quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Situações que se repetem

"A liberdade não tem qualquer valor se não inclui a liberdade de errar." - Mahatma Gandhi (Nacionalista indiano, defensor do protesto sem violência. 1869-1948)

Pode ser que você já tenha reparado que existem situações que se repetem na vida da gente. A repetição pode acontecer na mesma área da vida: nos relacionamentos, a jovem que termina um namoro abusivo só para encontrar um novo namorado igualmente controlador, o homem que sempre é traído, o casal que não consegue conviver em harmonia por muito tempo pois sempre ocorre algum contratempo causado por outras pessoas; no trabalho: a pessoa que nunca se adapta ao ambiente corporativo, a que sempre tem problemas com os colegas e/ou superiores, a que sempre é demitida injustamente, entre tantos outros. Algumas situações podem se repetir em áreas diferentes da vida. Quando isso acontece, nós psicólogos dizemos que a pessoa generalizou. Por exemplo, a pessoa que tinha dificuldade em lidar com pais autoritários demais e repete a mesma dificuldade com os professores, chefes, policiais e outras figuras "de poder". É claro que meus exemplos são muito gerais, não há limites para as situações em que os seres humanos podem se envolver quando estão em relação com o outro.

O maior problema das situações que se repetem é que,
em geral, são como um trabalho inútil.
Por que certo tipo de situação se repete na vida de alguns de nós? Em que momento da nossa vida aprendemos e enraizamos certo comportamento, certas ideias e emoções tão profundamente a ponto de repeti-las pela vida por anos a fio? E, em alguns casos a repetição é tão sutil, tão inconsciente, que a pessoa custa a percebê-la e a aceitá-la. Mas, se não aceitá-la, como quebrar o ciclo?

Gostaria de contar a vocês o mito grego de Sísifo, e gostaria que, enquanto o ler, você procure imaginá-lo em imagens, como se fosse um filme. Vamos precisar dessas imagens em breve. Sísifo era filho do vento Éolo. Sendo filho do vento, podemos saber que ele era bastante criativo e tinha mente ágil, características atribuídas ao ar e aos ventos nos mitos, alguém esperto, que flui como o vento. Pois bem. Certo dia Sísifo precisava de favores do humano Ásopo que, por acaso, era pai de uma das amantes de Zeus. Para conseguir o que queria, Sísifo contou a ele sobre o caso da filha com o líder dos deuses. O homem ficou atônito! Que história era aquela? Ásopo foi, então, conversar com Egina, sua filha. A jovem, muito surpresa do pai saber sobre sua aventura amorosa, confirmou e, não vendo outra saída, contou toda a história a Zeus, pois não queria terminar o romance. Zeus, por sua vez, ficou furioso! E, sendo o líder dos deuses, pediu que Tânatos, a morte, levasse Sísifo para o mundo dos mortos, pois ele sabia de informações que poderiam abalar o mundo dos deuses e claramente, como bom filho do vento, não conseguia guardar certos segredos! Entretanto, como já dissemos, Sísifo era muito esperto e conseguiu aprisionar a morte! 
Ele elogiou a beleza de Tânatos e deu-lhe um colar que realçaria ainda mais sua beleza. No entanto, o colar era, na realidade, uma coleira, com a qual Sísifo manteve a morte aprisionada por alguns anos, evitando seu terrível destino. Por certo tempo, ninguém mais morria! E assim Sísifo encontrou novos problemas, desta vez com Hades, rei do mundo dos mortos. Nos mitos, ninguém escapa do destino, ninguém pode deixar de viver sua história! Zeus libertou Tânatos e Sísifo foi, finalmente, levado para o mundo dos mortos. Porém, ao se despedir da esposa, o astuto Sísifo pediu a ela que não sepultasse seu corpo. Chegando no submundo, ele implorou a Hades para ser liberto por apenas um dia, argumentando que a esposa não havia feito os ritos funerários. Na Grécia Antiga, os mortos que não recebiam os ritos não iam para o submundo, vagavam pela terra por tempo indefinido, como almas perdidas. Ele disse para Hades que queria apenas pedir para que a esposa fizesse o funeral, e então voltaria. Assim, Hades foi obrigado a libertá-lo e, mais uma vez, Sísifo driblou a morte. Obviamente, no fim do dia ele não voltou ao mundo dos mortos e Hades enviou Tânatos ao seu encalço pela segunda vez. Chegando novamente no mundo dos mortos, Sísifo finalmente pagou a pena exigida pelo enfurecido Zeus: todas as manhãs ele empurra uma pedra arredondada até o topo de uma montanha mas, quando estava quase no topo, a pedra rolava e rolava, obrigando Sísifo a reiniciar seu trabalho a cada dia, nunca o concluindo e nunca libertando-se do castigo.

