quinta-feira, 28 de março de 2013

Pessoas que acham que sempre têm razão

"A maturidade começa a manifestar-se quando sentimos que nossa preocupação é maior pelos demais que por nós mesmos." - Albert Einstein, físico alemão (1979-1955)

Esta semana uma amiga muito querida me contou sobre uma situação desagradável que aconteceu com ela quando foi pedir de volta o cartão da vaga de garagem que aluga a um vizinho. O sujeito, que não pagava o aluguel pela vaga há 5 meses, reagiu com pouco caso e, em seguida, com raiva, intimidando minha amiga e dizendo que, ao pedir para devolver o cartão, ela o constrangeu. Quando o namorado dela tentou argumentar com calma e educação, o homem explodiu, dizendo que ele (o namorado) não tinha nada a ver com isso e que estava se intrometendo na situação. Minha amiga disse ter sentido medo na hora e aproveitou para me sugerir o tema: pessoas que acham que sempre têm razão. Depois de conversar com ela, pensei e cheguei à conclusão de que duas coisas são interessantes nessa situação: a óbvia, como lidar com gente assim no dia a dia, mas também pensar um pouco sobre o que leva um ser humano a agir assim (acredito que os colegas psicólogos e estudantes de psicologia se interessarão por essa parte, e foi por isso que decidi inclui-la).

Algumas pessoas reagem com mágoa ou agressividade
muito maiores do que a situação exige. 
Vamos começar pensando sobre o que leva alguém a agir assim, pois geralmente as causas de um problema nos dão boas pistas de sua solução (no caso, como lidar com gente assim). Já disse outras vezes, vivemos num mundo muito competitivo. E, mesmo que a competição tenha um lado bom (por exemplo, nos ajuda a melhorar em algo ou incentiva a melhora na prestação de serviços), percebo que em muitos casos a competição é super incentivada, quase sempre em contextos nos quais ela não cabe (na família, entre crianças muito pequenas, dentro de uma equipe que precisaria cooperar - uma junta médica, uma equipe dentro de uma empresa, um grupo de estudos, ou de oração ou de trabalho voluntário...). Essa competição exacerbada gera uma grande onda de insegurança, em todos os sentidos da palavra. Insegurança de andar por aí, pois muita gente compete de forma violenta e sem noção por motivos simples. Por exemplo, o trânsito. Quantos de nós já presenciamos situações em que motoristas habilitados simplesmente jogaram o carro em cima de outros veículos e até de pedestres ou ciclistas, gerando ainda mais competição e insegurança e, mais vezes do que seria aceitável, acidentes feios?

A competitividade em demasia gera insegurança interior, também. Primeiro, porque nunca sabemos quem está do nosso lado e quem está contra nós. O colega que até parecia tranquilo e que explode quando pegamos uma caneta emprestada. A pessoa que se magoa quando questionada por uma atitude profissional, levando o conflito para o lado pessoal. Segundo, porque muitas pessoas foram incentivadas a competir desde tão pequenas que não tiveram tempo nem mesmo de diferenciar claramente a visão de si e do outro, que continua confusa para ela mesmo depois de crescer. E com o passar dos anos essa pessoa cresce se achando exclusiva. Só ela pode ter vantagens. Ela nunca aceita abrir mão de nada. Ela não precisa cumprir as regras combinadas ou os deveres dela, porque não gosta. Talvez até mesmo zombe de algum coleguinha, mas se revolta de forma exagerada quando o colega responde. Não aceita que algumas vezes se ganha, outras se perde, ou apenas que agora é a vez do amigo brincar no balanço. Mais alguns anos passam e, o que era apenas uma criança mimada se torna algo mais grave, pelas próprias situações normais da vida, que se torna mais complexa conforme crescemos. Surge aí uma pessoa que não sabe ouvir "não". Algumas dessas pessoas apenas ficam muito magoadas ao ouvir um não, choram por motivos banais, têm dores e sintomas físicos quando contrariadas ou frustradas. Outras, tentam compensar o "não" exagerando na comida, no uso de drogas e álcool, e em tantas outras compulsões. Outras dessas pessoas, no entanto, explodem. E a explosão pode ir de acessos de birra dignos de uma criança de três anos, até situações de violência extrema, nos quais a pessoa buscará expor sua revolta por não ser único no mundo e/ou impor seu desejo à força.

