terça-feira, 9 de abril de 2013

Mythos - Fausto: o preço de pertencer a si mesmo

Hoje vamos falar sobre uma personagem que considero muito simbólica para os dias atuais, Fausto. A história de Fausto, o homem que vende a alma ao demônio, é uma lenda alemã medieval. Muitos autores escreveram versões de sua história em livros, peças de teatro, numa ópera de Wagner e em roteiros para o cinema, além de pinturas e gravuras. Provavelmente a versão mais conhecida da lenda é a de Goethe, publicada no século XIX.

Fausto. Obra de Rembrandt (1654)
Fausto é um homem das ciências, estudioso de filosofia, matemática, cosmologia e todas as ciências que sua época (o fim da Idade Média e início do Renascimento) tinha a oferecer. Entretanto, Fausto nunca estava satisfeito. Precisava saber mais e mais, como se houvesse um grande vazio em si que pudesse ser preenchido pela ciência e pelo progresso. Acontece que a época de Fausto era bem diferente da nossa. Se hoje temos fácil acesso à informação, com a internet, bibliotecas, livrarias, jornais, rádio e televisão, entre outras mídias, na época em que a história do Fausto se passa, a informação era muito controlada e poucos tinham acesso à ela. Livros eram muito raros e caros, escritos à mão. Rolos de pergaminho exigiam certa habilidade motora para a leitura, que as pessoas não chegavam a desenvolver pois desde cedo se ocupavam com trabalhos pesados, e também os rolos de pergaminho eram limitados aos religiosos e à nobreza. No ocidente, as peças de teatro se limitavam a retratar passagens da Bíblia, e aconteciam apenas em datas comemorativas. Material para a escrita, então, era praticamente um artigo de luxo! Além disso, a maior parte da população, mesmo entre nobres, não era ensinada a ler ou escrever. É bom ter isso em mente para compreender o desespero do Fausto. Ele percebia que o conhecimento disponível em sua época era bastante limitado, e assim, decidiu recorrer à magia para ampliar seus conhecimentos. Mas não teve sucesso.

Nesse entremeio, Deus e o diabo conversavam. Fausto era um favorito de Deus. O diabo aposta, então, que seria capaz de conquistar sua alma. Deus aceita a aposta, pois sabia que Fausto era um sábio e, na visão dele, seria impossível que Mefistófeles (o diabo) conseguisse sua alma. Então Mefistófeles aparece na casa de Fausto e  lhe propõe um pacto: o diabo lhe daria todo o conhecimento e os prazeres terrenos que desejasse e, em troca, Fausto lhe serviria no inferno após sua morte. E tinha mais! A alma de Fausto iria para o inferno na hora exata em que Fausto experimentasse um momento de tanta felicidade que ele  desejasse que o instante durasse para sempre. Fausto aceitou a proposta.

Mefistófeles passa a acompanhá-lo. Ele ensinou a Fausto noções de magia, cosmogonia, alquimia e feitiçaria, levou-o a uma bruxa que o transformou num homem jovem e belo, apresentou-lhe Helena de Troia e lhe revelou segredos do universo. Após muitos anos, Fausto se dá conta de que com a morte sua alma iria para o inferno. Em algumas versões da lenda, ele se arrepende e procura consertar o que fez de errado, conseguindo o perdão de Deus. Em outras versões, no entanto, Fausto foge e procura despistar o demônio. Mefistófeles segue em seu encalço. Debaixo de chuva forte, Fausto chega a uma pequena vila, já muito cansado e doente, como se cada ano lhe pesasse sobre os ombros magros. Ele entra numa estalagem e pede um quarto. Lá ele estaria protegido. No entanto, momentos depois um homem misterioso entrou na mesma estalagem. Como usava uma capa pesada com capuz, ninguém podia ver seu rosto. O homem perguntou ao estalageiro sobre Fausto e foi até o quarto onde havia se instalado. Depois de alguns momentos, as pessoas na estalagem ouviram gritos desesperados mas, assustados, ninguém ousou ir até o quarto de Fausto. Em dado momento, os gritos pararam e um cheiro podre inundou o local. O dono da estalagem tomou coragem e foi até o quarto de Fausto. Mas, ao entrar, não havia ninguém ali, apenas fumaça e um bilhete alertando para que as escolhas sejam sempre pensadas com cuidado.