Por que algumas situações se repetem na vida da gente? Vamos trabalhar com as imagens que você criou enquanto lia o mito. Gostaria que você respondesse com sinceridade a algumas perguntas para si mesmo.
- De que tamanho você imaginou a pedra que Sísifo empurrava? Alguns a imaginam pequena. Outros as imaginam do tamanho de uma pessoa. Outros, ainda, muito maiores que um ser humano! De que tamanho são os problemas e as supostas responsabilidades da sua vida no seu ponto de vista? São pesados ou são "empurrados" facilmente? A pedra é arredondada demais, difícil de ser empurrada montanha a cima? É escorregadia? Como são e quais são seus problemas? Será que são mesmo seus? E, se não forem, por que seriam sua responsabilidade?
- Como era a montanha? Pequena? Grande? Tão alta que não se enxerga o topo? De que tamanho você enxerga os obstáculos? Mesmo que seja alta, a subida é suave? Ou é tão íngreme que mais parece uma muralha de pedra? Lembre-se que esta é a sua visão dos obstáculos e dificuldades, não quer dizer que sejam assim na realidade, mas sim que este é o olhar que você tende a dar a eles.
- Como você imaginou Zeus e Hades? Como um homem comum? Muito maior ou muito mais forte que um ser humano poderia ser? Com poderes terríveis? Bonitos? Grotescos? O que eles te inspiram? Medo? Coragem? Revolta? Como você vê e como lida com figuras de autoridade (pais, superiores no trabalho, professores, Governo...)?
- Como era Tânatos, a morte? Belo tal como Sísifo disse? Horrendo? Uma massa sem face e sem forma?  Implacável ou fácil de ser tapeado? Como seria o pior problema (ou a pior consequência) que você poderia enfrentar?
- Tal como Sísifo que segue dia após dia empurrando a pedra montanha a cima, nunca obtendo um bom resultado, que tipo de situação se repete em sua vida? Permita-se aqui uma reflexão mais cuidadosa. Como eu disse antes, muitas vezes essas situações estão tão camufladas e enraizadas, que não a notamos.
Apenas cada um pode libertar a si mesmo.
Outros podem ajudar, mas  cada um  só pode viver a própria história.

Como quebrar um padrão de repetições que parecem impedir que caminhemos em direção a algo melhor? Talvez seja necessário buscar a ajuda de um profissional de psicologia. Mas um bom início é ter consciência do que exatamente ocorre: em que cenários e situações acontecem as repetições? Procure ter clareza do que acontece. Até que ponto a coisa flui como o vento e a partir de que momento (ou com quais tipos de pessoa/situação) a repetição faz todo o trabalho rolar montanha abaixo? Tendo clareza do que exatamente acontece, você estará atento para a situação, e então ela deixa de ser apenas inconsciente. Assim, quando a situação que se repete começar a se desenrolar, você tem a escolha de fazer uma breve pausa e respirar bem fundo. Olhe a sua volta e busque caminhos alternativos. Imagine outras formas como a situação poderia se desenrolar, recursos que poderiam ser usados, trilhas alternativas. E então, consciente do que se passa, escolha com sabedoria o seu caminho. Apenas da reflexão, da escolha e das atitudes pode surgir a autonomia. E só quando há autonomia há mudança.

10 comentários:

  1. Bia, após o seu artigo percebi como até pequenos estresses do dia-a-dia se repetem na minha vida. Nunca tinha pensado em ter consciência sobre essas situações porque simplesmente achava que fossem normais, mesmo me deixando com raiva.

    Tentei colocar o se texto em prática, e só de perceber quando acontecem essas repetições já faz muita diferença no modo de enfrentá-las e de não perder o resto do dia por conta de um aborrecimento.