Perceba que, independente do motivo concreto que levou alguém a agir dessa forma (e os motivos são tantos quantos as possíveis histórias de vida), por trás dele existe uma grande dificuldade em perceber o outro. Claro que, do ponto de vista racional, a pessoa sabe que o outro também é um ser humano. Entretanto, emocionalmente, essa pessoa tem muita dificuldade em sentir o outro, percebendo assim que o outro também pode ter falhas, pontos fortes, problemas na vida, preferências, opiniões... Em especial, há uma grande dificuldade em aceitar que a pessoa pode ter preferências e opiniões bem diferentes das que se está acostumado a lidar. Resumindo, são pessoas muito imaturas, que têm problemas em aceitar que o outro não só está neste mundo como também tem todo o direito de levar a própria vida de acordo com os próprios ideais, tendo deveres e também direitos, assim como elas. Como ousa me cobrar pelo cartão da vaga de garagem só porque não paguei míseros cinco meses? Se é solteira, como teve a ousadia de não aceitar sair comigo? Se ele tem dinheiro, porque não compra o que quero vender, mesmo que ele não precise tanto? Por que as pessoas me constrangem quando me frustram? Claro que pensamentos assim não são conscientes, eles se refletem nas emoções de se sentir injustiçado mesmo quando a situação não implica em injustiça. Mágoa e raiva são dois caminhos possíveis para essa emoção se manifestar com maior clareza no dia a dia.

Fica a questão: como lidar com gente assim? É comum que as explosões gerem medo, como no caso da minha amiga. O outro pode agir com violência num momento de raiva. Também é frequente que isso gere revolta, afinal, se o "mimado" chegou aos 40 anos sem haver superado as questões do início da infância, a culpa não é nossa! Mas tanto faz o que a situação nos causará, o fato é que muitas vezes na vida teremos de lidar com pessoas assim. Acredito que conhecer as possíveis causas desse comportamento, sobre as quais conversamos anteriormente, seja interessante. Não resolve a nossa situação, mas nos acalma saber que, na realidade, o valentão não passa de um mimado inseguro que não conhece outra forma de argumentar senão se fazendo de vítima. Muitas vezes, a pessoa é tão insegura que ataca temendo a possibilidade de vir a ser atacado antes! Outro ponto importante, ao lidar com alguém assim, mantenha a calma. Ele é imaturo, mas você não. Respire fundo, use seu tom de voz normal e seja educado. Não perca a razão, são frequentes situações em que o problema começa porque um reage com raiva e o outro acaba entrando na dança. Ao mesmo tempo, acho importante ser firme. Em terapia, quando tenho pacientes assim, tenham a idade que tiverem, o procedimento é o mesmo: regras, direitos e deveres não existem por nada, mas para serem seguidas. E serão. É preciso aprender a lidar com acordos e combinados. Não abrir mão dos seus direitos é importante, a pessoa precisa saber que você percebe o que se passa. Senão a situação cresce mais e, acredite, ficará muito pior de resolver depois. Por fim, seja precavido: tenha bons argumentos e exponha a realidade com clareza e da forma mais neutra possível. Dependendo da gravidade da situação, é bom ter testemunhas. Não só porque isso diminui a chance de reações violentas, mas também porque muitas dessas pessoas têm o hábito de mudar as palavras que usamos conforme lhes convenha.

