quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sobrevivendo à perda de sentido

"Nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantar-mo-nos sempre depois de cada queda." - Confúcio, sábio chinês (551 a.C. - 479 a.C.)

Este era para ser um texto sobre hiperatividade, mas o tema mudou de última hora. Explico o que aconteceu. Terça feira passada trabalhamos com o mito africano de Murilé (se você não leu, clique aqui para ver!), e a repercussão foi maior do que pensei. Várias pessoas me escreveram perguntando e comentando o mito e, entre as principais motivações, duas delas se destacam. Muita gente disse que o mito parecia acabar sem ter exatamente um fim. A primeira vez que ouvi esse mito, também achei isso. O homem é engolido pela terra. E aí? Confesso que imaginei a reação das pessoas ao redor dele. Evitei comentários após essa parte do mito, pois a imagem de ser engolido pela terra após trair a si mesmo tem um simbolismo muito forte, preferi deixar os leitores com a sensação que isso causa e ir direto às reflexões, assim a sensação e o sentimento seriam aproveitados ao invés de simplesmente serem abafados. É importante ter em mente que as visões de mundo dos povos africanos, indígenas e orientais são bem diferentes da ocidental, ainda muito marcada pela ideia romana da conquista a qualquer custo. Lembre-se que os romanos tinham um território muito grande, que englobava vários povos, assim, os mitos precisavam ter começo meio e fim bem claros, garantindo que a interpretação de todos fosse a mais similar possível.

O segundo ponto que gerou certo desconforto em alguns leitores foi o fato de terem se identificado muito com o mito de Murilé. Algumas pessoas escreveram contando que já são mais velhas e sentem que não viveram os sonhos da juventude como deveriam (a esses, eu digo que nunca é tarde demais para ser feliz). Outros, mais jovens, disseram ter medo de que algo ruim lhes aconteça por não darem ouvidos aos próprios planos, descartando-os em favor de viver aquela vidinha que todos dizem ser "a mais adequada". Foi na manhã seguinte (ontem), enquanto eu pensava sobre como o mito de Murilé é muito mais atual do que eu havia imaginado, que minha grande amiga Isadora Kohatsu me questionou: a pessoa pode ter errado, deixado os planos e sonhos de lado e, por isso, ter deixado de ver algum sentido em sua vida. Mas como se perdoar e recuperar esse sentido? 

Desânimo e desesperança são dois dos maiores sinais de que algo já
não faz sentido na nossa vida.
Cabe aqui explicar o que é sentido. A primeira forma de ver o sentido é na forma de percepções através da visão, tato, paladar, olfato e audição, os cinco sentidos que nos ajudam a conhecer nossa realidade. Outra forma é pensando na interpretação racional/emocional de uma ideia: o sentido de uma palavra, de uma teoria, de um relacionamento ou vivência. No entanto, quando eu me refiro a "sentido", penso numa terceira possibilidade, que nada mais é que a união das duas primeiras: como interpretamos racional e emocionalmente aquilo que percebemos, aquilo que a realidade nos mostra? Como interpretamos a nós mesmos, nossas experiências e planos, nossa forma de agir? Nem sempre temos consciência disso (aliás, quase nunca temos), mas todos nós temos um conjunto de ideias, referências e valores pessoais, sempre muito carregados de emoções intensas, que direcionam nossa forma de dar sentido. E essa forma de dar sentido, por sua vez, direciona nosso comportamento, nossas pretensões, enfim, nossa forma de ser no mundo, criando e recriando a realidade e a nós mesmos.

