quinta-feira, 21 de março de 2013

Gratidão

"Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida" - Sêneca (filósofo romano, 04 a.C. - 65 d.C.)

Por que falar sobre a gratidão num blog sobre autoconhecimento, psicologia, relacionamentos...? Ontem, organizando algumas coisas pessoais parei para pensar sobre o blog. E acho que a pergunta é bem outra: como que em 9 meses de blog nunca parei para conversar com o pessoal sobre gratidão?! Confesso uma coisa: até já pensei em falar sobre este tema em outras ocasiões, mas sempre tive um certo receio. Não. Receio não. Tive medo, mesmo! Medo que a conversa fuja dos temas sobre os quais estamos acostumados a conversar. Medo que a conversa fique estranha e, principalmente, medo que a coisa toda pareça meio religiosa... Apesar da minha família ser de origem católica, não tenho religião, além disso, o tema central do blog nem mesmo é este, portanto creio que não correremos este risco. Então, pensei: mas se tenho essa conversa sobre gratidão com meus pacientes, em algum momento do processo de cada um, por que não tê-la com o pessoal que frequenta o blog? Desabafo feito, coração aberto, podemos começar!

Agradecer está nas mãos de todos nós!
Gratidão vem do latim gratus, que significa "dar boas vindas". É interessante pensar sobre a origem das palavras, acredito que só assim sabemos de fato o que dizemos. Geralmente este tema surge na terapia primeiro de forma bem concreta: sou grata aos meus pais por terem me educado bem. Sou grata ao Fulano pela ajuda naquela hora difícil. Aos poucos, porém, costumo expandir um pouco a ideia. E a gratidão que podemos sentir sem ser por algo da vida prática? E a gratidão que sentimos pela "sorte" que temos, como por ter boa saúde, por ter evitado um acidente, por estar cercada de pessoas especiais? Mas gratidão a quem? Essa é uma pergunta que sempre aparece, e que sempre respondo da mesma forma: não me importa! Pode ser gratidão a si mesmo, à vida, a Deus, Deusa, Orixá, santo, ao universo... O importante aqui é o sentimento de gratidão, é com ele que trabalharemos, e não com o sujeito a quem se é grato.

Vamos fazer um exercício. Papel e lápis na mão, faça uma lista de tudo pelo que você é grato. Vale de tudo. Desde coisas mais concretas: ter uma casa para morar, ter o que comer e água limpa, bens materiais importantes para você... Coisas menos palpáveis: ter tido a oportunidade de estudar, ter começado a fazer caminhadas, ter tempo para estar com quem amamos... E também coisas bem abstratas: ser uma pessoa saudável, estar cercada de familiares e amigos queridos, saber ver o lado divertido das coisas... Não importa o que, cada um terá a sua lista com os pontos que fazem sentido para si. Nunca é demais repetir, não tem certo nem errado, apenas o jeito de ser de cada um. Quanto maior a sua lista, mais interessante será o trabalho a ser feito com ela, mas é importante que exista um sentimento de gratidão sincero sobre cada coisinha escrita na lista. Não se apresse, leve o tempo que quiser. É difícil? Pense no significado da palavra: a que eu dou as boas vindas? Das coisas que estão presentes na minha vida, quais delas são bem vindas para permanecer? Quando terminar, recorte cada tópico da sua lista e cole-os em outro lugar, rearranjando por categorias. As categorias são pessoais, cada pessoa cria as suas de acordo com sua escolha (o que reflete os valores de cada um de nós).

Coloque esta lista de lado e vá fazer alguma coisa. Dê um tempinho antes de continuar nosso exercício: vá dar uma volta no quarteirão, lavar a louça, assistir um pouco de TV, telefonar para aquele amigo que você não vê há tempos, qualquer coisa que não tenha nada a ver com a lista! Ah, Bia, mas vou esquecer o que escrevi! Minha ideia é exatamente essa!

