quinta-feira, 14 de março de 2013

Os papéis sociais tiram a nossa liberdade?

"O Homem é livre, mas encontra a lei na sua própria liberdade." - Simone de Beauvoir, filósofa existencialista, escritora e feminista francesa (1908 - 1986)

O assunto para o artigo desta semana surgiu há algumas semanas, de uma conversa com um amigo estudante de psicologia. A questão era se os papéis sociais tiram ou não a nossa liberdade de ser como quisermos. Antes de tudo, penso que cabe começar dizendo o que entendemos aqui por papel social. 

De acordo com a psicologia social, um papel é um conjunto de funções e comportamentos popularmente relacionados a determinada situação da vida. Por exemplo, o papel do professor é o de ensinar e orientar seus alunos, o dos pais é cuidar e zelar pelo bem estar dos filhos, o da vendedora é atender aos clientes, o da criança é brincar e se desenvolver, e por aí vai. É claro que nem tudo é tão simples assim. Conforme a sociedade se desenvolve, os papéis ficam mais e mais complexos, novas funções são agregadas e releituras são feitas a cada momento. O professor do exemplo já não tem mais (apenas) o papel de passar conhecimento, deve contribuir para formar cidadãos críticos e autônomos e para isso passou a se vale de métodos que vão muito além de aulas tradicionais, como excursões a campo, debates, encenações teatrais, entre tantos outros métodos possíveis e bem vindos nos nossos tempos.

Além disso, essas funções sociais se tornam burocráticas, isto é, tendem a ser organizadas formalmente em instituições. Certa vez quando eu era estudante de psicologia, pensei em montar um grupo de estudos e contei isso a alguns dos meus colegas. A maior parte deles me perguntava "mas quem iria nos orientar? qual professor?" Ora, eu respondia, mas será que não podemos apenas ter um grupo com a nossa cara, onde cada um possa aprender e ensinar com os colegas de maneira mais informal e descontraída e, em caso de dúvidas, claro, recorremos a algum professor? Ah, até podemos, mas não é melhor ter alguém que assine nossa ficha de horas complementares? Se você ficou curioso sobre como a coisa terminou, o grupo de estudos falhou miseravelmente. Porque no mundo de hoje não basta boa vontade e uma dose de crítica, as próprias pessoas que criticam a forma como as coisas são feitas são aquelas que mantém o sistema funcionando. E com isso os papéis vão se tornando mais complexos. Nesta minha experiência, não bastava um grupo de colegas dispostos a aprender e discutir o material estudado, era preciso um formulário que comprovasse a quem quer que tivesse interesse em saber que realmente nos reuníamos para ler e falar sobre isso, quem sabe devessem incluir no formulário se tomamos café ou chá! A burocratização dos papéis é isso, algo simples como amigos reunidos para estudos e discussões se torna algo complexo a ponto de ser quase inviável. O mundo de hoje nos encoraja a tornar tudo complexo e burocratizado, passando-nos a ideia de que assim tudo será mais fácil. Por mais absurda que a ideia soe.

Por fim, outro ponto que tornam os papéis complexos é o fato de variarem de época para época, de cultura para cultura e de pessoa para pessoa. O que se esperava de uma avó em 1900 é bem diferente do que se espera de uma avó de hoje. Alguns pontos continuam, outros são transformados. Ser mulher no Brasil é diferente de ser mulher na Europa ou no Oriente Médio. Ser psicóloga para mim é diferente de ser psicóloga para minha mãe, que se formou na mesma universidade que eu. Porque cada pessoa tem a sua forma pessoal, única, de perceber e interpretar os papéis sociais e, portanto, as diversas situações da vida.

Brincadeiras a parte, o mesmo papel social pode ser desempenhado de formas bem diferentes, e é aí que resgatamos a liberdade de ser quem somos, dando o nosso "toque" aos papéis e funções do dia a dia.
Conheço pessoas que criticam essa ideia de papeis sociais, dizem ser uma noção antiquada e que precisamos ter a liberdade de decidir como queremos agir. Eu pessoalmente discordo dessa forma de pensar. Acredito e encorajo muito a busca pela autonomia e pela liberdade de ser quem somos, este foi um dos maiores motivos que me levaram a começar este blog. Mas acredito também que uma coisa não impede a outra. Primeiro porque não existe essa ideia de liberdade completa e total. Queiramos ou não, estamos inseridos numa sociedade (a partir do momento em que há linguagem coerente e dotada de significados, há sociedade), vivemos e convivemos com muitas outras pessoas, várias delas bem diferentes de nós. Isso quer dizer, no mínimo, que precisamos ter respeito pelos modos de vida e pela visão de mundo das outras pessoas. Só por aí já dá para perceber que existem leis e regras a serem seguidas para que essa vida em sociedade seja pelo menos suportável. Mais do que isso, se fomos criados em sociedade (porque, afinal, ninguém se cria sozinho!), muitas dessas "regras" de conduta estão tão enraizadas em nós, que as seguimos sem perceber.