Geralmente paramos de ver sentido nas coisas quando o sentido que víamos não era bem nosso, era meio que "emprestado" da realidade: a fé cega em uma religião ou ideologia sem questionamento algum, a crença inabalável num time ou grupo musical ou artista, a ideia de que tudo vai mudar depois que a pessoa se casar ou se separar ou arrumar o emprego dos sonhos ou tiver filhos ou netos ou se aposentar... Veja que são ideias de senso comum. Isso quer dizer que podemos nos identificar com elas e, em algum momento da vida, todos nós vamos, mas elas não podem ser o que nos mantem em pé, pois somos mais do que tudo isso. Não me entendam mal, não quero dizer que as religiões, as equipes esportivas ou bandas de adolescentes são ruins, mas sim que esses elementos não podem se tornar nossas referências mais fortes, é preciso haver questionamento e reflexão sempre, pois apenas assim nos apropriamos da realidade e, com base nela e em nossos próprios conteúdos internos, construímos nossas próprias referências, ideias e valores. Em boa parte dos casos, apenas aprendemos ainda muito pequenos que esses elementos são os "melhores", "mais corretos", etc., sem que nos seja dada a chance de alguma reflexão ou questionamento. Quando isso acontece, nossas referências são fracas, ou seja, não temos valores sólidos o bastante que nos sustentem frente às intempéries da vida. E aí, frente a alguma situação mais dura, o sentido que somos capazes de atribuir não nos sustenta: o que pode o melhor time de futebol contra a doença grave de um ente querido? O que pode uma religião ou crença política (quando vivida sem reflexão) contra os perigos da violência ou de uma guerra? Como ser fã daquele ator bonitão pode nos sustentar frente ao desemprego, ao bullying, à violência doméstica, a um estupro ou à perda de uma pessoa amada?

A boa notícia é que isso tem jeito. E outra boa notícia é que não precisamos esperar a coisa chegar a esse ponto para tomar alguma atitude. A perda de sentido, ou o fato da pessoa se apoiar em sentidos frágeis, pode ser observada através de alguns sinais, entre eles: desânimo e forte sentimento de desesperança, somatização (de pequenos resfriados e alergias à problemas mais sérios), dores, medos, quadros de ansiedade; ou, ao contrário, apatia, a pessoa sente como se nada nunca fosse melhorar independente de seus esforços, falta de vontade. Podem acontecer também as compulsões: por comida, sexo, compras, trabalho... O sentimento de vazio também é bastante mencionado. Esses sinais podem ser percebidos no dia a dia, ou mesmo no discurso da pessoa.

Como mudar isso? Durante meu mestrado na PUC-SP, percebi que o sentido, para nos sustentar, precisa ser construído por nós mesmos. Aqueles elementos do comecinho do artigo, como as equipes de esporte, os grupos musicais, etc. talvez participem da construção do sentido (ou não, cada caso é um caso), mas o grosso da coisa precisa vir da nossa história (individual, familiar, cultural, social...) e dos planos que temos. De forma bem básica, quando um caso assim surge em terapia, o que procuro fazer é questionar quem é a pessoa, mais do que isso, como ela se tornou o que é. E você, como se tornou essa pessoa que é hoje? Comportamentos destrutivos, dores, depressões, perda de sentido e tantas outras queixas nunca surgem do nada. É preciso identificar em que ponto da nossa história a vida tomou o rumo que tem, assim teremos algo mais concreto com o que trabalhar. A outra pergunta, sobre os planos que temos:  quem desejamos ser? Vou além: e se der tudo errado, qual é seu plano B? Com frequência, o plano B é até melhor que o plano A! Em alguns casos, um dos planos é adoecer, o que digo ser quase um "suicídio passivo" (se é que podemos brincar num caso desses). Claro que isso não é consciente, ninguém planeja ficar doente. Trabalhamos essas questões via inconsciente, com desenhos, mitos, sonhos e outros recursos. Quando o plano é adoecer, a questão do sentido precisa ser revista com urgência, geralmente a pessoa já tem dores e sintomas, ou os tem com frequência maior que o normal. Nossa história, junto com nossos planos e sonhos, são a chave para o sentido que damos à nossa vida, pois é em direção a eles que caminhamos. Entendendo a história (individual, familiar, etc) e os planos, podemos construir um sentido que seja de fato nosso. E aí sim levantar e seguir em frente.

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