quinta-feira, 7 de março de 2013

Conhecer a própria história

"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente." - Soren Kierkegaard (filósofo dinamarquês, 1813-1855)

Nossa história não é lixo nem uma coisa qualquer, é um
dos nossos tesouros mais preciosos.
Sei que já comentei isso muitas outras vezes. Mas nunca antes dediquei um artigo a isso. Estou falando da importância de conhecer a própria história. Sim, a história de vida. Uma das primeiras atividades que proponho para boa parte dos meus pacientes é simples assim: "gostaria de conhecer a sua história." Acho muito interessante, antes da história em si, a forma como as pessoas fazem isso. Primeiro, como a atividade é encarada. Enquanto uns se entusiasmam, outros não entendem a razão do meu pedido. O que a minha história tem a ver com as minhas alergias, ou com a minha depressão, ou com a dependência do álcool, ou até com a dificuldade em me adaptar ao novo trabalho? Muito mais do que se pode imaginar. Depois, como a tarefa é desempenhada. Alguns dizem que não há nada o que contar e passam diversas sessões em silêncio. Outros contam em alguns poucos minutos a história de toda uma vida. Outros levam meses e meses nessa tarefa, me trazem fotos, correspondências, carteira de trabalho, título de eleitor, os dentes de leite do filho que faleceu ainda menino lá no interiorzão, e uma série de objetos pessoais carregados de preciosas lembranças.

Independente do que acontece e de como a história é contada, este sempre é um trabalho muito rico. Porque a nossa história conta quem somos, quem fomos e quem desejamos ser. E isso é o que de mais precioso temos. Hoje gostaria de convidar o leitor a fazer o mesmo que proponho aos meus pacientes. Conte a sua história. Conte para si mesmo. Se quiser, pode escrever ou usar uma câmera de video ou um gravador de voz. Pode usar o apoio de fotografias, desenhos, objetos... Pode construir uma linha do tempo ou usar os recursos com os quais você se sinta mais confortável. O mais importante de tudo é tomar consciência da própria história. Dê a si mesmo o tempo que precisar. Não tenha pressa, pois esta é uma atividade que só dá resultados quando não temos medo de nos envolvermos com ela.

Logo que começamos a contar a nossa história, percebemos que ela começa muito antes do nosso nascimento. Quais são nossas origens? De onde vieram meus pais? Meus avós? Para os leitores de outros países entenderem, o Brasil é um país muito rico culturalmente, pois nosso povo foi formado pela convivência de diversos povos (indígenas, africanos, europeus, asiáticos...), com línguas, costumes e ideais muito diferentes. E tivemos de conviver e formar um novo povo, com novos costumes e com a nossa própria cultura. Mas, independente do lugar onde vivemos, é interessante pensar sobre as origens. Quais são as origens geográficas da sua família? E as origens socioeconômicas? A origem étnica? A origem religiosa? Tudo isso marca a história da nossa família e, assim, marca a nossa história. Quando conhecemos essas origens, muito dos nossos sintomas, costumes e mesmo a nossa forma de pensar se explicam e se revelam como que por magia.

Fotos são recursos interessantes e que ajudam
muito a contar a própria história.
Agora passemos à história de vida propriamente dita. Como foi a gravidez da sua mãe? Foi planejada? Houve algum tipo de acidente ou problema de saúde? Como era a relação do casal e da família? Como foi o seu primeiro ano de vida? Como foi o início da sua infância? Como cuidavam de você? Quem cuidava? Como era o local onde você vivia? Mudou de casa? De cidade ou até de país? Quando entrou na escola? Como foi sua vida escolar? Como era a vida social, seu relacionamento com sua família, amigos, colegas, professores...? Como era sua personalidade? E a sua saúde? E a adolescência e juventude! Como foram seus primeiros trabalhos e a escolha profissional? As primeiras experiências sexuais? O casamento, se for o caso? Teve filhos? Quem são eles e qual o papel deles em sua vida? Perdeu pessoas importantes? Em que momento? Em algum momento da vida, sofreu algum tipo de acidente, violência ou assédio? Não tenha medo de se perguntar mais e mais. Eu sei que muitos dessas informações não são conhecidas por você. Algumas podem ser perguntadas aos pais, avós, tios, irmãos ou primos mais velhos... Outras estão para sempre perdidas na poeira dos tempos... Bom, a gente trabalha com o que tem! Não tenha receio em juntar essas informações. Mais do que isso, não estamos fazendo um catálogo, e sim uma história de vida! Da sua vida, para ser mais clara. Então, não tenha medo de se envolver... reviva emoções ou no mínimo lembre-se de como foi para você viver cada uma dessas coisas. Que sentido elas tiveram para você na época e que sentido têm hoje, quando a história já avançou um pouco mais?

