quinta-feira, 11 de abril de 2013

Perfeccionismo: Quando o carrasco é você!

"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito." - Fernando Pessoa, escritor português (1888-1935)

Hoje vou começar contando uma coisa pessoal para vocês. Quando eu era criança, sempre gostei muito de criar histórias. Algumas para distrair meus irmãos mais novos, outras para distrair a mim mesma, outras para distrair os meus pais e eles não perceberem que eu não estava comendo meu almoço. E era só isso: distração e diversão. Depois, com uns 10 ou 11 anos, imaginei que se eu escrevesse as histórias que inventava, poderia ter sempre alguma coisa nova para ler! E assim comecei a escrever histórias, jornaizinhos... Cresci um pouco e, com 13 começaram as poesias. Mas tinha um problema: eu morria de vergonha! Ninguém podia ler, aliás, ninguém nem sequer podia saber que eu escrevia! Então, assim que eu terminava, eu relia e rasgava tudo, em pedacinhos bem pequenininhos! E levava os pedacinhos para a escola e jogava no lixo do banheiro, enrolando tudo em um monte de papel higiênico. Lá, com certeza ninguém iria encontrá-las. Nunca. O tempo foi passando e, uns dois anos depois, resolvi começar a guardar as poesias e outros escritos numa pasta amarela, daquelas de cartolina, sem elástico nem nada. Ainda morria de medo que alguém as lesse, então eu carregava a pasta sempre comigo na mochila, para qualquer lugar que fosse. Naquela época, eu gostava bastante de escrever durante a noite, quando a casa estava mais quieta. E, numa certa madrugada, depois de algumas horas de escrita, fui dormir e esqueci alguns papéis na mesa da cozinha. No dia seguinte, encontrei os papéis ao lado da minha cama, junto deles havia um bilhetinho com a letra da minha mãe. Dizia apenas "são lindas". Isso me deu coragem e comecei a mostrar para alguns amigos mais próximos que, para minha surpresa, gostaram e começaram a me encorajar. E em pouco tempo a pasta amarela passou a viajar pela escola, de mão em mão, de olhar em olhar. No fim do dia, a pasta voltava para mim. Para uma menina tímida e insegura, o apoio de todas essas pessoas foi primordial e me fez ter mais confiança naquilo que gosto de fazer. Mais alguns anos se passaram e, no dia em que fiz 17 anos, assinei o contrato para meu primeiro livro, "O tempo não espera".

A pessoa perfeccionista se torna alvo de sua própria rigidez.
A autocrítica, que deveria ajudá-la a se perceber com clareza,
acaba por se tornar fonte de conflitos e de mal estar.
 Comecei contando um pedacinho da minha história porque isso ilustra bem o tema de hoje, sugerido por uma das minhas primeiras leitoras, que já lia a pasta amarela antes mesmo dela passar a viajar de mãos em mãos, minha amiga Stella Benedetti. Ela me sugeriu o tema perfeccionismo. É interessante ter em mente que o perfeccionismo nada mais é do que a autocrítica exagerada. É claro que é importante ter autocrítica, é isso o que nos faz avaliar nosso comportamento, nosso trabalho e nossas criações, verificando se estão em condições de atender às exigências da nossa vida e de nós mesmos. Mas, como tudo na vida, quando a autocrítica é exagerada, alguns problemas começam a aparecer (e rasgar poesias recém escritas é um deles!). Esses problemas podem ir desde conflitos emocionais, incluindo aí crises de ansiedade, insegurança, medo de se expor, pesadelos recorrentes, timidez exagerada... Até problemas psicossomáticos, como gastrite, palpitações, tonturas, náuseas e vômitos às vésperas de ter que expor um trabalho ou produção importante. Acidentes (grandes ou pequenos) e aquele mal estar que algumas pessoas sentem antes de uma prova ou de um acontecimento importante também contam. Com o passar do tempo, se a pessoa não mudar a imagem que faz de si, tendo uma autocrítica menos rígida, os sintomas podem evoluir para algo mais grave, por exemplo, quando a gastrite se torna úlcera ou quando os sintomas emocionais passam a caracterizar algum tipo de transtorno psicológico.