    Não canso de dizer que adoro ler o que você escreve =)

    Rogéria Ribeiro

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    1. Muito obrigada, Rogéria! Fiquei feliz com seu comentário e também por tentar colocar as ideias do artigo em prática. Ficamos mesmo surpresas quando notamos o quanto certas situações chatinhas podem se repetir na vida da gente. Principalmente os pequenos estresses... sim, porque os maiores, os traumas mesmo, logo chamam a nossa atenção e aí vamos tratá-los, mas as pequenas coisas quase sempre passam despercebidas. E aí começamos a acreditar que não damos sorte, que nada nunca dá certo com a gente, que não somos bons o bastante... e isso não é verdade, estamos apenas seguindo um padrão de comportamento que não é funcional na nossa vida! Ah, e se tivemos o poder de criar um padrão estressante e que não dá certo, também temos o poder de alterá-lo e de criar um padrão mais harmonioso e mais de acordo com nossos planos e ideais!
      Obrigada outra vez!
      abraços

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  2. Olá, Bia, tudo bem? Vim parar no seu blog através de uma busca no Google. Vou expor o que me trouxe aqui, quem sabe vc tem alguma palavra para me auxiliar? Sobre situações que se repetem em minha vida, ao longo do tempo fui me dando conta de várias - algumas trabalhadas, outras, nem tanto. O que me aflige atualmente é a prova prática do Detran. Eu insisto mentalmente que há alguma razão para que algumas pessoas passem logo de cara e outras se arrastem por muito tempo sem obter êxito. Nunca me imaginei como essa segunda pessoa, na verdade, entrei na autoescola convicta de que sairia dali em pouco tempo com a carteira. Só que ontem reprovei pela segunda vez e quero investigar em mim qual a causa desse fracasso. Sei que há pessoas menos habilidosas que eu ou tanto quanto que saem do teste com a carta, então, o que em mim pode estar provocando o insucesso? Claro, sei que sem nenhum detalhe vc não pode analisar meu caso, mas só gostaria que me dissesse se faz sentido esse meu pensamento, de que deve haver algo mais profundo por trás do fracasso em uma simples prova de direção? A tendência é pensar que não somos capazes, mas sei que não sou burra, pois passei em primeiro lugar em uma seleção de mestrado concorrida, aprendi inglês sozinha, sempre fui observadora e até meio nerd. Qual a diferença aqui? Será que acreditei e interiorizei em todos que me disseram que era difícil?

    Parabéns pelo blog e um abraço! Obrigada de qualquer forma.

    Camila

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    1. Oi Camila, que legal que gostou do blog, seja bem vinda!
      Prova do DETRAN... fundamental estar segura e manter a calma. Tenha a consciência de que esses fracassos não mudam quem vc é. Procure relaxar antes da prova, para não "meter os pés pelas mãos".
      Os motivos da falha recorrente podem ser diversos, isso depende muito da sua estrutura de personalidade e história de vida. É interessante pensar também, que em situações mais complexas como uma prova, muitos fatores podem interferir e talvez a falha não esteja, necessariamente, no seu comportamento...
      Boa sorte!
      bjs

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  3. Hoje lendo essa matéria me dei conta que muita coisa se repete na minha vida, e infelizmente de uma maneira negativa. A mais recente é em relação a minha vida familiar. Fiquei casada por 25 anos com uma pessoa que no início era tudo de bom. Com o passar dos anos ele foi se transformando: começou a beber, me trair, passava muito tempo na internet em sites pornográficos, dormia exageradamente, até que num momento eu desisti do meu casamento, não sem antes tentar de tudo para que isso não acontecesse, mas pelo visto só eu queria salvá-lo. Depois de um período sem ninguém, conheci um rapaz 12 anos mais jovem que eu. Namoramos e logo fomos viver juntos, e hoje enfrento as mesmas situações com ele que vivi com meu ex-marido. Ele jura de pé junto que nunca me traiu, mas para mim só o fato de entrar em sites de relacionamentos e ver pornografia na internet, já me traiu. Até porque a traição sempre começa na cabeça, depois para acontecer ao vivo e a cores é um passo. As mesmas palavras que eu disse pro meu ex marido quando nosso casamento estava para acabar, repeti pro outro no calor da confusão. Cheguei a conclusão que tem algo muito errado comigo, porque viver 2x a mesma coisa com pessoas diferentes é o fim da picada! Gostaria de um parecer seu, como psicóloga, o que vc diria? um abraço e muito obrigada.

