quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O outro: este desconhecido

"Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, esta se dispersa e se recolhe, vai e vem." - Heráclito de Éfeso (filósofo grego, 535 a.C. - 475 a.C.)

Esta semana vamos conversar um pouco sobre relacionamentos, tema sugerido pela leitora Maria Inês, de Lisboa, Portugal. Este é um tema interessante, porque viver com o outro é se relacionar, não importa de qual tipo de relação estamos falando, desde que haja pelo menos duas pessoas no mesmo contexto (ambiente, situação, tarefa...), os envolvidos terão, necessariamente, que arrumar uma forma de se relacionar. Podemos, então, começar dizendo que se relacionar é o mesmo que conviver. Podemos ampliar um pouco mais o conceito pensando que conviver é coexistir.

Entretanto, antes de falar sobre conviver ou coexistir, é fundamental falar sobre viver e também sobre existir. Se observarmos o desenvolvimento psíquico-emocional de uma criança, veremos que muito antes de formar uma ideia clara de que existem outros e que esses outros são todos diferentes em aparência, preferências, sonhos e histórias, é preciso formar a ideia de EU. Isso começa cedo, e pode começar a ser observado, por exemplo, naquela fase em que o bebê reconhece sua imagem no espelho. Continua quando a criança pequena deixa claro o que gosta ou o que não gosta, o que quer e o que não quer, geralmente de maneira bastante enfática. E um grande salto na percepção de si mesmo ocorre quando a criança deixa de se referir a si em terceira pessoa, pelo nome, e passa a usar a palavra "eu". Quero deixar claro que essa visão que temos de nós mesmos (identidade) nunca termina de se formar, é transformada durante nossa vida toda, enquanto nos relacionamos, ou seja, enquanto convivemos. É o contato com o outro que nos constrói e que constrói a realidade ao nosso redor, as situações que vivenciamos. Repare que existem relacionamentos fáceis e difíceis, agradáveis e desagradáveis, íntimos e formais, próximos e distantes, ou seja qual for a característica que você queira atribuir. O que não existe é ausência de relacionamentos. Porque existimos. E porque o outro existe. Porque coexistimos e temos que lidar com este fato de alguma forma. Não importa como a pessoa lide com isso, estará se relacionando. Escolher se fechar, escolher não olhar para o outro, também é uma forma de vivenciar os relacionamentos. 

Já falamos em outro texto sobre a importância de perceber o outro tal como ele se mostra e não da forma como queremos que ele seja (clique aqui para reler). Sem isso, o relacionamento será vazio, pautado em ilusões. O leitor atento perceberá que a forma como nos relacionamos com o outro é bem parecida com a forma como nos relacionamos com nós mesmos. Claro, com algumas influências da situação e do outro com quem estamos em relação. Mas quem é o outro?

Da mesma forma como nunca conheceremos totalmente a nós mesmos, como eu disse antes, também é impossível conhecer completamente o outro. Mesmo que você ame muito esse outro. Mesmo se esse outro seja seu filho ou um companheiro de muitos anos, ou que seja tão próximo e parecido quanto seu irmão gêmeo. Não dá para conhecê-lo totalmente, nunca. Porque, tal como nós, o outro também é um EU, que está sempre mudando e se transformando, se construindo e reconstruindo... 

"Os amantes" (1928) ,obra de Magritte. Fica a questão: quem é o outro?

Pensando em tudo o que dissemos até agora, dá para ter uma boa noção sobre o porquê dos relacionamentos serem tão difíceis, uns mais difíceis que outros, dependendo dos "eus" envolvidos, de suas histórias, de seus planos e das formas como estão acostumados a se relacionar. A convivência é aquele momento em que, além de dar conta de quem somos, precisamos dar conta de quem o outro é, precisamos apreender e interpretar o outro. E, como se não bastasse, almejamos ainda dar conta de algo mais, daquele campo nebuloso que se forma entre os dois "eus", aquele campo que nós psicólogos chamamos de intersubjetividade e que nada mais é que o espaço psíquico onde as relações acontecem. O que temos em comum e de diferente? Como eu tendo a me colocar para o outro e como o outro tende a se colocar para mim? Como eu reajo quando o outro me frustra? Como eu me sinto quando frustro o outro? E quando nos alegramos? E por aí vai. Isso parece complexo? Não se engane, é complexo sim!

Repare que, do mesmo jeito que a ideia que temos de nós mesmos passa por vários crivos (clique aqui para ver mais sobre isso), a ideia que temos de cada um dos outros com quem convivemos também passa por crivos semelhantes. Somos preconceituosos, no sentido de fazermos suposições sobre o outro o tempo inteiro. Antes mesmo de conhecer o outro já supomos alguma coisa, não necessariamente algo ruim como o termo "preconceito" dá a entender. Depois disso, ouvimos o outro, procuramos conhecê-lo, comprovando ou não nossas ideias iniciais. E o outro, enquanto isso, procurará nos perceber e se mostrar (ou não). E aí começa uma troca: de histórias e de sonhos, de ideias e de sentimentos. E é neste processo que a gente se constrói e se reinventa. E é justamente por essas transformações que nunca poderemos saber totalmente quem nós somos, e nem quem o outro é. 

O filósofo grego Heráclito disse que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque na segunda vez, nem nós nem o rio seremos os mesmos. Como, então, confiar no outro, se ele muda a cada instante? É claro que ninguém muda totalmente da noite para o dia... Mudanças profundas acontecem lentamente, como a panela que cozinha em fogo baixo mas constante, mudando o estado daquilo que se está preparando. As pessoas mudam, mas tendem a se manter firmes em seus valores pessoais. Mudar um valor bem enraizado é algo que leva tempo e, em boa parte dos casos, requer a ajuda de um psicólogo. Mas numa relação, mudanças acontecem, algumas vezes, mudanças profundas. Temos que lembrar que o próprio processo terapêutico é pautado na relação entre o paciente e o psicólogo, que segue certas regras de conduta específicas e que facilitam o processo da pessoa se conhecer, se compreender e se reconstruir. No meu ponto de vista, a relação terapêutica é uma das principais chaves para uma psicoterapia bem feita. Percebo que a confiança é encontrada através da empatia, isto é, no saber se colocar no lugar do outro a tal ponto que podemos, por alguns momentos, ver as coisas pelo ponto de vista da outra pessoa, com sua história, suas angústias e alegrias. E, ao mesmo tempo, a confiança está em permitir ao outro que veja o mundo pelo nosso ponto de vista, que compreenda e que sinta como nós. E, ao nos permitimos essa troca tão intensa, não há como não sair transformado pelo outro, e não há como não transformá-lo. Relacionar-se é conviver e coexistir, é viver e existir junto com o outro. Não como duas pedras colocadas na mesma bancada, mas como dois seres ativos, que sentem e pensam, e que, mesmo nunca se conhecendo totalmente (a si mesmos e ao outro), escolhem deixar para a pessoa um pouquinho de si. 

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