A parte seguinte é o conto. Você reuniu material, informações, talvez até algumas fotos. Talvez tenha construído uma linha do tempo ou até uma árvore genealógica para visualizar melhor a história. Agora é hora de contá-la verbalmente. Pode ser falando ou escrevendo, como preferir. Mas é apenas no momento em que transformamos as informações e imagens num discurso coeso que a história ganha sentido. É muito comum a pessoa contar apenas histórias isoladas, fragmentos de sua vida. Isso é interessante num primeiro momento, mas para que haja um sentido, é preciso um esforço maior, é necessário unir os fragmentos numa única grande história: a história da sua vida. Por isso, como eu disse antes, envolva-se neste projeto e não tenha pressa. Em terapia, meus pacientes e eu gastamos diversas sessões trabalhando com a história de vida.

A vida não é feita apenas de momentos alegres. E é justamente nos momentos difíceis que as pessoas costumam ter vontade de desistir da história de vida. Nessas horas é preciso lembrar que a vida de todos nós tem momentos mais difíceis e mais tristes. Ah, doutora, mas essas partes eu prefiro esquecer! Eu também. Quem não prefere? O problema é que quando a gente "esquece" falta um pedaço da história. Porque mesmo que a gente ignore aquele acontecimento na hora de contar a história, lá no fundo nós sabemos que ele continua lá e que ainda nos incomoda. O que costumo propor é olhar para esses fatos complicados da vida com muita atenção. O que exatamente aconteceu no seu ponto de vista? E no ponto de vista de cada um dos demais envolvidos? E olhando por um ponto de vista neutro? Depois de repensar por todos esses pontos de vista, muitas injustiças se tornam "sortes" e até benefícios. Muitos conflitos se tornam apenas mais um fato da vida. O pai rígido demais, visto pelos olhos da pessoa já adulta, talvez se torne apenas um homem com dificuldades na vida tentando fazer o que ele pensa ser o melhor para os filhos. E alguns dos acontecimentos continuam a doer. Esquecer não é uma opção válida. O ideal é mudar o sentido que damos ao fato, mudar o olhar que temos sobre o que aconteceu. Talvez a ajuda de um psicólogo seja bem vinda neste momento. O que não podemos é deixar esse tipo de lacuna na história. Nenhum vazio vai encobrir a dor pelo que aconteceu. Porque o que está aí nunca deixa de ser contado, de ser dito. E o que é mal dito (maldito?) pode continuar machucando e deixando marcas muito tempo depois, como uma "maldição".

Depois das informações terem sido coletadas e da história ter sido contada, o trabalho continua. Procuramos as personagens que representamos no decorrer da nossa história, situações que se repetem, padrões de pensamento, emoção ou comportamento e por aí vai... Mas, de maneira geral, neste ponto da tarefa, com a história contada e ainda não completamente trabalhada, muitas mudanças já podem ser notadas. As mudanças acontecem porque no decorrer do processo, contando e recontando a nossa história, nos apropriamos dela e modificamos o sentido que ela tem para nós, tornando possível uma vida com maior autonomia. É preciso olhar para o passado para que nossos passos em direção ao futuro sejam dados com sabedoria.

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