terça-feira, 2 de abril de 2013

Mythos - O Labirinto - Parte 2: A Fuga

Hoje vamos terminar o mito do labirinto sobre o qual começamos a conversar na semana passara. Se quiser reler a parte 1 desta conversa, clique aqui. Terça feira passada deixamos Dédalo, o grande arquiteto que projetou e construiu o labirinto do Minotauro, no momento em que o rei Minos o condenou a ficar eternamente preso no próprio labirinto e, nas questões para reflexão comparamos a entrada de Dédalo no labirinto a uma jornada pelo mundo interior, de onde muita informação pode emergir.

O labirinto em que Dédalo e seu filho Ícaro estavam presos era imenso, cheio de corredores tortuosos que levavam a outros corredores, ainda mais tortuosos. O rei Minos, imaginando que seus prisioneiros poderiam fugir, mantinha uma vigilância bastante rígida não apenas na entrada do labirinto, mas nas estradas e no porto da ilha de Creta, de onde nenhum barco partia sem ser revistado antes. Durante os primeiros dias de confinamento, tudo o que Dédalo fazia era perambular pelos corredores, pensando em formas de escapar do próprio labirinto. Certo dia, ele viu o menino Ícaro brincando com algumas penas de aves que haviam entrado por uma das estreitas janelas do labirinto. Foi então que Dédalo, criativo como era, teve uma brilhante ideia: Minos podia vigiar a terra e os mares, mas nunca poderia vigiar o céu! E seria por lá que eles escapariam!

Por meses e meses Dédalo e Ícaro juntaram penas de pássaros de diferentes tamanhos, que os dois recolhiam perto das aberturas de respiro do labirinto. Dédalo ainda juntou uma boa quantidade de cera, recolhida de uma colmeia que havia se instalado numa parte do labirinto. Então, com o material em mãos e o projeto em mente, trabalhou noite e dia e fabricou dois pares de asas, um grande para si e outro um pouco menor para Ícaro. Quando terminou o trabalho, o arquiteto pegou os pares de asas e foi com o menino a uma grande abertura de respiro do labirinto, que dava para um penhasco sobre o mar. Ele mostrou ao filho como os pássaros se moviam para voar. Então ele ajustou bem um par de asas ao corpo de Ícaro e o outro ao próprio corpo. Aproximaram-se do penhasco e, antes da aventura, fez uma recomendação ao filho: voar sempre em altura moderada, nunca baixo demais, pois a umidade do oceano faria com que as penas se soltassem e ele caísse em mar aberto, ao mesmo tempo em que não seria bom voar alto demais, pois o calor do sol derreteria a cera, destruindo as asas.

Dédalo respirou fundo para tomar coragem e saltou. Caiu alguns metros, mas logo começou a voar. Olhou para trás, preocupado com o filho, mas viu que Ícaro, por ser menor e mais leve que o pai, voava bem. Para a surpresa do menino, o que no início parecia assustador, na verdade era bastante agradável! Ele voou, dando voltas, subindo e mergulhando no ar, divertindo-se com a nova sensação. Mas Ícaro não seguiu a recomendação do pai. Em meio ao seu entusiasmo, o menino voava cada vez mais alto, e mais alto, e mais alto... até que a Ilha de Creta, a maior da Grécia, não passava de um minúsculo borrão. Dédalo olhou para o filho já sabendo o que na certa aconteceria, mas não podia fazer nada para impedir. E, tal como o pai previra, o calor do sol derreteu a cera das asas de Ícaro, fazendo com que as penas se soltassem. O menino ainda tentou bater as asas com mais velocidade mas era tarde demais. Com um grito muito assustado e sob o olhar devastado de seu pai, Ícaro caiu e mergulhou para a morte no oceano.

Dédalo continuou sua fuga sozinho e chegou a salvo na Sicília. Lá ele ergueu um templo ao deus do sol, Apolo, onde deixou suas asas como oferenda. É interessante notar que Apolo é o deus que puxa o carro do sol, que derreteu as asas de Ícaro, condenando-o a uma morte prematura. Assim, Apolo é aquele que nunca se atrasa e nunca falta, pois o sol nasce todas as manhãs, aconteça o que acontecer. É um deus civilizador, muito querido pelos gregos por pregar a "justa medida", o equilíbrio, conceito chave para compreender a mitologia e a cultura desse povo. A mesma regra que, no alto de seu entusiasmo, Ícaro não conseguiu seguir, voar de forma moderada, nem alto e nem baixo demais. E, esquecendo-se da justa medida, perdeu o próprio centro, encontrando seu fim.

Questões para reflexão:
1- Esta não é uma questão, é um comentário. Repare logo no início da parte de hoje deste mito, quando Dédalo passa meses e meses planejando e recolhendo materiais para seu projeto, as asas. As coisas levam tempo. Grandes mudanças não acontecem de um dia para o outro, precisam de planejamento, recursos (materiais, emocionais, etc.) precisam ser recolhidos e trabalho precisa ser feito. Um par de asas não se constrói sozinho!
2- Repare que o labirinto de Dédalo tem janelas e aberturas para respiro. Pensando no labirinto como o nosso mundo interno, quais são os seus "espaços de respiro"? É saudável ter brechas no nosso mundo interno, pois assim a comunicação inconsciente - consciente é facilitada por canais como sonhos, a imaginação, as artes... sem que o inconsciente precise apelar para sintomas. Que "espaços" você dá a essa comunicação em seu dia a dia? E quais novos espaços você está disposto a abrir?
3- Comparo as penas e a cera de abelhas aos recursos internos que todos nós temos. Às vezes não os conhecemos, mas eles estão sempre aí. Recursos internos são lembranças, frases curtas e sensações corporais, movimentos, etc que nos dão confiança para enfrentar os desafios da vida e esperança no futuro. Recursos são pessoais e muito significativos. Sugiro respirar bem fundo, fechar os olhos e buscar alguns dos seus. Pelo menos três. Traga-os para sua consciência, agradecendo a eles e dizendo-lhes que são bem vindos.
4- O início do voo, o salto para o novo, causou certo receio em Ícaro e mesmo em Dédalo. Na frente deles, um penhasco. Abaixo, o oceano cheio de rochas da Grécia. As imagens que você criou enquanto lia o mito contam muito sobre a forma como você lida com novidades e desafios. Como eram as asas? Qual a altura do penhasco? Como era o mar (calmo, revolto, cheio de rochas pontiagudas...)? Como você lida com os desafios?
5- Dédalo assistiu a morte do filho sem poder fazer nada, caso contrário cairia e, também ele, encontraria seu fim. Existem situações na vida em que, por mais impotente que a gente se sinta, simplesmente não há o que fazer, apenas esperar. Você já viveu situações assim? Como foi? Você se apegou a algo/alguém ou usou algum recurso interno para passar pela situação?
6- A morte de Ícaro representa um limite que foi cruzado, o processo de tomada de consciência. Depois de cruzar um limite, nada jamais será da forma como costumava ser. O fim da infância, a entrada na vida adulta, a primeira menstruação, ou a perda de uma pessoa querida são exemplos disso. São momentos de passagem, que os povos antigos (e alguns ainda hoje) costumavam marcar com rituais de passagem, celebrações e festas, tornando o momento mais ameno e dando confiança aos que estão na situação. Lembre-se de momentos de passagem que você já viveu e como você lidou com eles. Hoje em dia, você teria lidado de forma diferente? Como?

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