quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O novo só vem quando surge um novo Eu

"Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos." - Eduardo Galeano (jornalista e escritor uruguaio contemporâneo)

Daqui para frente tudo vai ser diferente. A partir de agora minha vida vai mudar. Sinto que tudo vai melhorar. Provavelmente você já ouviu pelo menos uma destas frases, ou alguma parecida. Quem sabe não foi você mesmo quem disse uma delas! Afinal, quem nunca? É claro que de tempos em tempos nossa vida passa por mudanças, transformações e renovações. Muitas vezes queremos isso. Outras vezes nem queremos tanto, mas sabemos que precisamos das mudanças para que nossa história avance no tempo.

Mas hoje vou falar daquelas situações da vida em que precisamos tanto da mudança e ela não acontece. Você sabe do que estou falando. Aqueles momentos em que olhamos para a nossa vida e não parece que ela é nossa. Quando a vida que vivemos parece ir na direção oposta da vida que sonhamos, é muito saudável desejar que boas mudanças aconteçam.

O que exatamente você gostaria que mudasse? Muita gente
sente dificuldade em perceber isso.
 Antes de tudo, me parece sensato identificar o momento pelo qual estamos passando. O primeiro caso é a  pessoa que sente com frequência sintomas como ansiedade, nervosismo, irritação maior do que o comum para o contratempo em questão, tristeza, medos, inseguranças, desânimo e até sintomas psicossomáticos (de alergias e resfriados constantes a problemas como hipertensão, infecção urinária, gastrite, problemas no ciclo menstrual e até mesmo doenças mais sérias). Essa pessoa está sendo avisada por seus sintomas de que algo não vai bem. Alguma coisa (ou várias coisas) precisam de mudanças em sua vida. E, se a pessoa já notou que esse tipo de sintoma ou sentimento surge em determinados momentos chave, fica bem mais fácil de perceber isso. Converse com seus sintomas (físicos ou emocionais). Vá para um lugar tranquilo, sente-se confortavelmente, respire fundo e pergunte ao sintoma por que ele está aqui. Procure observar em que tipo de situação ele aparece ou se intensifica. Pergunte o que o sintoma gostaria de te mostrar e até do que ele está te protegendo. E acredite, o sintoma responde mesmo! Conte ao sintoma como você se sente frente à sua vida ou à situação problemática (você pode inclusive perguntar ao sintoma quais seriam as situações problemáticas na sua vida que ele está tentando apontar, caso você não tenha clareza disso). Enfim, pode dizer ou perguntar o que quiser ao seu sintoma. E não se esqueça de agradecer no final da conversa, ele está aí para te ajudar! De um jeito torto e dolorido, mas está.

Outro caso, são as pessoas que não têm consciência de que a vida precisa de mudanças. Geralmente essa é a condição em que estamos antes de surgirem sintomas (principalmente os sintomas físicos). Algumas vezes essa pessoa até sente um certo desconforto, uma certa angústia que não sabe explicar o motivo. Talvez se lembre de sonhos atribulados demais ou causadores de desconforto, por exemplo, sonhos frequentes com quedas, ou quando se é perseguido por alguém no sonho cuja face nem sempre podemos ver, ou com perigos que a pessoa que sonha não consegue evitar. Se ela não perceber os recados, logo ela será avisada de um jeito mais convincente...

Quase todas as vezes que uma pessoa marca uma consulta com um psicólogo, a ideia é ter mudanças na vida. Daquelas mudanças bem caprichadas. Ah, e que seja bem rapidinho. E que não ocupe o tempo fora das sessões com leituras e perguntinhas dolorosas para pensar ou com diários de sonhos e toda essa coisa. Ah, e se não for pedir demais, que a psicóloga seja sempre uma fofa que diz tudo aquilo que gostaríamos de ouvir mas que ultimamente nem a nossa mãe diz! Então, a coisa não é bem por aí. Aliás, a coisa não é nada por aí. Acho super saudável a pessoa fazer psicoterapia e querer mudanças na vida. Mesmo quando não existe um sintoma, acho que todos merecem se conhecer melhor e viver com mais qualidade. Principalmente quem é estudante de psicologia, deve fazer terapia mesmo que não tenha sintoma algum, para se conhecer e lidar bem com seus conflitos antes de mexer no dos outros. Mas voltando ao tema do texto. É bem comum as pessoas procurarem a psicoterapia com aquela ideia de resolver todos os problemas da noite para o dia, quase que por um passe de mágica. A primeira coisa que precisa ficar clara para o paciente (e para nós todos) é que nossa vida só muda quando a gente muda. Cada um só pode agir na própria vida, por mais que outras pessoas possam apoiar e ajudar, a mudança cabe apenas a cada um. Só você é sujeito da sua vida, você é a personagem principal, os outros são apenas coadjuvantes. Podem incentivar, facilitar, apontar quando você sai do caminho que se propôs... mas o caminho é seu e você é o único a caminhar por ele.