Questões para reflexão:
1- Tal como Fausto, muitas pessoas sentem um vazio dentro de si. Alguns tentam preencher o espaço colecionando experiências, ou através do conhecimento (como Fausto), ou colecionando relacionamentos passageiros, prazeres, objetos dos mais variados tipos... Outros procuram preencher-se com a religiosidade, ou com o consumismo, ou com o abuso de álcool e drogas, ou arriscando a própria vida e até com sintomas e dores... Você tem esse sentimento de vazio? Com o que o preenche?
2- O simbolismo que envolve "vender a alma" está relacionado a troca de algo íntimo e muito nosso por algo geralmente visto como passageiro e de pouca importância. "Vendemos a alma" sempre que nos deixamos "comprar", seja aceitando subornos e vantagens, seja passando por cima dos nossos valores pessoais para ter algo (seja algo concreto, um benefício, ser visto de outra forma...). Algo assim já te aconteceu? Como você se sentiu com a "troca"?
3- Existe algo que é tão importante para você que o levaria a abrir mão de si mesmo? Fausto vende sua alma numa tentativa de viver a vida sonhada em lugar da possível. Mas como viver a vida sonhada quando passamos por cima de nós mesmos?
4- Fausto aconselha as pessoas a refletirem sobre suas escolhas. Quando você se depara com escolhas importantes em sua vida, quais fatores você costuma levar em consideração? Por que?

6 comentários:

  1. Há quem se arrisca só para preencher o vazio, mas também os desejam conquistar autenticidade. Para mim é difícil definir um motivo específico para uma atitude. Quem sabe no momento vemos vários tipos: os que se sentem confinados nas grades, sem saber o que fazer; os que se entregam, a ponto de serem moldados pelas barras; e os que se veem obrigados a serem tudo, menos eles mesmos.

    Ainda não sei se fazer apologia a bater a cabeça seja o ideal, mas sei que a acusação de que a família, a profissão e a maioria dos relacionamentos não integra o gosto com a expectativa, é indefensável.




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    1. Acredito que esse tipo de atitude sempre venha para preencher algo: um vazio, uma questão do sujeito (e a falta de respostas não seria outra manifestação do vazio?), uma inquietação...
      A vida nem sempre é a ideal. Aliás, quase nunca é. Porque o "ideal" faz parte do plano das ideias, entre o ideal e o real pode existir um abismo imenso (outro vazio?). Cada um encontrará sua forma própria de lidar com esse vazio, com essa diferença entre o ideal e o real: talvez os sintomas, ou os riscos, os conflitos interpessoais... Penso que a maior beleza nisso é manter o foco no possível. O ideal sempre será inspiração e esperança, o real crú sempre será aprisionador, porque dificilmente permite o sonho. A busca pelo possível faz com que o real e o ideal conversem, viabilizando o nascimento da tão buscada autenticidade.

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  2. Estava de férias e só hoje vi esse texto maravilhoso! Justamente num dia em que estava refletindo sobre esse vazio que às vazes bate na gente. Estava pensando o porque de certos momentos por mais perfeitos que sejam não nos satisfazem plenamente quando teoricamente deveriam satisfazer.

    E sempre tive a desconfiança de que o objeto almejado quando atingido não irá acalmar essa inquietação sem fim que vive me intrigando rsrs.

    Muito bom refletir sobre isso tudo com sua ajuda =)

    Rogéria

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    1. Muito obrigada, Rogéria!
      Você tem razão ao dizer que nada nunca acalmará nossa inquietação. Alguns psicólogos chamam isso de "angústia do existir". Dizendo de uma forma mais suave, é aquela pulsação, aquela coisa que nos mantém sempre em busca de algo mais (não necessariamente coisas concretas, mas também relações, conhecimentos, prazeres, evolução espiritual, status, enfim, cada pessoa terá suas próprias buscas conforme aquilo que valoriza).
      Por outro lado, se nada nunca satisfaz o sujeito, nem por algum tempo até que outra busca apareça, temos algumas possibilidades: ou a busca não é dela, está em desacordo com os reais desejos e valores do sujeito (quase sempre contaminados pelo que "os outros" dizem que será melhor); ou a pessoa não sabe viver com o sucesso. Isso acontece bastante, muitas pessoas são ensinadas a não celebrar e a não valorizar as próprias conquistas (por que não?), seja por timidez, para não parecerem "metidas" ou o que for. Celebrar a conquista não apenas é gostoso, mas também faz com que essas memórias boas sirvam de referência positiva quando nos depararmos com novos desafios!
      abraço

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  3. Falo sobre isso todos os dias com várias pessoas. Acredito que não é necessário me vender, seja lá como for, para preencher algum vazio. Já tive momentos de desespero, de tristeza, de "querer mais", de não estar satisfeita, porém tudo tem um limite - e olha que sou uma pessoa que acredita no impossível. Existe um ponto que devemos repensar, não dá pra ter tudo, certo?

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    1. O mundo de hoje nos encoraja a "querer tudo". Pior, a coisa é ainda mais cruel, nos faz sentir que se não tivermos tudo, somos fracassados ou temos algum tipo de problema. E a coisa não é mesmo por aí! Ninguém para pra perguntar se "ter tudo" é o que vai nos deixar felizes com a gente mesmo. Todo mundo tem fases de mais tristeza, de mais incerteza e isso não é problema psicológico não, isso é o vai e vem da vida. Ser feliz e ter sucesso não é ter tudo, é poder agir fazendo escolhas conscientes e que vão de acordo com os nossos valores. Essa é a consciência tranquila.

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