terça-feira, 12 de março de 2013

Mythos - Morrighan: confiar no futuro

Atendendo ao pedido de alguns leitores, hoje falaremos um pouco de mitologia celta. Os celtas foram um povo que vivia em tribos, ocupando boa parte do território europeu, em especial nos territórios hoje pertencentes a Portugal, Espanha, Irlanda, Grã-Bretanha, Partes da França e da Itália, entre outros países. A maior parte do que se sabe sobre este povo vem de escritos gregos e romanos, pois os druidas, que eram os sacerdotes celtas, não escreviam sobre suas crenças e práticas já que acreditavam que assim poderiam profaná-las.

Mas vamos ao mito! Hoje vamos falar sobre uma deusa chamada Morrighan. Algumas das variantes de seu nome são Morrígan (que significa "rainha fantasma") e Mórrígan (que significa "a grande rainha"). Morrighan era a deusa celta das guerras e batalhas, regendo também os partos e a morte nos campos de batalhas. Sua aparência é incerta. Em algumas ocasiões, aparece como uma linda jovem, em outras, como uma mulher muito idosa e/ou feia. Ou, ainda, como uma mulher de cabelos negros envolta num manto também negro, que caminhava pelos campos no fim das batalhas, recolhendo as almas dos guerreiros mortos. Aos guerreiros celtas, Morrighan podia mostrar-se na forma de uma gralha ou corvo, pássaros comedores de carniça que sobrevoavam os campos de batalha, bicando os corpos. Mas, na maioria das vezes, ela se mostra como uma mulher de idade incerta, com cabelos negros e pele muito branca, que tem a habilidade de transformar sua própria aparência de acordo com a necessidade. Outra habilidade que tinha era a de criar névoa no campo de batalha, dificultando as coisas para os inimigos. Seu grito de guerra era tão alto e forte quanto o de 10 mil guerreiros. Parece ser uma personagem bastante ambígua, essa tal deusa dos partos e da guerra. E é mesmo. Mas algo em comum nessas várias versões é a questão da entrega. Uma mulher prestes a dar à luz, assim como um guerreiro indo para uma batalha têm muito em comum. Ambos sabem que a experiência que se aproxima mudará suas vidas completamente. E nenhum deles tem certeza se sairá vivo da experiência. Assim como em boa parte das situações da nossa vida, só passaremos por elas se nos entregarmos e confiarmos no futuro. Se seu nome significa "grande rainha", Morrighan também  inspirava os celtas a confiarem no futuro, pois a rainha era aquela que cuidava da vida e da terra, permitindo o desenvolvimento, era tida como sábia. Talvez daí Morrighan ser pensada como regente dos partos. 

Gregos e romanos tinham os celtas como um povo pouco usual, pois festejavam as batalhas e as mortes com entusiasmo e alegria. Também gostavam muito de músicas, porém todas elas eram tristes. É claro que a visão de outros povos sempre é preconceituosa, pois eles sempre compreendem tradições e costumes pelo próprio ponto de vista, portanto, de maneira diferente de um nativo. Assim, os gregos erraram ao dizer que Morrighan era uma deusa semelhante às Fúrias (trio de entidades gregas ligadas à vingança e ao sentimento de remorso e "consciência pesada"). Nenhum deus, entidade ou ser mitológico é igual a outro, porque coisas parecidas podem ter significados muito diferentes para povos diferentes. Assim, quando um guerreiro celta ou uma mulher grávida invocava Morrighan, o intuito não era o de que ela poupasse suas vidas, como muitas vezes se diz, mas sim pedir que, caso viessem a falecer, Morrighan lhes recebesse em seus braços e conduzisse bem as suas almas, como uma mãe amorosa que abraça o filho pequeno após uma queda. Para os celtas, a morte não era o fim, a vida após a morte era apenas a continuação da nossa história e a preparação para um novo ciclo de vida. Assim, a "terrível" Morrighan, para os povos celtas, não era necessariamente uma figura amedrontadora, e sim aquela que receberia e orientaria essas almas ao invés de deixá-las desamparadas. Mas, para isso, era preciso que houvesse a entrega. Quando não nos entregamos a nós mesmos, nossa vida não flui. Fica aquele vai não vai, aquela sensação estranha de que falta algo. Talvez comprometimento.

Questões para reflexão:
1- Em que situações da vida você se entrega e se envolve? Em quais você sente que resiste a se envolver?
2- Morrighan tem a habilidade de se transformar de acordo com a situação. E você, que "formas" (de ser) assume em cada tipo de situação da sua vida? Há alguma "forma" que você não gosta de assumir? E alguma que você gostaria de assumir mas tem dificuldade?
3- Quando um celta se entregava à Morrighan, assumia o que estava prestes a fazer, com as mudanças e os riscos que viriam, e isso provavelmente diminuía-lhes a ansiedade típica da situação. Sentimos ansiedade, aquele nervosismo, sempre que vivenciamos algo cujos riscos fogem ao nosso controle. Quais situações desse tipo existem em sua vida?
4- O que você entende por "confiar no futuro"? Como você lida com a forma de pensar segundo a qual independente do desfecho, tudo acontece da forma mais harmoniosa, mesmo não sendo a que gostaríamos? Como você vivencia a entrega?

2 comentários:

  1. muito bom o texto .. me ajudou muito a conhecer essa Deusa espetacular.

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    1. Obrigada, Déborah, que legal que gostou! Entre as deusas celtas essa é uma das que gosto muito. beijos

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