terça-feira, 26 de março de 2013

Mythos - O Labirinto - Parte 1: Dédalo

Antes de começar, gostaria de avisar que o mito com o qual vamos trabalhar será dividido em duas etapas, uma hoje e a outra semana que vem, pois além de ser longo, cada uma das partes trabalhará aspectos diferentes de nós mesmos. 

Temos aqui um mito grego. Acho que muitos aqui já devem ter ouvido falar do labirinto do minotauro. É um mito bastante explorado pela mídia em filmes e livros. Mas poucos conhecem Dédalo, o homem que projetou o labirinto. É sobre a história dele que conversaremos hoje, com algumas pinceladas de outras personagens.

Dédalo era um grande arquiteto ateniense. Ele realizava grandes obras e era muito reconhecido pelo seu dom. Um dos sobrinhos de Dédalo também era seu aprendiz. O rapaz era bastante prestativo, esforçado e inteligente, aprendia muito depressa e Dédalo sabia que logo o sobrinho se tornaria um arquiteto muito melhor do que ele jamais seria. Então, num ímpeto de insegurança e raiva, Dédalo matou o sobrinho. Julgado pelo crime, Dédalo foi expulso de Atenas, exilando-se em Creta, onde continuou sendo um grande arquiteto.

Na ocasião, Posídon, deus grego dos mares, queria ser o deus da ilha de Creta, ao mesmo tempo em que, na terra, três irmãos disputavam o trono do local. Um dos irmãos, chamado Minos, percebendo a situação, fez um acordo com Posídon: o deus lhe emprestaria um touro sagrado, provando aos irmãos que ele, por ter uma aliança divina, seria mais indicado para ser rei e, em troca do favor, Minos faria de Posídon o deus de Creta. O acordo foi aceito e logo os irmãos e toda a população de Creta viram, com imenso espanto, o touro sagrado de Posídon sair dos mares. No mesmo instante, Minos tornou-se rei de Creta. O problema começou quando Minos não cumpriu sua parte do acordo, nem fez de Posídon o deus de Creta e nem devolveu o touro. Na mitologia, tudo é muito simbólico. Portanto se Posídon era o deus dos mares, podemos compreender que sua personalidade era agitada como  as ondas e, quando nervoso, Posídon podia ser tão perigoso quanto uma tempestade em alto mar. O deus, furioso e ávido por se vingar de Minos, fez com que a esposa dele se apaixonasse perdidamente pelo touro sagrado. Desesperada, a rainha buscou a ajuda de Dédalo e contou-lhe o que se passava em seu coração. Sem perder tempo, o arquiteto, que também era um habilidoso inventor, construiu uma magnífica vaca de madeira. Assim, a esposa de Minos e rainha de Creta entrou dentro da vaca de madeira e pode, finalmente, relacionar-se com o touro.

Para o deleite de Posídon, após a união com o touro sagrado, a rainha engravidou. Quando a criança nasceu, para a imensa surpresa do rei Minos, o bebê tinha corpo de gente e cabeça de touro! Os gregos acreditavam que a inteligência morava na cabeça. Por isso, sempre que na mitologia grega nos deparamos com seres com cabeça animal, monstruosa ou muito menor que o usual, podemos compreender que se trata de um ser com inteligência reduzida, que se deixa guiar pelos impulsos mais básicos. E assim era o Minotauro (nome que significa "touro de Minos"). O bebê cresceu depressa e se tornou um monstro impossível de ser contido, que corria pela ilha destruindo o quer que encontrasse pela frente e assustando e  devorando os habitantes. Enquanto suposto pai (pois o rei não desconfiou até então da traição da esposa), Minos não poderia matar o Minotauro. Porém, enquanto rei, ele precisava proteger o seu povo e conter o monstro. Então, Minos recorreu ao grande arquiteto Dédalo, pedindo que construísse um local onde o Minotauro pudesse viver, com muito espaço para ele correr e que, ao mesmo tempo, deixasse a população de Creta segura. Dédalo, então, pensou muito e criou um labirinto, uma grande área cheia de corredores tortuosos que levavam a outros corredores igualmente tortuosos e tão longos que pareciam nunca ter fim.