Na esfera individual, também não me parece que os papéis tirem a nossa liberdade de ser. Ao menos não completamente. Enquanto psicóloga, por exemplo, não posso me envolver de forma pessoal com meus pacientes. Não apenas porque é o que se espera de uma psicóloga, ou meramente para cercear minha liberdade de ser, mas porque existem instituições, os Conselhos de Psicologia, que nos dão um código de ética a ser seguido, o que assegura aos pacientes que nos procuram que o serviço prestado pelo psicólogo será realizado com ética e com qualidade. Mas, em meio às burocracias e regras que delimitam os papéis, restam espaços vazios. E, na minha opinião, a liberdade está em fazer bom uso desses espaços para dar a nossa cara ao papel social, transformando-o numa personagem. Por exemplo, espera-se se um professor basicamente que ele ensine. Mas como cada um faz isso? De forma Rígida e autoritária? Amorosa e criativa? Incentivando a crítica com debates sobre atualidades? Encorajando a competição ou a cooperação, ou cada uma em seu momento? Com entusiasmo ou com desesperança? Não tem jeito, o "modo de fazer", isto é, a forma de desempenhar um papel, sempre vai passar pela identidade de cada um, pelos valores, pela história de vida, pelos nossos ideais... por tudo aquilo que nos permite dizer, livremente, quem somos e quem desejamos ser. É esta a nossa liberdade.

Agora vou propor uma reflexão. Gostaria que você listasse os papéis sociais que desempenha nas diversas áreas da vida. Vale tudo, sem certo e errado, escreva com suas palavras. Quanto mais papéis, melhor. Agora escolha um dos papéis para o nosso exercício. Se quiser fazer isso com cada um dos papéis que você listou, melhor ainda, mas trabalhe com um papel por vez. Vamos às questões:
- Para você, o que os outros esperam de alguém que desempenha este papel (ou cada um destes papéis)? Você concorda com essas funções que se atribuem ao papel? Quais funções deste papel você eliminaria e quais acrescentaria, se for o caso?
- Como é para você vivenciar e ser reconhecido neste papel? Gratificante, terrível ou algo entre os dois extremos?
- Por fim, quais os espaços vazios que este papel deixa para que você se expresse? Como você poderia usar esses espaços a fim de tornar sua experiência mais agradável?

Na fase seguinte deste exercício, após ter trabalhado com pelo menos os principais papéis que você representa em sua vida, procure refletir sobre estas questões. Se puder fazer anotações, melhor ainda!
- Sobre os papéis que você não queria ter mas tem: é realmente necessário tê-los? Se for, de que formas é possível deixar este papel mais com a sua cara? Se não for necessário desempenhar este papel, que tipo de situação te leva a continuar representando-o? O que aconteceria se você o deixasse de lado?
- E sobre os papéis que você não tem, mas gostaria de ter (vale tudo: profissional, praticante de esportes, dançarina, mãe/pai...): que caminho é preciso percorrer para que se chegue a esse objetivo? Este papel é compatível com os outros papéis que você vivencia (principalmente com aqueles que você não pode ou não quer deixar de lado)? Você está realmente disposto a percorrer o caminho necessário e os diversos papéis anteriores a este? Ninguém é psicólogo antes de ser estudante e estagiário por uns bons anos... E nem sempre isso é agradável!

Acima de tudo é preciso ter em mente que os papéis que desempenhamos só nos permitem ter liberdade (ou, melhor dizendo, só nos permitem desempenhá-los com autonomia), se fizerem sentido para nós. Esse sentido pode ser devido a algo da nossa história, do nosso passado, por exemplo, a mulher que sofreu algum tipo de violência e hoje luta para que outras não passem pelo mesmo, ou a pessoa que resolveu seguir a profissão dos pais porque foi encorajado a isso desde muito jovem e sempre viveu num ambiente favorável a isso. Algumas vezes, no entanto, encontramos o sentido no futuro. Por exemplo, o jovem que atura uma rotina de estudos puxada e faz sacrifícios pensando em ir para a universidade no ano que vem. O sacrifício nesse tipo de caso não é visto pela pessoa de forma ruim, pois tem sentido para ela. O sacrifício penoso é aquele que não faz sentido para nós. Não existe ser humano sem papel social, pois de uma forma ou de outra, todos estamos inseridos em algum tipo de comunidade. Ter liberdade é ter autonomia, é poder agir, pensar e sentir de formas que façam sentido para nós e que sejam funcionais em nossas vidas, independente dos papéis sociais que desempenhemos. E nada tem o poder de nos tirar essa capacidade. Nossa liberdade está muito mais dentro de nós do que no mundo externo, pois pode ser que não queiramos todos os nossos papeis, mas a forma como os desempenharemos e o que sentiremos e pensaremos sobre eles, é totalmente nossa. E isso nada nem ninguém nos tira.

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