uma importante carga emocional que muito conta sobre nós mesmos e sobre as situações pelas quais passamos. É claro que muito dificilmente esse processo é literal (arrisco dizer que quase nunca) e os símbolos contidos no sonho podem variar muito de acordo com a cultura em que fomos criados, com o momento em que vivemos e com a nossa própria história de vida. Por exemplo, sonhar que abraçamos nossos pais pode ser visto de formas distintas por alguém que acabou de sair da casa dos pais, por alguém que não tem uma boa relação com eles ou por alguém que nunca chegou a conhecê-los.

Mas para que lembrar dos nossos sonhos? Além de ser uma ótima oportunidade de nos conhecermos melhor, como Jung apontou, trabalhar com os nossos sonhos nos permite equilibrar nossa psique e acompanhar este processo. Nosso mundo interno anseia por se mostrar a nós. Se não damos atenção à sua forma de comunicação mais "amigável", os sonhos por exemplo, mas também as fantasias, atos falhos... logo ele precisará gritar para passarmos a ouvi-lo. E aí podem surgir sintomas, pesadelos, emoções desagradáveis, acidentes... 

Algumas estratégias para recordar dos sonhos:
- Ao deitar na cama, logo antes de adormecer dê a si mesmo a instrução de que você se lembrará dos sonhos que tiver naquela noite. Parece simples, mas costuma dar resultados em poucas tentativas.
- Escrever um diário de sonhos costuma ser uma experiência muito agradável. Muitos pacientes relatam que apenas o fato de dormirem com papel e lápis perto da cama já ajuda a lembrar dos sonhos. 
- Anote os seus sonhos, de preferência, logo pela manhã, antes que a correria do dia a dia diminua essas memórias. Aliás, anote mesmo quando não lembrar. Quem sabe você se lembra de uma cor, ou de uma emoção, de uma sensação... isso também são dados importantes e, com o tempo, memórias mais claras começarão a vir.
- Não troque de posição logo ao despertar! Muito da nossa memória é corporal e manter-se na postura em que despertamos por uns poucos momentos pode ajudar as memórias a virem com maior facilidade.
- De maneira geral, quanto mais atenção você der aos seus sonhos, mais se lembrará deles e mais claros eles serão.

Como disse o mitólogo norte americano Joseph Campbell, "Os mitos são sonhos públicos, os sonhos são mitos privados." É interessante prestar atenção a isso. Quais temas são frequentes nos seus sonhos? Quais pessoas, personagens ou arquétipos aparecem mais e quais aparecem menos? Muitas pessoas que gostam de mitologia costumam dizer que os mitos romanos são iguais aos gregos, apenas foram traduzidos. E isso é um grande erro! Porque, apesar de existirem mitos muito semelhantes em que os romanos fizeram uma releitura dos mitos gregos, mesclando-os a outros elementos, se olharmos o ponto de vista através do qual cada um dos povos conta seus mitos, o leitor mais atento logo notará que os gregos contam pelo ponto de vista da razão e do equilíbrio, já os romanos focam na conquista (amorosa, de um povo, de territórios...). E isso muda totalmente as histórias, porque o fio condutor é outro! E você, ao olhar para sua "mitologia pessoal" (folhear a esmo o seu diário de sonhos será muito útil agora), qual é seu fio condutor? Quais são seus valores?

Pessoalmente, gosto muito de trabalhar com sonhos. Tenho o costume de anotá-los desde adolescente e oriento meus pacientes a fazerem o mesmo. Não apenas porque, enquanto terapeuta, os sonhos dos meus pacientes podem facilitar o meu trabalho e enriquecer as consultas. Mas porque, para a própria pessoa, ter uma visão clara dos seus sonhos (e, portanto, de seu mundo interno) pode ser um excelente mapa de como andam as coisas no mundo externo. E, independente de qual seja o seu caminho, sempre convém ter por perto um bom mapa!

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