Digo sempre a quem me procura: mais vale prevenir do que remediar! Como mencionei antes, a forma como nossa sociedade funciona hoje parece encorajar a criação de pessoas mimadas e imaturas. Uma boa forma de prevenção é a educação. Ah, não estou falando apenas da escola, mas também daquela educação que vem de casa! Mães, pais, avós, tios, babás, cuidadores: não é não! Ter regras em casa, impor limites e exigir respeito não irá traumatizar a sua criança. A criança precisa de limites claros para se sentir segura, ela precisa saber o que pode e o que não pode, quando pode e como pode. Criança sem limite cresce insegura, achando que ninguém cuida dela e que ninguém a ama. Dizer "não" nos momentos apropriados, ensinando limites, também é uma forma de mostrar à sua criança que você a ama e que se importa com ela.  Mesmo porque o "não" dito pela vida nunca vem com o mesmo amor que o "não" dito pela família costuma vir, é muito mais duro e difícil. Até onde eu vou e onde eu acabo? Ter limites é algo que nos acalma quanto a essa angústia, frequente na psique infantil. Aliás, apenas sabendo que eu termino em algum lugar e que além de mim há outros, é que terei a curiosidade e o interesse sobre esses outros, me envolvendo em relacionamentos saudáveis e equilibrados. Quem não tem limites não tem contorno. É como se a pessoa boiasse no nada. é como se ela não existisse. Ela, no mínimo, crescerá insegura.

Ah, mais uma coisa! Você se identificou com essa pessoa que descrevemos? Sem limites, que acha que sempre tem razão, reagindo com mágoa e/ou agressividade exagerados e incompatíveis com a situação? Sugiro procurar a ajuda de um psicólogo. Não importa qual a sua idade ou pelo que você passou. Sei que por trás de pessoas assim costumam estar histórias de vida nada fáceis de levar. Mas para todo caso existe jeito, todos nós temos a possibilidade de viver com mais harmonia e satisfação, e o psicólogo é o profissional que pode te acompanhar nessa caminhada.

3 comentários:

  1. Olá Bia, texto maravilhoso. Não sou estudante de psicologia, sou apenas uma curiosa rsrs.

    Tenho uma dúvida. A criança que recebe muitos nãos dos seus pais e sofre com a falta da presença e amor deles durante a infância também pode vir a ser um adulto mimado? Justamente por se achar sempre injustiçado e merecedor de atenção...

    Rogéria Ribeiro

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    1. Oi Rogéria, muito obrigada!
      Respondendo a sua pergunta, a criança tem grandes chances de se tornar um adulto desses que se sente injustiçado quando não é olhada, com a falta de amor ou com limites em exagero. Tanto faz se o caso é a falta de limites ou o excesso (que geralmente ocorre para evitar aborrecimentos aos adultos). A criança sente quando o não é "sincero", quando o adulto diz não e dá um limite pensando no bem dela, do mesmo jeito que sente quando os nãos em excesso buscam apenas aliviar o trabalho do adulto. Ela percebe isso na linguagem não verbal (posturas, expressões faciais, tom de voz...). Na situação que você sugeriu, a criança provavelmente crescerá achando que é um incômodo para a família (e pode generalizar esse sentimento para outras pessoas e situações). E se sentirá injustiçada pela vida, podendo agir como o mimado ou, ao contrário, se tornar uma pessoa embutida, endurecida e fria.
      A solução é o equilíbrio, sem colocar limites demais e nem "demenos". Outra coisa, não é não, mas os limites podem sim ser colocados de forma lúdica e até divertida, como pintar dentro dos contornos dos desenhos, seguir regras de jogos infantis e, claro, sempre com muita conversa, ensinar a criança a negociar e a questionar. Porque para crescer e ser um cidadão, não basta seguir as regras, ele precisa se tornar uma pessoa consciente de si, do outro e do mundo a sua volta.
      abraços

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  2. Obrigada pelos esclarecimentos =)

    Rogéria Ribeiro

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