O Minotauro foi trancado no labirinto e, uma vez por ano, Minos mandava que raptassem jovens atenienses para, com eles, alimentar o Minotauro (atenienses, porque Atenas tinha uma dívida com Creta). O labirinto tinha guardas nas portas para que quem entrasse jamais saísse. Quando a pessoa chegava ao centro do labirinto, o Minotauro a devorava. Teseu foi um desses jovens. Cansado de ver outros jovens atenienses morrendo, ele decidiu oferecer-se como vítima, decidido a matar o minotauro. Porem, quando o jovem Teseu desembarcou em Creta, a princesa Ariadne apaixonou-se por ele e alertou-o dos perigos. Sabendo dos planos de Teseu e também revoltada com a morte dos jovens, ela pediu ajuda a Dédalo e o arquiteto deu à princesa um fio especial, que se alongava e se entortava tanto quanto fosse necessário, que mostraria o caminho de volta. Teseu e Ariadne pretendiam se casar e voltar para Atenas, onde o pai de Teseu era rei. Assim foi feito. Teseu entrou no labirinto, matou o Minotauro e fugiu com Ariadne. Minos, é claro, ficou possesso de raiva! Soube, então, que o Minotauro era, na verdade, filho do touro sagrado e que Dédalo não apenas havia ajudado a rainha a trai-lo como também ajudou o ateniense Teseu a derrotar o Minotauro e fugir com Ariadne. Minos condenou Dédalo e o filho dele a ficarem presos no labirinto para sempre.

Muitas vezes o labirinto é comparado a uma mandala, que algumas vezes, também apresenta aspectos de labirinto. Entre os gregos, os labirintos, tal como grutas e cavernas, eram vistos como um local sagrado de iniciação. Uma curiosidade: de acordo com o renomado estudioso de mitos Junito de Souza Brandão, historiadores afirmam haver realmente existido um grande labirinto subterrâneo em Creta, usado  para rituais. No labirinto, real ou simbólico, provas iniciáticas acontecem durante a caminhada do herói ou heroína até o seu centro, uma jornada rumo ao desconhecido. Lá acontecem as batalhas luz x sombra, consciente x inconsciente, depois das quais nunca mais seremos os mesmos.

Questões para refletir:
1- Assim como Dédalo matou o sobrinho porque o rapaz seria um arquiteto melhor do que ele, você teme ser superado (na vida profissional ou em outras áreas da vida)? Como você lida com essa competição?
2- Teseu foi considerado pelos atenienses como um herói, teve coragem e ousadia para entrar no labirinto, chegar a seu centro e enfrentar o monstro. Quais são os labirintos do seu dia a dia? Quais são os caminhos mais incertos que você já percorreu, daqueles que nem imaginamos o que encontraremos no centro? E quais são seus labirintos internos e quais os "monstros" que existem lá dentro, ou seja, quais são seus principais conflitos? Como você lida com eles, trancafiando-os lá no fundo como Minos ou enfrentando-os como Teseu?
3- Dédalo foi condenado a ficar preso no labirinto que ele mesmo havia projetado. Alguma vez você já foi ou se sentiu vítima de suas próprias obras ou ações?
4- Vamos projetar um labirinto! A ideia é desenhar um labirinto que leve a um centro. Basta fazer retas tortuosas, com cruzamentos. Se conseguir encher a folha, melhor. Depois, com alguns lápis de cor ou o material da sua preferência, pinte os caminhos. É bem interessante olhar o labirinto antes e depois. Quase sempre, quando proponho esta atividade, ouço comentários sobre como antes de pintar os caminhos pareciam mais confusos do que na verdade são. Essa atividade nos ajuda a clarear a visão dos caminhos da vida e/ou dos caminhos interiores, nos levando a olhar para eles com clareza, como o fio de Ariadne que guiou Teseu pelo labirinto do Minotauro.

2 comentários:

  1. a mitomania humana é resposta ao desconhecido ou uma resposta a outra necessidade psicologica (trauma) e/ou neurologica (organica)?

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    1. Mitomania é um desequilíbrio psíquico que leva a pessoa a mentir compulsivamente. As causas podem ser diversas, orgânicas ou psicológicas. Além disso, fatores como a idade do paciente são relevantes. Por isso cada caso deve ser examinado e avaliado com muita atenção. Pessoas nessa condição podem e devem procurar a ajuda de um psicólogo.
      Interessante reparar que o prefixo "mito" da palavra "mitomania" é usado no sentido de algo falso, seguindo a ideia de que a mitologia é apenas um punhado de contos fantasiosos quando, na realidade, são histórias que podem funcionar como um mapa na compreensão de angústias referentes ao desenvolvimento e situações típicas da vida de todos nós.

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