Muito bem. Depois desse tempinho, pegue um novo papel e lápis. Vamos fazer outra lista, desta vez com coisas, situações ou o que for, que não estão em nossas vidas mas que seriam bem vindas, pelas quais seríamos gratos se viessem. Outra vez, vale de tudo e quanto mais tópicos, melhor. Como da outra vez, agrupe os tópicos em diferentes categorias, que não precisam ser as mesmas que você usou para a primeira lista.

Mais uma lista, desta vez sobre coisas pelas quais somos gratos por que não temos. Algumas vezes o "não" é uma sorte maior que um "sim". Você pode colocar o que quiser nesta lista desde que seja sincero consigo mesmo. Podemos ser gratos por não ter nenhum problema sério de saúde, por não ter repetido o ano naquela vez que nossas notas não estavam das melhores, por não ter conseguido fazer algo que queríamos muito, pois se tivéssemos conseguido, nossa vida na certa seria diferente, teria tomado outro caminho, sem as pessoas especiais que estão nela hoje. Tenho um conhecido que é grato por não ter passado no vestibular para engenharia quatro vezes seguidas, que sempre prestava por pressão do pai, pois só com o "não" a família aceitou sua verdadeira paixão, a fotografia. Em alguns casos, o "não" pode ser muito mais libertador do que imaginamos! Pronto? Faça como nas outras duas listas e agrupe os tópicos em diversas categorias. Esse exercício de classificar os tópicos é importante, pois nos ajuda a perceber em quais "áreas" da vida temos mais conflitos e quais são mais importantes para nós.

Último passo (sim, prometo que por hoje as listas acabaram!). Pegue as três listas e coloque-as lado a lado. Temos aqui: gratidão pelo que temos, pelo que gostaríamos de ter e pelo que não temos. Examine com atenção cada uma delas. Se tiver lápis ou canetas coloridas, pode usar neste momento, vai facilitar bastante. Eu gostaria que você percebesse como as três listas podem ter alguns elementos bem parecidos. Marque-os com lápis de cor ou com algum desenho simples, se você não tem lápis de cor. Por exemplo, nas minhas listas apareceu assim: ter saúde - continuar saudável quando eu chegar à idade dos meus avós - nunca ter tido nenhuma doença mais grave. Em seguida, dê um título ao conjunto. Para o meu, escolhi "boa saúde". Marquei com lápis verde esses três tópicos. Este foi um exemplo meio óbvio, mas dá para tentar com coisas mais complexas e pessoais sem problema algum.  Dá até para juntar coisas que parecem não ter relação, mas que para nós, colocá-las juntas faz sentido, como "ter onde morar", "abrir meu próprio negócio" e "nunca ter passado fome", conjunto que poderia se chamar "segurança", por exemplo. Ah, é comum sobrarem tópicos soltos em uma ou mais listas, não tem problema. Mas vale a pena ver quais são estes tópicos e qual o significado deles em nossas vidas, isso dirá muito sobre nós mesmos. Lembre-se de dar um título para cada conjunto! Os títulos mostram alguns dos seus valores pessoais.

Nossa mente inconsciente funciona sobretudo com base em sentimentos, emoções e sensações (físicas e mentais). O inconsciente exerce grande influência no nosso dia a dia, pois lá estão nossas memórias mais antigas, nossos desejos mais intensos, grande parte dos nossos conflitos e os nossos medos mais primitivos. Estes são elementos que nos dão as lentes pelas quais olhamos nossa realidade, os outros e a nós mesmos. A influência do inconsciente será favorável ou desfavorável dependendo de como o alimentamos. Alimentamos nosso inconsciente com emoções e também com palavras. Sentir e expressar gratidão deveria ser um exercício diário, pois é assim que dizemos a nós mesmos que tudo está bem e que situações boas são bem vindas em nossa vida. Isso nos ajudará a ver a realidade a nós mesmos de maneira mais favorável e harmoniosa. Quando mantemos nosso foco na gratidão, mandamos a nós mesmos a mensagem de que merecemos e nos permitimos ser amados, felizes e viver uma vida que faça sentido para nós. 

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