quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Entre igualdades e diferenças

"Tenho o direito de ser igual quando a diferença me inferioriza. Tenho o direito de ser diferente quando a igualdade me descaracteriza." - Boaventura de Sousa Santos (sociólogo português contemporâneo)

Muito se fala sobre respeitar as diferenças e sobre todos sermos iguais. Fica a questão: O que nos torna iguais e o que nos faz diferentes? Esta semana pensei um pouco sobre esta ideia tão dita e tão pouco sentida em tantos contextos diferentes.

Lembrei do livro "A conquista da América: a questão do outro", do filósofo e linguista búlgaro contemporâneo Tzvetan Todorov. Ele discute como os espanhóis puderam conquistar a América com base na visão que tinham do outro (no caso, os outros eram os povos indígenas americanos). Para o autor, a visão que temos de eu e do outro influenciam a forma como nos relacionaremos com ele. Se os conquistadores espanhóis tinham uma visão dos nativos como povos inferiores, e viam o "inferior" como algo a ser dominado ou destruído, isso marcou a forma como entraram em contato com eles, de forma violenta e cruel. Mas não vamos falar sobre história da América, mesmo porque o tema do blog não é este! Comecei contando sobre o livro de Todorov para fazer uma breve reflexão sobre alteridade. Alteridade significa reconhecer o outro como um "eu". Ou seja, o outro, por mais diferente que seja em aparência, no modo de agir, pensar acreditar ou sentir (ou o que for), também é um sujeito tal como nós.

Quando vemos as diferenças com respeito, percebemos que
já não somos mais os mesmos, pois abrimos nossa mente
para novas ideias.
Isso não é uma coisa que ficou para trás no tempo, nem que envolve diferenças culturais tão claras quanto as que existiam entre os europeus e os americanos. Ver o outro como um eu pode ser praticado todos os dias no nosso próprio bairro, escola, local de trabalho, nas ruas, no transporte público e até mesmo em casa. No meu ponto de vista, o primeiro passo para ver o outro de verdade, seja no tipo de relacionamento que for, é percebê-lo da forma como ele se mostra, e não como gostaríamos que ele fosse ou se mostrasse. Porque ele é como é, e na certa não é o nosso desejo de que ele fosse diferente que irá mudá-lo. Simplesmente porque, desde que a forma de existir do outro não prejudique a ele mesmo ou aos outros, ele tem todo o direito de ser como é. Dito isso, cabe pensar sobre como se dá o encontro com o outro. Como fazemos para perceber de fato o outro? Através das diferenças? Ou através da igualdade? Somos iguais enquanto seres humanos. Somos iguais enquanto sujeitos de direitos (ou deveríamos ser...). Mas não podemos ignorar nossas diferenças. Não ter preconceitos, ou melhor, não discriminar, é bem diferente de fechar os olhos para as diferenças. Afinal, são elas que tornam cada um de nós únicos e especiais.

Igualdade e diferença são assuntos interessantes de serem abordados pelo olhar da identidade. Imagine todos os grupos e "rótulos" que o ser humano cria para si e para os outros numa tentativa de dizer quem somos e quem não somos: gênero, faixa etária, nacionalidade e origem geográfica, etnias, orientação sexual, crença religiosa, preferência política, ter ou não determinada doença ou deficiência... e logo que começamos a pensar, as "categorias" ficam muito mais específicas, algumas delas banais e mesmo, para alguns, irrelevantes: time para o qual a pessoa torce, tipo de música que gosta, como prefere se vestir, tipos de atividades que gosta, lugares que frequenta, tipo de alimentação, padrões de beleza... Então nós entramos e olhamos para a pessoa. E, mesmo sem perceber, começamos a categorizar, supomos coisas sobre ela. Digamos uma mulher brasileira de origem oriental, portadora de miopia, alérgica a amendoim e que goste de artes. Criamos o estereótipo na nossa mente, não criamos? Você provavelmente imaginou a pessoa enquanto lia, talvez até tenha imaginado se gostaria de ser amigo dela. Lembra do que eu disse lá no comecinho, sobre o livro do Todorov? Nossa relação com o outro é influenciada pela forma como o percebemos. E dizer isso significa dizer também que as relações nunca são neutras. Se supomos algo sobre o outro e o tratamos de acordo com nossas próprias suposições (que podem estar bem longe da realidade!), o outro reagirá conforme nossos atos e palavras encontrarem ou não um eco nele (na forma como ele mesmo se percebe). E o outro agirá conforme as suposições que fez sobre nós. Aí está o preconceito, dentro da mente de cada um de nós, sempre que supomos algo sobre outra pessoa ou grupo. É normal que isso ocorra, pois são os nossos valores, a nossa visão da realidade, que nos guia na forma como agiremos no mundo. E como posso viver neste mundo sem supor nada? São essas suposições que nos orientam na vida e são (ou deveriam ser) reajustadas e repensadas o tempo todo conforme vivemos e convivemos. O que não pode acontecer é a discriminação, ou seja, a diferença não pode ser vista como inferioridade ou usada para excluir ou inferiorizar. Porque quando o assunto é o ser humano, característica nenhuma é superior ou inferior a outra. 

Entre igualdades e diferenças encontramos a possibilidade de dialogar com o outro, de conhecer o diferente e de construir a nós mesmos e a realidade. Mais do que isso, é no equilíbrio discreto das igualdades e das diferenças que descobrimos quem somos e quem podemos ser. Descobrimos a beleza de poder olhar para algum outro, completamente diferente de nós e, diante do espanto que o diferente causa, encontrar no mínimo uma igualdade entre eu e o outro: a de sermos ambos seres humanos.

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