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    1. Olá, Beatriz. Penso que vc mesma é o foco dessa questão. A pergunta não é por que fizeram isso com vc, ou por que passou duas vezes por uma situação semelhante com pessoas diferentes... A questão é: por que vc se colocou nesse papel? A vida é como um filme, o que um personagem faz só se realiza porque outra pessoa faz o papel complementar. Por que entrar no papel de esposa traída? Por que buscar pessoas com esse perfil para um relacionamento? Sei que não é de propósito, é a última coisa que qualquer pessoa quer e espera de um relacionamento, mas de alguma forma foram atraídas pessoas nesse perfil. Observe também outros setores da vida. A traição também está presente (nas amizades, na família, em comentários pejorativos envolvendo vc, etc.)? Quais comportamentos seus dão a impressão para essas pessoas que vc poderia ser "passada para trás"? Acredito que o tema vale uma investigação mais profunda, para que vc possa quebrar esse ciclo e buscar relacionamentos mais sinceros. Eu indicaria buscar ajuda com um profissional. Abraço

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  4. Olá. Achei seu blog por acaso no Google e venho notado que algumas coisas se repetem constantemente na minha vida amorosa, ano passado tive que fazer escolhas entre um relacionamento que não estava mais me fazendo bem entre outro que tinha toda a assistência que precisava, optei pelo que me dava a assistência,mas meados desse ano encontrei com a pessoa do meu relacionamento antigo, descobri que ainda amo a pessoa e tudo voltou e me vejo na mesma situação de fazer escolhas,as mesmas pessoas envolvidas, queria saber qual orientação que você poderia me dar. Estou me sentindo perdida. Desde já obrigada e um abraço.

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    1. Olá! Acredito que o primeiro passo seja deixar bem claro para si mesma o que sente por cada uma dessas pessoas, e também o que você espera de um relacionamento. Antes de decidir e ser sincera com outras pessoas, é preciso ser sincera com vc mesma. Separe amor e paixão. Muitas pessoas acreditam que não amam, mas na realidade apenas superaram aquele momento da paixão desenfreada, é tempo de construir um amor mais tranquilo e sólido... Já outros têm como ideal viver apenas as paixões, sentimentos breves, porém intensos. Nenhum jeito é mais certo ou errado, o verdadeiro é aquele que te deixar realizada e feliz. Separe também, por outro lado, se ao estar com alguém que te supre em tudo, sua motivação são sentimentos sinceros e desejo de fazer uma vida juntos ou apenas o comodismo de ter alguém que sempre está lá para vc. Num primeiro momento, isso até pode ser atraente, mas conforme a vida avança e se torna complexa, dificilmente um relacionamento de conveniência (se for o caso) te dará a força emocional necessária. Abraço

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  5. Ola Bia, que legal seu texto! Caiu como uma luva para mim...
    mesmo sendo de anos atras eu o achei agora e estou feliz por ter encontrado. Minhas expectativas me deixam muitas xxx alinhada a pessoas "amigas", que logo me decepcionam por eu me doar tanto e não ser retribuída com palavras ou uma simples fatia de bolo! Tipo recompensa. A história se repete ao longo de anos desda época da escola, já notei a muito tempo, sou muito solicita e não vejo um mundo colaborativo como eu penso. Mas ao mesmo tempo não quero me tornar uma pessoa que eu não sou, dar nãos e viver na minha bolha. Mas estou sofrendo muito.

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  6. Oi, boa tarde.
    Hoje eu estava buscando informações a respeito de coisas recorrentes na minha vida, estou muito triste pois as coisas sempre emper e am de forma inesperada ou, reaparecem do nada e gostei muito do mito de Sísifo e das observações a respeito de como podem ser interpretados os pensamentos a respeito das imagens que foram geradas.
    O que sei é que por maus que me esforce e dedique sempre acontecem as mesmas coisas e eu volto a estaca zero, isso é muito desesperador.
    De qualquer forma agradeço seu artigo e parabenizo pela atitude.
    Vou buscar mais a respeito.
    Obrigada.

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