terça-feira, 30 de abril de 2013

Mythos - Anhangá: enfrentando nossos medos

Hoje vamos conversar sobre a superação dos nossos medos, e faremos isso com base no mito brasileiro de Anhangá. Tenho lido sobre mitos brasileiros e, em minhas pesquisas, notei que eles podem ser de duas origens: os mitos indígenas e os mitos que surgiram durante e após a colonização do Brasil, que mesclam elementos indígenas, africanos e europeus, formando um conjunto de mitos e lendas peculiar e tão típico do nosso povo. O mito de hoje é indígena, dos índios tupis. Para compreendermos melhor o mito, falarei brevemente sobre a etnia tupi. Os índios tupi se agrupavam em tribos, que por sua vez eram divididas em diferentes aldeias, cada aldeia tinha entre 500 e 750 habitantes em média. As tribos eram nômades e viviam espalhadas por boa parte do território brasileiro, não tinham um sistema estatal ou hierárquico rígido, no entanto se destacam a presença de líderes guerreiros e líderes espirituais, valorizados na tribo de acordo com as habilidades que tinham. No ponto de vista espiritual, os índios tupis acreditam na reencarnação, no culto aos antepassados e na existência de espíritos humanos e em outras entidades que vagam pela terra. Anhangá era uma dessas entidades.

Representação cristianizada de Anhangá.
Anhangá era um duende protetor da mata e dos animais selvagens. Ele podia assumir diferentes formas de animais ou de gente dependendo de quem se deparasse com ele. A forma mais comum era a de um veado branco com os olhos de fogo, que podiam queimar a pessoa que ele encontrasse. Podia ainda ficar invisível, acompanhando caçadores desprevenidos e pessoas que entravam na mata sem segurança, algumas vezes se manifestando apenas com um assobio aterrorizante. Quando o Brasil passou a ser colônia de Portugal, no século XVI, padres jesuítas tentaram catequizar os povos indígenas e, para explicar quem era o demônio, associaram-no a Anhangá. No entanto, devemos ter em mente que esta é uma visão preconceituosa desta entidade indígena, que não tem relação alguma com o demônio judaico-cristão. Anhangá era, sim, uma entidade assustadora, é considerado a personificação dos medos. Mas também tem outro lado, o de protetor da floresta e dos animais.

Qual a forma do seu medo?
Dizem que quando alguém entrava na floresta durante a noite sem segurança, isto é, sem uma fonte de luz ou mesmo sem autoconfiança, essa pessoa tinha grandes chances de se deparar com Anhangá. Ele aterrorizava quem se encontrasse com ele, sempre tomando a forma mais assustadora para a pessoa em questão. Além disso, quando alguém entra na mata duvidando da existência de Anhangá, ele espera que essa pessoa chegue a um local mais distante e, sorrateiramente, vai até ela, golpeando-a com um pedaço de pau. Outras vezes, prega peças: afugenta as caças, prepara armadilhas e faz com que os desavisados se percam na floresta. De toda forma, se for entrar na floresta (real ou simbólica), é bom estar preparado para possíveis encontros com Anhangá.

Questões para reflexão:
1- Qual a forma do seu pior medo? Como você lida com ele: enfrentando-o ou submetendo-se a ele?
2- Anhangá tem dois lados: o de personificação dos medos e também o de protetor das matas. Assim são nossos medos: causam mal estar, mas ao mesmo tempo estão aí para nos proteger de algo. Do que seus medos tentam te proteger? Pensando mais racionalmente, é mesmo necessário se proteger disso?
3- Ao interpretar mitos, lendas e contos de fadas, a entrada na floresta geralmente é associada ao contato com o inconsciente, onde moram nossos desejos, medos e lembranças mais secretas... Algumas vezes, o contato com elementos do inconsciente pode assustar mais que Anhangá! No entanto, é apenas entrando em contato com esse lado nosso que podemos nos conhecer de forma mais completa e resolver nossos conflitos e questões internas. Você está disposto a correr esses riscos? Como você expressa isso?
4- Os índios tupis recomendam a quem precise entrar na floresta durante a noite que leve consigo uma fonte de luz. E você, ao entrar em contato com o inconsciente, o que leva? Qual é a sua luz, quais são os seus recursos?

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