quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Os maiores tesouros estão na Sombra

"Se fiz descobertas valiosas, foi mais por ter paciência do que qualquer outro talento." - Isaac Newton (físico inglês considerado o pai da física moderna, 1643-1727)

Percebo que nem sempre as pessoas dão a devida importância à sombra. Neste texto, entenderemos por "sombra" aquele lado da nossa psique que está mais longe do self ou, completando a analogia, a sombra contém os aspectos que não estão na "luz" da consciência. Para o psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961), que foi quem cunhou este termo, na sombra estão todos os nossos conteúdos (afetos, habilidades, ideias, etc.) que, por algum motivo, não podem estar na consciência. Se quiser ler mais um texto sobre sombra, clique aqui.

De um jeito ou de outro, a sombra se manifesta. Em sonhos, sintomas, projeções (isto é, quando vemos no outro uma característica que, na verdade, é nossa). A sombra é aquele eu misterioso que se manifesta nos nossos sonhos. Aquele que nos causa mal estar, que pode até mesmo assustar ou desencadear certa angústia, aquele sentimento estranho que não sabemos dizer ao certo de onde vem ou por que está aqui. E se é assim, o leitor talvez esteja se perguntando qual o sentido do texto de hoje. Por que os maiores tesouros estão na sombra se acabei de dizer que lá ficam os conteúdos que não queremos na consciência?
A sombra pode ser assustadora à primeira vista.
Os "fantasmas" tão temidos não são outros senão a sombra.
Penso que para responder a essa questão, precisamos antes perguntar outra coisa: por que não queremos ver os conteúdos da sombra? Óbvio, alguém poderá dizer, porque causam mal estar! Mas existe um detalhe. Há uma fronteira muito tênue entre o "não querer" e o "não poder". Pode ser que eu diga que não quero olhar para minha sombra, para os meus conteúdos mais profundos e distantes da luz da minha consciência. Mas e se eu quisesse olhar para eles, será que eu realmente poderia? Afinal, na certa existe um bom motivo para tais conteúdos estarem na sombra, quem sabe até mesmo existem vários bons motivos... Vamos a eles!

O motivo mais óbvio é o mal estar que alguns destes conteúdos podem causar. E isso pode vir na forma de angústia ou tristeza cuja causa não sabemos qual é (porque os conteúdos são inconscientes, isto é, não temos consciência deles), pesadelos ou sonhos causadores de mal estar, e até mesmo sintomas físicos (indo de resfriados e alergias até problemas de saúde mais sérios). Outro bom motivo para a aparente falta de interesse pelos conteúdos sombrios, ou para a impossibilidade de olhar para eles, seria proteger-se da entropia. No campo da física, entropia é a medida de desorganização de um sistema. Se nenhuma força for aplicada, se atitude nenhuma for tomada, um sistema tende a se desorganizar. E, podemos acrescentar, um sistema desorganizado tende a entrar em colapso e se extinguir. O que quero dizer com isso é que o inconsciente só permite que conteúdos com os quais poderemos lidar cheguem à nossa consciência. Sim, mesmo assim muitos desses conteúdos ainda causam certo mal estar. Mesmo com esse bloqueio do inconsciente (a "censura", tão falada pelos psicanalistas), ainda pode ser difícil lidar com alguns dos conteúdos que chegam à luz da nossa consciência. Mas, ainda que difícil e doloroso, ainda que seja impactante, ainda podemos lidar com o conteúdo que chegou até a luz. Pode ser que ele nos estremeça mas, se conseguiu ultrapassar a barreira entre o inconsciente e o consciente, não nos destruirá. Precisamos estar prontos para olhar para o inconsciente e para a sombra.

