quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Todos eles estão errados!

"Eu não estou só quando me contemplo no espelho, estou possuído por uma alma alheia." - Mikhail Bakhtin (linguista e crítico literário russo, 1895-1975)

A nossa conversa desta semana, como alguns de vocês já sabem, é sobre autoestima. Antes de começar, quero pedir ao leitor que lembre de situações em que alguém tentou convencê-lo de que você era inadequado. De que você nuca seria ninguém e de que você não valia o ar que respirava. Agora respire fundo e ouça com atenção: todos eles estão errados!

Agora sim, vamos começar com o mito de Narciso, que fala sobre beleza e sobre gostar de si mesmo (notem como dizemos que alguém é narcisista quando a pessoa olha para si em demasia e acaba por atropelar todos os outros). Narciso era um jovem grego, filho da ninfa Leríope e do rio Cefiso. Ele tinha uma beleza muito acima da média, o que chamava a atenção de todos para o rapaz. Na mitologia (e na vida!) sempre que alguém está fora da média, se torna um alvo, mesmo quando a característica é "boa", como alguém muito inteligente, muito sociável ou muito bonito, como era o caso de Narciso. Quando o menino nasceu, sua mãe o levou ao Oráculo, como era costume entre os gregos, e lá lhe disseram que Narciso ficaria bem desde que nunca contemplasse a própria imagem. O tempo passou e conforme o bebê crescia, sua beleza só aumentava. Ele chamava a atenção de todos por onde quer que passasse, sempre era muito admirado. Entretanto, apesar de tantas e tantos se interessarem por ele, Narciso nunca se interessava por ninguém! 
"Narciso" (1594-1596), obra de Caravaggio.
Enquanto isso, no Olimpo, Zeus se preparava para ir encontrar-se com uma de suas (muitas) amantes, e pediu à ninfa Eco que fizesse companhia a sua esposa, Hera. Enfurecida pela situação, Hera amaldiçoa a ninfa, fazendo-a perder a voz. Dali em diante, Eco só poderia repetir o que outras pessoas falassem. Acontecia que Eco, como tantas outras jovens, era muito apaixonada por Narciso. Certo dia ela foi até ele, que a rejeitou. Desolada, Eco perdeu toda a alegria de viver, transformando-se em pedra (note que lugares com muitas pedras sempre fazem Eco!). Quando Narciso, sedento, foi a um lago para beber água, viu sua imagem e encantado, pergunta: "quem está aí?" Eco responde "aí!" Narciso, intrigado com a bela imagem, insiste: "quem é você?" E Eco apenas responde: "você!" Intrigado e muito apaixonado pela linda e misteriosa imagem que via, Narciso tentou beijá-la e caiu no lago, morrendo afogado. No lugar em que morreu, nasceu a flor que chamamos de Narciso.

Você já deve ter percebido como, quase sempre que se fala em autoestima, se fala sobre estética, sobre o corpo e ideais de beleza. Ou melhor, sobre como deveríamos amar e aceitar nosso corpo com as características que ele tem. Para o linguista e crítico literário russo Mikhail Bakhtin, o corpo é um conjunto de sensações, necessidades e desejos. Assim, nosso corpo não é um objeto, mas sim um instrumento que nos permite viver e interagir e, nessa interação, construir o mundo e a nós mesmos de maneira estética. A estética, para o autor, não é a beleza em si, mas os atos ativos e criativos que somos capazes de ter. Repare como o sujeito é frio consigo mesmo. Veja, por exemplo, uma mãe com seu bebê: ela se refere ao corpo do pequeno de maneira afetuosa, as mãozinhas, o pezinho... Sobre si mesmo, o sujeito não se refere com afeto: suas mãos (e não suas mãozinhas) são instrumentos que lhe permitem agir no mundo, seus pés (e não seus pezinhos) lhe permitem trilhar seus próprios caminhos. São instrumentos que me permitem agir na realidade e ser quem sou, não objetos do meu afeto! Para Bakhtin, apenas o outro pode ser objeto do nosso amor ou dos nossos afetos (bons e ruins). Lembre-se que ele era um linguista! Se EU sou o sujeito, o OBJETO precisa estar fora de mim! Assim, o mito de Narciso é a exceção que nos explica a regra: ao se apaixonar por si mesmo (ou por sua imagem?), Narciso encontra seu fim. Mesmo sobre os narcisistas de plantão, Bakhtin afirma "o egoísta age como se amasse a si mesmo". 

"Porque só o outro podemos abraçar, envolver de todos os lados, apalpar todos os seus limites: a frágil finitude, o acabamento do outro, sua existência aqui e agora são apreendidos por mim e parecem enformar-se com um abraço."  (Mikhail Bakhtin - Estética da criação verbal, p. 38)

Assim, começamos a formar nossa identidade quando ouvimos o discurso do outro, que nos conta que somos algo no mundo, separados do mundo e separados do outro que nos fala. O corpo precisa do reconhecimento do outro para saber quem é. Nesse sentido, apenas o discurso é real, pois é o discurso (em grego, o mythos) que permite que algum sentido nos preencha, dando forma ao nosso corpo e ao nosso ser. E é aí que passamos a pensar a autoestima não apenas como algo do corpo, mas como algo do ser enquanto um todo. Apenas ao todo podemos atribuir algum sentido (através do discurso/mythos). Bakhtin, enquanto crítico literário, nos mostra algumas formas de relação entre a personagem e o autor de uma obra literária, pensamento que, insisto, pode ir além da literatura e expandir-se para nossa vida diária. A primeira forma seria a personagem que domina o autor. Fora dessa personagem não há um ponto de sentido em que o autor possa se apoiar, a obra perde seu fio condutor. A segunda maneira é quando a personagem é obediente demais ao autor, fiel demais ao seu planejamento inicial, aquela personagem sem vida, que não desenvolve. Outra forma seria quando o autor domina a personagem, realizando-se através dela. Por fim, existe a personagem que é autora de si mesma, que surgiu com o planejamento do autor, mas que, no diálogo com ele ao longo da trama, constrói a si mesma. Penso que este último modelo de relação seria o ideal para a "vida real", pois é o que nos permite sermos ao mesmo tempo autores e heróis da nossa história.

Mas e a autoestima, como fica? Discordo desse termo, "autoestima". Porque, como disse Bakhtin, os únicos a quem podemos amar e estimar são aqueles que estão fora de nós, os outros. Entretanto, acho muito importante o respeito por si mesmo. Seja o respeito através de cuidados e hábitos saudáveis, seja o respeito de se permitir ser quem se é. Além disso, um ponto fundamental para uma vida saudável (e a autoestima é sim algo fundamental para se viver com saúde), é acreditar em si mesmo. Todos eles que um dia tentaram te fazer desistir estão errados. Porque seu corpo é o seu instrumento, só você pode caminhar com os seus pés ou dizer as palavras pelos seus lábios. Só você pode saber até onde gostaria de ir e para onde vai. Eles, os outros, só podem gostar ou desgostar. Mas esta é uma escolha deles. E nós não temos nada com isso.

4 comentários:

  1. Seus textos são sempre uma terapia que alivia. Felizmente arrumei tempo nesses meus dias em que nada faço e fiz algo útil, dedicando alguns minutos a essas ótimas linhas, que deram algum alento a uma mente triste e perdida.

    Admirador anônimo

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    1. Fico muito feliz de saber disso! Comentários assim incentivam a escrever mais! Espero que as coisas melhorem para você em breve. Abraço

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    2. Só tenho a concordar com nosso amigo Anônimo!

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