terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mythos - Amaterasu: descobrir o próprio brilho

Como alguns já sabem, temos novidades no blog. Além da nossa nova página noFacebook (clique aqui para acessar), esta semana começamos a nova coluna Mythos, onde teremos histórias da mitologia de diferentes povos. Mitos são importantes porque contam muito sobre a condição humana e as diferentes situações pelas quais passamos em diversos setores da nossa vida: do profissional mais burocrático ao relacionamento amoroso ou com os filhos pequenos. Ouvir ou ler um mito, lenda ou conto folclórico é algo que transmite uma mensagem direta às partes mais profundas da nossa mente. Ou seja, o mito é um discurso que fala diretamente com as nossas emoções, medos e desejos mais intensos. Justamente por isso, nesta coluna teremos após o mito da vez uma reflexão mais breve do que costumamos ter nos artigos regulares, assim deixaremos a história "cozinhar" na mente... Ah, quase me esqueci de dizer! Sempre que ler mitos ou histórias folclóricas (como os contos de fadas), preste muita atenção aos seus sonhos. Você fala com o inconsciente lendo o mito, ele te responde com o sonho. Minha proposta com esta nova coluna é incentivar essa conversa com o lado mais profundo de nós mesmos. Começaremos com um mito de origem japonesa.


De 8 mil a 4 mil anos a.C., as sociedades se organizavam em torno da mulher. O ser humano havia aprendido a cultivar a terra e a criar animais, não precisava mais viver só da caça e coleta. Assim, a fertilidade (da terra, dos animais e da própria mulher) estava em evidência. O mundo se organizava não num tempo linear, mas em ciclos (lua, estações do ano, plantio e colheita, marés, ciclo menstrual...). Nessa época, as deusas eram o centro das mitologias dos povos. Apenas a partir de 4 mil antes de Cristo foi que o patriarcado passou a predominar, o foco passou a ser uma vida cada vez mais desprendida da natureza, focada em leis, mandamentos... Mas, mantendo o foco no matriarcado, havia deusas da terra (que persistiram mesmo no patriarcado) e deusas do sol. Com o patriarcado, o sol passou a ser visto como masculino. Hoje em dia, o Japão é o único povo que ainda honra o sol como feminino. Amaterasu, “magnífico céu brilhante”, é a maior deusa do xintoísmo, religião japonesa. Aliás, Amaterasu está presente até hoje na bandeira do Japão, a "terra do sol nascente".

Certo dia, Susano-o, deus da tempestade e da inexatidão, foi visitar sua irmã Amaterasu, deusa do sol, da ordem e da retidão. Ele costumava perturbá-la, mas disse que dessa vez não a trataria mal. Como ela estava desconfiada, ele se propôs a passar por um ritual: Susano-o daria à luz e, se tivesse boas intenções, todas as crianças nasceriam meninos. Para isso, ele pediu a deusa algumas de suas joias, as partiu e fez nascer delas diversos deuses, todos masculinos. Amaterasu estava quase acreditando no irmão. Mas ele ficou tão espantado consigo mesmo que começou a promover a desordem no mundo, destruindo tudo de bom que havia sido criado. A afronta final foi quando Susano-o lançou o cadáver de um cavalo esfolado no saguão celestial, assustando e causando a morte de uma das companheiras de Amaterasu. Isso foi demais. Ofendida, a deusa sol que oferecia sua luz ao mundo com generosidade, retirou-se e ficou reclusa numa gruta de pedra. Sem sol, o mundo caiu nas trevas. Nada poderia viver sem a presença da deusa sol e de sua luz radiante. Preocupados com a situação, 8 milhões de deusas e deuses imploraram a Amaterasu que ela retornasse, mas a deusa sol permanecia em sua gruta. Então, a deusa da alegria, Uzume, começou a dançar e cantar. A alegria dela contaminava os outros deuses, que logo entraram na festa! Espantada por estarem festejando algo em sua ausência, Amaterasu perguntou o que se passava. “Encontramos uma deusa melhor que o sol!”, respondeu uma das deusas. Curiosa, Amaterasu saiu da gruta, pois queria conhecer a deusa mais resplendorosa que o sol... Mas os outros deuses colocaram astutamente um espelho próximo à gruta. Amaterasu, que nunca antes havia visto sua imagem, ficou fascinada com seu brilho e beleza. Assim, a deusa sol retomou seu lugar como rainha dos céus e de toda a vida, com consciência de sua importância, brilho e poder, onde permanece até hoje.

Este mito fala sobre encontrar o próprio brilho e sobre confiar em si mesmo, apesar do que outras pessoas possam achar. Amaterasu abandonou seu reinado e retirou-se para a gruta apenas porque deixou-se levar pela insegurança. Acreditou que seus atos "bons" (talvez a palavra "criativos" se aplique melhor) seriam incapazes de manter a ordem no mundo (e isso vale para o nosso próprio mundo, externo e interno). Apenas quando ela olhou para si mesma como se fosse outra pessoa, isto é, quando ela se viu de fora com a ajuda de um espelho, foi que Amaterasu tomou consciência de seu potencial e passou a ocupar o lugar que era dela.

Vamos terminar com algumas questões para pensar:
1- Já te aconteceu algo que te fez acreditar que nada daria certo, independente dos seus esforços? Como você reagiu?
2- Alguém já tentou te convencer que você não conseguiria fazer algo, que não tinha capacidade, que era "menos brilhante" do que realmente é?
3- Olhe para si mesmo! Pode usar um espelho, uma foto... Olhe para o seu corpo, mas também olhe para suas qualidades internas. Você realmente se vê como é? Ou será que se convenceu de que não tem brilho?

4 comentários:

  1. Nossa! Eu ADORO mitos japoneses, acho lindas as histórias de Amaterasu MAS não sabia dessa da bandeira!!!
    Aliás, procure mais mitos japoneses, mesmo as histórias dos oni você vai ver quanta riqueza! Acho que vi todos os posts de mitos rsrsrs por favor, faça mais! Beijinhos!

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    1. Ah tem alguns leitores cobrando mais mitos japoneses. Logo teremos mais alguns! :) bjs

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  2. Ideal como de costume! Já conhecia o mito, mas não esperava essas questões para reflexão. Muito boas!

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    1. Muito obrigada!! Fico feliz de saber que gostou. Bjs

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