terça-feira, 19 de março de 2013

Mythos - Kali: o fluir da vida

Hoje vamos pensar um pouco sobre o fluir da vida, e para isso trabalharemos com o mito de Kali. Esta é a principal deusa do hinduísmo, muito cultuada na Índia. Kali é uma figura bastante complexa, pois tem diversos aspectos e muitas formas de ser representada. Uma delas é a face "benfeitora", que permite que as mulheres, os animais e mesmo a terra sejam férteis, fazendo com que a vida cresça e se mantenha. Outra, é a face "terrível", sob a qual muitas vezes Kali é chamada "mãe negra senhora da morte". Negra porque ao representar a dança entre vida e morte, Kali também representa o tempo que, na mitologia indiana, não tem cor, é escuro (ou obscuro?). De todo modo, note que usei as palavras "benfeitora" e "terrível" entre aspas, pois para os hindus, estes conceitos são relativos, sem a divisão rígida que temos aqui no ocidente, tanto é que são representados pela mesma deusa.

Kali pisoteando Shiva. Pintura do artista
indianoRaja Ravi Varma (1848-1906)
Kali chega a ser tão importante que em muitas imagens ela é mostrada pisoteando Shiva, seu marido e um dos maiores deuses do hinduísmo. Geralmente ela é representada com a pele azulada, usando um colar de cabeças/crânios humanos e um cinto de  braços humanos. Além disso, esta deusa é mostrada portando espadas, adagas, lanças e uma série de armas, não enquanto símbolos de guerra, mas sim de proteção. Outra característica de Kali é sua expressão facial: os olhos arregalados e a língua, de um vermelho muito vivo, projetada para fora da boca. Esta é a postura do leão no yôga  associada à emanação do próprio poder e que demonstra o quão poderosa esta deusa é para seus adeptos. Sua risada é tão terrível que é capaz de destruir um exército de demônios e todas as suas armas. Note como, apesar de seus feitos terríveis, Kali é uma deusa protetora, tornando o mundo um lugar seguro.

Um dos mitos sobre Kali conta que certa vez ela desafiou Shiva, senhor da dança e deus representante da energia masculina, para uma competição de dança. Eles dançaram e dançaram e, com o passar do tempo, a dança se tornou cada vez mais rápida e competitiva, com acrobacias incríveis. A dança era tão veloz que os movimentos ameaçavam destruir o mundo e, de acordo com o mito, um dia isso acontecerá, pois a dança continua até os dias de hoje!

Kali também está associada à liberdade, é indomável como o tempo. Isso acontece porque quem não tem consciência da morte e da destruição, também não tem consciência da vida. Inserir nossa vida na dimensão do tempo, faz com que ela ganhe um sentido: para o futuro, pois o tempo apenas avança, de forma contínua e frenética como os passos de dança de Kali. Dizem os hindus que quem não ama Kali nunca é livre de verdade. Porque a liberdade também é saber lidar com o fato de que o tempo flui, a vida flui, e isso quer dizer que um dia nossa vida encontrará um fim. Um limite na nossa liberdade. Assim, o sentido da vida é a morte, pois é para lá que todos nós caminhamos, queiramos ou não. O tempo destrói tudo. Porém, sem o tempo, não há vida, nada acontece... Kali representa a liberdade quando nos faz compreender que a morte é necessária à vida. Sem a morte, a vida não teria sentido, apenas o tempo presente não nos daria uma dimensão, mas um único ponto que nos aprisiona. Sem história e sem esperanças, tudo seria apenas um agora aleatório e sem sentido.  A morte, ou os finais de forma geral, permitem que algo novo surja, cresça e dê frutos a partir do antigo. Talvez a liberdade seja o próprio fluir da vida.

Questões para reflexão:
1- Pense nos problemas que você enfrenta hoje e imagine qual a importância deles diante da fluidez do tempo. Que importância terão no ano que vem? E daqui a 20 anos? E daqui a 3 mil anos?
2- Como você dança? Ah, não estou falando de passos de balé ou de samba! O ritmo de Kali tornou-se cada vez mais agitado e acrobático ao longo de sua dança. Nossas rotinas e modos de vida também são uma "dança", são movimentos harmoniosos que temos ao longo dos dias. Como é o seu ritmo em sua dança pela vida? Este ritmo te agrada? Por que?
3- Tal como Kali, o que em sua vida você gostaria de destruir ou eliminar?
4- Imagine que 5 mil anos se passaram de repente. Arqueólogos encontram seu bairro e decidem explorar sua casa. Eles a encontram tal como ela está agora. O que eles poderiam dizer sobre a forma como você vive? O que pareceria ser mais importante para você e/ou para o seu estilo de vida?

5 comentários:

  1. Impressionante este texto sobre a Kali. E que cara de mau ela está nesta gravura.

    Já os problemas realmente precisam ser analisados. Hoje graves amanhã poderão não ter significado.

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    1. Que legal que gostou, Claudio, fico feliz. Escolhi esta figura de Kali justamente pela cara dela, que mostra a postura de yôga que lhe é característica, ligada ao poder. Ela precisa sentir o poder vir de dentro dela mesma, tanto para criar, quanto para destruir o que chega ao fim, ou mesmo para lutar contra o mal e proteger os seres humanos. E acredito que a gente também precise sentir nosso próprio poder de agir vindo de dentro de nós. Ah, outro motivo para a escolha da imagem foi por ter sido feita por um artista indiano! Achei que seria interessante ter alguém da própria cultura retratando Kali.

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  2. Muito legal Bia, eu tenho que admitir que gosto destas coisas de Deuses,mitologia,figuras imaginárias,em fim, gostei da sua escrita, interessante :).

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  3. gostei muito! eu sinceramente adoro assuntos sobre mitologia,deuses,figuras imagináveis e etc...
    continue assim Bia, gostei mesmo da sua escrita, rezo para que você tenha sucesso escrevendo ou não rsrs.

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    1. Muito obrigada, Kevin! Os mitos saem todas as terças feiras. Você é bem vindo para vir aqui ler e trocar idéias sempre que quiser. Abraço.

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