O primeiro passo para essas grandes transformações acontecerem é perceber a necessidade da mudança. Agora vem uma parte bem mais agradável, sem dores ou sintomas: vamos descobrir qual é a vida sonhada! Não tenha medo, nesta parte, liberte-se de todas as amarras! Qual é o seu ideal de vida? E a sua forma de ser ideal? alguém que fala o que pensa sem receio? Alguém que se arrisca mais? Ou alguém que age com mais cautela e planejamento? Um ótimo profissional? Mudar de emprego ou até de ramo profissional? Ser alguém sociável, com muitos amigos e com uma vida social mais intensa? Quem sabe não é ser alguém com uma vida mais calma, com tempo para almoços tranquilos, para cuidar do jardim, praticar esportes e meditar? Crie o seu ideal. Ou melhor, tenha consciência de como é o seu ideal. Conheça o seu sonho. Se você quiser, pode escrever, desenhar ou até fazer colagens. É bom se expressar com esse tipo de recurso artístico, pois permitimos que as partes mais profundas de nós se expressem. Apenas palavras unidas numa fala racional não são o bastante para deixar as emoções mais profundas saírem.

Quem disse que o melhor caminho para você
é aquele que "todo mundo" segue?
Descubra novas rotas! Não achou? Crie a sua!
O próximo passo é tomar consciência de como é a nossa realidade. Sabemos que precisamos mudar e que a vida sonhada talvez esteja bem longe. Então, o que temos nas mãos? Como estamos e como está nossa vida? Sei que em muitos casos olhar para essa vida pode ser bem difícil. Mas vale o esforço. Onde estão os problemas? O que te desagrada? Porque você mantém na sua vida esses elementos? Neste ponto, é importante buscar as causas em si mesmo, não nos outros. Claro que algumas coisas não dependem tanto assim da nossa escolha, como as sequelas de um acidente ou doença, por exemplo... Mas, na maioria dos casos, fomos nós que em algum momento escolhemos essa vida real, essa que temos em mãos. Outra vez, se possível, enquanto pensar nas questões que sugeri, faça anotações. Elas vão te ajudar a trazer as coisas que você gostaria de mudar para a consciência.

O último passo é olhar para o buraco que ficou entre a vida sonhada e a vida real. Sim, sinto muito mas vai doer. E sim, nós vamos fazer isso assim mesmo. Qual o tamanho do buraco? Talvez você se surpreenda de ver que ele nem é tão grande e que, com boa vontade e disposição, várias coisas da vida sonhada podem ser trazidas para a vida real. Talvez as duas vidas sejam bem parecidas, e tudo o que precisamos é aumentar um pouquinho a nossa tolerância à frustração, planejar e agir, sem ter pena de si mesmo. Dos males, o menor! Mas em alguns casos, o buraco é fundo. Muito mais do que pensávamos. Tão fundo que a vida sonhada mal consegue ser vista, está enterrada lá embaixo em meio aos trapos dos sonhos antigos e da vida que poderia ter sido mas não foi. E agora? Em casos assim costumo dizer aos meus pacientes que, entre o real e o ideal, precisamos ter maturidade e força para encontrar o possível. Talvez a vida sonhada esteja muito longe da vida real... mas ainda dá para mudar. Qual seria a vida possível? Muito dificilmente a vida sonhada pode ser colocada em prática por completo, porque sonhos são feitos de ideais. Alguns pontos podem ser realizados, outros não. Por isso, ajuda muito quando olhamos a realidade buscando torná-la o mais parecida possível com o que sonhamos. Dentro do possível e do viável.

A partir daí, o básico já está feito. No mínimo, já sabemos o que não vai bem, para que lado queremos ir na vida e o que é possível e viável. Daqui para frente, é tempo de agir. O novo só vem quando surge um novo Eu. Ou melhor, quando nós fazemos surgir um novo Eu. É fácil se queixar de ter poucos amigos e sonhar com muitos deles. Mas, para trazer isso para a realidade, é preciso ação! No caso do exemplo, a pessoa que quer expandir o círculo de amizades pode se propor a conversar com uma nova pessoa no horário de almoço todos os dias. É preciso montar estratégias que tragam elementos da vida sonhada para o campo do possível. E então, concretizar. Parece difícil? E é mesmo. Mas a única pessoa que pode agir na sua vida é você. Se quer que a vida mude, suas atitudes precisam ser diferentes, sejam elas pensamentos, comportamentos, formas de olhar para a vida... Resultados diferentes só serão conquistados fazendo as coisas de forma diferente. Talvez nunca se alcance o sonho. Mas com certeza se alcança o possível, basta planejar e agir. Minha terapeuta costumava dizer: "mire na lua, se você errar, com certeza pegará uma estrela."

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