A sombra não é necessariamente ruim,
é apenas desconhecida pela nossa consciência.
Observe os mitos que falam sobre heróis ou os contos de fadas. Tanto faz se você pensou em Hercules, em Jasão e os argonautas, nos cavaleiros da távola redonda, em João e Maria ou na menina Vasalisa e em sua bonequinha sábia. No início nenhum deles eram heróis ainda. Aliás, no início eles eram pessoas de quem a maioria duvidava da inteligência ou da capacidade de algum feito maior. Mas, sem exceção, todos eles eram pessoas que acreditavam em si mesmos e tinham um propósito! E todos eles escolheram viver a aventura ao invés de continuar na mesmice de seus dias... E é a escolha por viver a própria história, que faz com que eles se aventurem pelo inconsciente e se tornem heróis. Nos mitos e histórias a entrada no inconsciente é representada pelo embarque na aventura propriamente dita: entrar na floresta, abrir a porta misteriosa, navegar mares desconhecidos, lançar-se em águas profundas, entrar em cavernas escuras...

Quando nós escolhemos viver a aventura de explorar nosso próprio inconsciente é que as coisas acontecem e as sombras se revelam, e isso pode ser feito bem aqui, no nosso dia a dia, percebendo os simbolismos e as sincronicidades na nossa vida. O ato da escolha pela aventura, ou da escolha por viver a nossa história,  nos prepara para vivê-la. Mesmo que você não sinta assim (e, geralmente, a pessoa não sente), tendo feito a escolha de maneira sincera, você estará pronto.

O contato com a sombra sempre nos traz muitas surpresas. O que poucos sabem, é que muitas vezes a surpresa pode ser maravilhosa. Falamos do mal estar, das formas assustadoras e angustiantes que a sombra pode assumir quando se mostra para nós, em especial quando a sombra vem sem ser convidada. Agora cabe falar dos tesouros. Não apenas porque aprendemos com as dificuldades e crescemos conforme as superamos. Mas porque muitos tesouros podem estar lá, adormecidos, escondidinhos na sombra, bem no fundo... Talvez exista um grande músico dentro de você e você nem desconfie! Ou um artista, um contador de histórias, um grande empresário, um médico, um religioso... Muitas vezes qualidades e habilidades nossas, daquelas que nunca imaginamos que temos, ficam escondidas na sombra, simplesmente porque nunca antes tivemos a oportunidade de desenvolvê-la, seja por falta de tempo, de recursos, por falta da necessidade dessa característica em nossas vidas até então ou apenas porque vivemos num meio onde ela não seja valorizada ou encorajada a ser desenvolvida. Talvez a pessoa autoconfiante ou a mais relaxada ou a mais sociável ou a mais atenta e focada ou seja lá a característica que tanto perseguimos, esteja lá na sombra, apenas esperando que você a ilumine e a traga para a sua consciência.

Uma mesma característica ou habilidade que encontramos na sombra
pode ser boa ou ruim, dependendo de como escolhemos
olhar para ela e do papel que atribuímos a ela em nossa vida consciente.
Os conteúdos sombrios (no sentido de virem da nossa sombra) podem ser horríveis ou libertadores. Depende apenas da forma como escolhemos olhar para eles. Claro que, a princípio pode haver certo mal estar, certo estranhamento, isso é bastante comum. Mas, uma vez que o conteúdo chegue à consciência (por meio de sintomas, sonhos, insights, atos falhos, etc.), é preciso integrá-los à parte consciente da nossa psique. E fazemos isso através de muita reflexão e também de muita experimentação. Como é saber de algo que até então desconhecíamos? Como eu me saio e como me sinto quando uso minha habilidade ou minha característica recém descoberta? Como o outro reage? Mais do que isso, como me sinto e reajo frente à reação do outro? Não é uma tarefa fácil, muito menos algo que se faz da noite para o dia. Hércules passou muitos anos realizando seus doze trabalhos. Vasalisa ficou tanto tempo na floresta e na cabana da bruxa que todos pensavam que a menina havia sido morta por alguma fera selvagem. Sir Lancelot passou boa parte da vida buscando o graal. Essas coisas levam tempo e exigem de nós muito envolvimento e muita dedicação. Mas a recompensa, o tesouro que existe dentro de você (dentro de cada um de nós), vale a pena ser buscado. A aventura de ir ao encontro da própria sombra, a busca pelo tesouro que existe dentro de você, é o que faz com que nossa história se desenrole. E apenas quando a história se desenrola é que ela ganha algum sentido.

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