terça-feira, 16 de abril de 2013

Mythos - Murilé: trair os próprios sonhos e o perigo de não existir

Hoje vamos trabalhar com um mito africano, do Quênia. Apesar de pouco explorado, este mito nos traz reflexões bastante pertinentes para os dias de hoje. Vamos começar!

Numa aldeia da África vivia um jovem chamado Murilé. Era um rapaz um tanto desajeitado, por isso, sua família o criticava muito. Murilé até tentava acertar, mas o pai dele sempre dizia que ele nunca faria nada certo na vida e a mãe sempre se queixava com todos sobre como o filho era preguiçoso e desastrado. Certo dia, cansado da situação, Murilé resolveu ir embora. Ele se sentou no banco mágico do pai, que estava na família há muitas e muitas gerações. Então Murilé, que de desastrado não tinha nada, passou a recitar todos os encantamentos mágicos que conhecia, até que o banco começou a flutuar cada vez mais alto. Murilé viu espantado como lá de cima sua casa parecia pequena e como a aldeia logo parecia ser apenas um pontinho distante. O banco subiu tanto que Murilé chegou à lua!


Vendo-se sozinho na lua, Murilé se assustou! Como ele poderia voltar para casa? Era mesmo um desajeitado! E o jovem correu pela lua até encontrar uma aldeia. Então ele teve uma ideia: pediria para ver o chefe da lua e explicaria a situação. Certamente o chefe saberia como voltar para a terra. No entanto, a aldeia tinha muito trabalho por fazer e as pessoas que viviam lá disseram a Murilé que eles mostrariam o caminho para a aldeia do chefe da lua desde que o rapaz ajudasse com o trabalho. Ele concordou e algum tempo depois, terminaram. As pessoas da aldeia gostavam muito de Murilé e ficaram felizes em mostrar o caminho para a aldeia do chefe, que ficava do outro lado da lua, nas sombras. Chegando lá, Murilé ficou muito surpreso com o que viu. O lugar era escuro e muito atrasado. As pessoas não conheciam o fogo, por isso não sabiam fazer cerâmica, eram obrigados a comer carne crua e nunca podiam se aquecer perto de uma fogueira nas noites mais frias. Murilé então pegou alguns gravetos e acendeu uma grande fogueira. O povo ficou maravilhado! O chefe da lua ficou muito agradecido e Murilé passou a ser considerado o maior mago que o povo já conheceu. Murilé se casou com a filha do chefe da lua, eles eram felizes e tinham muitos filhos. No entanto, Murilé sentia falta de seus pais, ele queria voltar para casa. Não apenas para revê-los, mas para mostrar a eles que ele não era o rapaz desajeitado e sem futuro que todos viam.

Mas havia um problema. O pequeno banco que trouxe Murilé até a lua não poderia levar a esposa e os filhos, era muito pequeno. Então Murilé enviou um amigo à aldeia onde seus pais viviam, para dar a notícia de que ele, a esposa e seus filhos chegariam em breve. Mas o tempo da lua é diferente do tempo da terra. Na terra, os pais de Murilé já eram bem velhinhos, e consideravam o filho morto há muitas décadas! Quando soube disso, Murilé viu que precisava ir até os pais depressa. Então o chefe da lua lhe ofereceu um touro sagrado. O animal seria forte e veloz o bastante para levar todos à casa dos pais de Murilé com segurança e rapidez. No entanto, o chefe da lua fez Murilé prometer uma coisa: ele podia ficar com o touro sagrado pelo tempo que fosse necessário, desde que nunca o matasse e o comesse. O rapaz concordou e partiram. Quando os pais de Murilé o viram, não acreditaram! O pai de Murilé não lhe poupou elogios, e a mãe não parava de comentar com todos na aldeia como o filho era um homem responsável, rico e poderoso, como a nora era linda e amável e como os netos eram crianças bondosas e alegres. Passados alguns dias, o pai de Murilé resolveu matar um animal e dar uma festa para toda a aldeia em honra ao filho. Viu entre seus animais um touro grande, que alimentaria toda a aldeia e não exitou em matá-lo e preparar um assado delicioso, sem saber que aquele era o touro sagrado, e nem da promessa feita pelo filho. Todos comeram e se fartaram, mas quando Murilé provou a carne, a terra se abriu e o engoliu.

Questões para reflexão:
1- Uma das formas de pensar este mito é com o foco no nosso mundo interno. Sem pensar muito, diga o que há de valioso esperando por você no lado mais escondido da lua, nas profundezas da sua psique? As primeiras coisas que vêm à mente costumam ser as mais precisas, pois chegam à nossa consciência antes que o inconsciente as bloqueie. Os tesouros podem assumir a forma de novas ideias, maneiras diferentes de olhar a vida, características de personalidade e até habilidades que nem desconfiávamos ter. Descobri-los requer trabalho e envolvimento, tal como o povo da lua exigiu de Murilé. Apenas quando nos conhecemos bem é que podemos nos tornar quem realmente somos.
2- Outra forma de ver o mito é com o foco no mundo externo. Como os outros te descrevem (ou descreveriam)? Você concorda com eles em algum aspecto? É interessante pensar sobre isso, porém com a consciência de que esta é a visão deles, a sua visão sobre si mesmo provavelmente será diferente, ao menos em alguns pontos. 
3- Ser engolido pela terra tem um simbolismo muito forte. É mais do que morrer, é deixar de existir. Quando  sentimos nossa existência ameaçada (mais do que a vida, pois a existência vai além do biológico, entrando em campos como as emoções e a mente), sentimos como se "de repente" as coisas parassem de fazer sentido. Você já se sentiu assim? Não falo de situações temporárias que nos dão a sensação passageira de falta de sentido, mas sim de situações extremas, como a morte de um ente querido ou mudanças bruscas e repentinas, como divórcio, perda de emprego, sofrer atos de violência... Existimos na linguagem, no contar. Quando traímos nossas palavras, as "promessas" que fizemos a nós mesmos, ou seja, quando vamos contra os nossos valores pessoais, deixamos de existir, pois traímos nossos sonhos e esperanças, matamos o touro sagrado que podia nos levar a outros mundos e, como se não bastasse, o engolimos. Como encontrar algum sentido sem nossas esperanças e sonhos? Fica aquela sensação de sufocamento, como se a terra nos engolisse.

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