O perfeccionismo provavelmente é uma das característica mais mencionadas nas entrevistas de emprego, quando o candidato é questionado sobre seus defeitos. Muitas pessoas se julgam perfeccionistas, mas isso nem sempre é verdade. Uma coisa é exigir de si mesmo um trabalho bem feito e um comportamento que você acredite ser adequado. Outra coisa é exigir de forma exagerada e desumana, a ponto dessa auto exigência interferir de forma ruim na sua saúde e nos seus relacionamentos, fazendo com que seja muito difícil levar uma vida normal. Existem diversas causas que poderiam levar uma pessoa a ser perfeccionista. As mais óbvias seriam o medo de ouvir (inevitáveis) críticas e tomar para si a missão impossível de agradar a todos. Entretanto, penso que por trás dessas causas existe algo mais: a insegurança, que quase sempre vem de mãos dadas a uma autoestima muito baixa. Esses componentes alteram nossos comportamentos e nossa vida psíquica, fazendo com que acreditemos e nos comportemos como se fôssemos "piores" ou "menos" que todas as outras pessoas.

Seu perfeccionismo é só uma máscara.
O que há por trás dela?
Existem várias estratégias possíveis para contornar o perfeccionismo. É preciso ter em mente que o perfeccionista é uma pessoa cujo foco maior está no outro, ou melhor, na opinião que o outro terá sobre ela, ao invés de estar em si mesmo. O que temos que fazer é trazer o foco de volta para o próprio sujeito. Uma forma de fazer isso é entrar em contato consigo mesmo: meditar, anotar sonhos, fazer exercícios de respiração e relaxamentos, estar atento aos seus sentimentos para que não precisem se manifestar na forma de sintomas. Exercícios criativos, como escrever, desenhar, pintar, moldar argila e tantos outros, também trazem melhoras incríveis! Lembre-se que o espírito da coisa não é pintar a Monalisa, é "apenas" dar vazão ao nosso mundo interno! Outra coisa: pelo menos em alguns momentos, esqueça a competitividade. Você não precisa ser melhor que ninguém. Não existe jeito "mais certo" ou "melhor" ou "mais bonito" de fazer as coisas. Quando o assunto é ser humano, o certo e o errado, o bom e o ruim são subjetivos. Isso quer dizer que cada um sabe o que é melhor para si. E aí certas competições perdem o sentido e podem sair da vida da gente, levando com ela uma boa quantidade de estresse desnecessário. Ninguém merece se sentir pressionado entre ser o melhor e ser você mesmo, porque enquanto a pessoa for sincera consigo mesma, sempre será o melhor que pode ser, e é isso o que conta. Ah, por último, é crucial tomar consciência de que todo super herói tem seus pontos fracos. Ninguém é perfeito. E que chato se fosse! Quando nos aceitamos como somos, começamos a perceber uma série de características nossas que até pareciam "ruins" e que têm um lado maravilhoso! (leia mais sobre isso clicando aqui!)

É muito importante lembrar dos nossos feitos e das nossas conquistas. Pode ser algo grande, como a apresentação para aqueles clientes super importantes ou ter passado no vestibular. Pode ser algo da vida pessoal que tem grande valor para a pessoa, como o dia do casamento ou os filhos, a presença de pessoas queridas na vida da gente, ou ter superado uma doença grave. Mas, mesmo que não seja algo muito importante ou grandioso, lembre-se das "pequenas" conquistas. Eu quis passar uma tarde agradável no parque e consegui. Aprender a andar de bicicleta. Ter conseguido preparar uma receita nova. Todas essas vivências são muito especiais, pois quando as valorizamos, nos lembrando delas com carinho e revivendo aquelas emoções agradáveis, elas se tornam nossas referências, ou seja, algo que nosso inconsciente passará a buscar mais e mais, repetindo comportamentos que deram certo para nós. Nesse processo descobrimos que o que fazemos tem que agradar, antes de tudo, a nós mesmos. Os outros têm o direito de achar o que quiserem e isso não é problema nosso!

6 comentários:

  1. queimei tantos papeis com produção literaria propria, por excesso de autocritica negativa, que daria para acender um sol.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sinto seu drama. Penso que o principal é a gente reconhecer nosso perfeccionismo, pois só a partir disso é possível mudar de atitude (começando, no mínimo, a guardar a produção, e por que não mostrar a alguns amigos...)
      abraço

      Excluir
  2. Muito legal a tua história.
    É bem isto, por vergonha ou achar que não está bom suficiente, rasgamos ou deletamos etc, mas sem tem quem goste e quem não goste. Logo, não precisamos temer as críticas e sim crescer com elas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você tem toda a razão! Tive um professor que costumava dizer para nunca ter "medo" de falar ou escrever o que a gente acha, porque mesmo que ninguém mais concorde, continua sendo a nossa opinião. abraços

      Excluir
  3. Bia, acho que se vc escrever mais um livro o título deveria ser pasta amarela! E digo mais, deveria ser uma prosa de auto-ajuda!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Novos livros em fase de estudo, Stella! :D
      Auto ajuda? Pensando seriamente!! E muito simbólica a sugestão de título, amei!!
      bjs

      Excluir