sexta-feira, 17 de maio de 2013

Ágora - Diferenças entre homens e mulheres

(não sei se é pertinente, mas uma recente discussão, atiçou minha curiosidade) quem é mais voltado à praticidade das coisas, homem ou mulher? (no sentido de se importar 'para que serve?')
ghesten


Oi Ghesten!
Um dos motivos que me levou a estudar a mente é que, quando o assunto é ser humano, a diversidade é a regra. Percebo, e vários autores da psicologia social (como P. Berger e T. Luckmann), da sócio histórica (L. Vygotsky) e mesmo da psicanálise (descrita por Freud, seu criador, como a "cura pela fala") concordam com isso: nos construímos na linguagem, e também através dela construímos nosso mundo e a realidade em que vivemos.

Mas vamos a sua questão. Existem alguns estudos no campo das neurociências que dizem que o homem tem mais neurônios e que a mulher tem uma rede neuronal mais ampla e eficaz, pois faz mais ligações entre seus neurônios. Outros estudos (estes mais antigos) apontam que em testes de inteligência os homens se saem melhor na parte numérica enquanto as mulheres levam vantagem na parte de linguagem (argumentam inclusive que meninas falam mais cedo que os meninos). Mas veja que esses testes foram desenvolvidos dentro da nossa cultura ocidental contemporânea. Em outras culturas, a situação pode mudar de figura. E muda. A área cerebral responsável pela linguagem, por exemplo, não é a mesma no ocidente e no oriente, porque a lógica e a estrutura linguística das línguas ocidentais são diferentes das orientais. Acho isso incrível! Isso significa que o nosso cérebro não é algo pronto e fechado, não tem um desenvolvimento linear, ele se forma e se desenvolve conforme vivenciamos as experiências da nossa época e cultura, do dia a dia de cada um.

Se eu contar que tenho uma amiga cujo sonho desde pequena era ser engenheira civil, algumas pessoas dentro da nossa cultura podem achar estranho. Talvez achem estranho também se eu contar de um amigo  que trabalha como professor de maternal, formado em pedagogia e pós-graduado em educação pré-escolar. Os dois amam suas profissões e são ótimos no que fazem. Na nossa cultura isso pode causar certo estranhamento, mesmo nos dias de hoje. Mas talvez para outras culturas não. Em algumas tribos indígenas da América do Sul, por exemplo, o homem cuida da caça e da proteção, sente até as dores do parto, restando à mulher tudo o que for relacionado à "vida prática", inclusive a construção das ocas (casas).

Quem é mais voltado para a vida prática? Fica outra pergunta no ar e, como boa psicóloga, devolvo a questão: o que é estar voltado para a vida prática? Veja que este também é um conceito que muda de cultura para cultura, de época para época e de pessoa para pessoa. Para que servem as coisas? Vivemos mesmo num mundo onde tudo é muito utilitário. "Utilitário" quer dizer que, se não tem uso, então não tem valor. Tudo parece ser descartável. O problema é quando essa ideia passa a ser aplicada aos estudos, às artes e, sobretudo, às pessoas. É com base nessa linha de pensamento que ocorrem boa parte dos maus tratos e agressões contra crianças, idosos, pessoas com deficiência ou com a saúde debilitada. Para que servem se nada produzem? Parece que para muitas pessoas nesta nossa realidade, "apenas" ser não é mais um valor...

Mas voltando à questão. As perguntas "para que serve?" e "o que é estar voltado para a vida prática?" me levam a uma terceira: "qual o sentido?" Nos construímos na linguagem. A realidade é construída na linguagem e dar sentido é um processo essencialmente linguístico. Então temos aqui algo peculiar. O sentido das coisas é pessoal! Posso apreender um significado social, mas cabe a cada um dar sentido a esses significados, é fazendo isso que amadurecemos. Assim, somos todos voltados à vida prática, independente do gênero, orientação sexual, faixa etária, nível intelectual, etc. O que muda é o que faz sentido para cada um de nós. Para que serve uma peça de motor de avião? Sinceramente, não me interessaria saber, desde que o avião funcione! Não pelo fato de eu ser mulher, mas pelo fato de que, no meu dia a dia, isso não faz sentido. Para que serve e como funciona o sistema límbico, área cerebral ligada às emoções? Já isso me interessa muito! E talvez não faça sentido para minha amiga engenheira civil, que também é mulher, mas faça muito sentido para meu amigo que é homem e dá aula para crianças pequenas, movidas pelas emoções que sentem. Repare que, também o conceito de gênero, de ser homem ou de ser mulher é aprendido socialmente. Ensinamos isso às nossas crianças o tempo inteiro, quando dizemos para sentar assim, se vestir com a cor x e não com a y, brincar ou não com determinados brinquedos... E aí, ser mulher ou homem numa certa cultura, região ou família é diferente de ser mulher em outras. Vou mais longe, ser mulher para mim, na certa é diferente de ser mulher para minha irmã. A interpretação que temos das coisas passa sim pelo fato de nos considerarmos e sermos reconhecidos como homens ou mulheres porque isso faz parte de quem somos; não pelo fator biológico, e sim pela forma como damos sentido a essa condição e vemos o mundo (também) com base nela.

Espero ter contribuído.
beijo
Bia F. Carunchio


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4 comentários:

  1. Em cultura oriental também temos este estigma representado de papel de homem e de mulher. Nos kanjis (método de escrita japonesa derivado do chines) o kanji para mulher representa uma mulher cuidando dos afazeres domesticos enquanto que o kanji para homem é a união de 2 outros kanjis, o "Da" - Arrozal e "ka" - força o que fica aquele que tem a força para trabalhar no arrozal.

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    1. Interessante isso. Acho que essa informação que você trouxe ilustra bem o que se espera do homem e da mulher nessas culturas. Todas as culturas criam alguma forma de diferenciação de gêneros, no sentido de ocupações e tarefas, comportamentos e características esperadas, etc. Só precisamos lembrar sempre que o sistema não pode se sobrepor ao sujeito, porque se isso acontece, não há autonomia. E, se somos sujeitos, podemos sim ir ao encontro daquilo que nos faz sentir realizados.

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  2. As culturas orientais são muito machistas, ou melhor, ainda são.
    Neste lado do mundo a mulher que evoluía a cada geração, agora evolui a cada instante.

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    1. Sim, as culturas orientais, no geral, são machistas. Mas a nossa também é. Muito. Um machismo tão bem camuflado que muita gente não vê. Concordo que foram várias conquistas, mas ainda falta. Quando olho para a nossa sociedade e vejo que existem leis como a Maria da Penha, não deixa de parecer absurdo que as pessoas precisem de uma lei contra a agressão à mulher. A existência da lei mostra que o problema ainda existe e é sério. Não fossem as leis, muitos achariam que está tranquilo bater em mulher, em criança, discriminar as minorias, estuprar...
      Foram e são muitas conquistas, sim. Mas ainda faltam políticas públicas e bom senso a alguns para haver igualdade.

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