quinta-feira, 2 de maio de 2013

Ativo ou Hiperativo?

"As feridas da alma são curadas com carinho, atenção e paz." - Machado de Assis, escritor brasileiro (1839-1908)

Faz algum tempo que pensei em escrever sobre hiperatividade, atendendo aos pedidos de alguns pais, cuidadores e professores que frequentam o blog. Este é um tema polêmico. É comum que pais e professores passem a suspeitar que suas crianças tenham TDAH (Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) nas ocasiões em que a mídia aborda o tema. Entretanto, a boa notícia é que muitas vezes, as suspeitas não são confirmadas.

A pessoa com TDAH tem a atenção desviada do estímulo principal (a atividade que deveria ser feita), os focos se alternam entre vários estímulos menos importantes (o comentário paralelo do colega, um barulho na rua, um inseto, uma nova ideia...). Quem não tem o transtorno simplesmente ignora os estímulos distratores e mantém o foco na tarefa.
Um transtorno ou síndrome nada mais é do que um conjunto de sintomas. Note bem, conjunto. Quero dizer que ter um sintoma ou outro não significa que a pessoa tenha o transtorno. No caso do TDAH, os sintomas mais comuns são:
- Desatenção, distração, isto é, a pessoa não consegue manter o foco na atividade que está a desempenhar, mesmo que seja uma atividade que a pessoa goste.
- Esquecimentos, dificuldades de memória.
- Dificuldade de aprendizagem (leitura, escrita, matemática, etc.).
- Agitação motora, por exemplo, a criança que não consegue ficar sentada ao desempenhar uma atividade, o adolescente ou adulto que tem o costume de agitar pernas e mãos enquanto conversa, estuda ou desempenha alguma tarefa.
- Impulsividade e ansiedade. Responde perguntas antes de terminarem de ser feitas, conclui (muitas vezes de forma errada) coisas que ainda não foram ditas, no ímpeto de agir, a pessoa não se planeja e não chega aos resultados esperados.
- Perfeccionismo, a pessoa tenta corresponder a um padrão de excelência alto demais e se frustra porque não consegue (não necessariamente devido ao transtorno, mas também porque a expectativa que a pessoa e/ou os outros significativos colocam sobre ela é alta demais para qualquer um de nós).
- Desorganização, perde objetos, documentos e compromissos importantes (chave, documento de identidade, material escolar...).
- Problemas de relacionamentos, são comuns os casos de bullying na adolescência, o rótulo de "pestinha" ou "criança que não aprende" durante a infância e, na fase adulta, o preconceito por ser visto como uma pessoa displicente e que não se compromete.
- Quando pressionado a cumprir tarefas que exigem alta concentração, a pessoa pode apresentar sintomas depressivos e de estresse, por acreditar que não conseguirá cumpri-las.
- Baixa autoestima. Muitas vezes essas pessoas são alvo de preconceito: o "pestinha da sala", a "menina lenta", o "jovem alienado" que não consegue prestar atenção ou lembrar de prazos e compromissos, o "profissional ruim". Muitas vezes a pessoa ouve críticas cruéis e injustas, pois quem tem TDAH não apresenta esses comportamentos de propósito para irritar pais, professores e chefes, e sim porque algumas funções neuropsicológicas (em especial a atenção e o planejamento da ação) não estão devidamente habilitados.
- No adulto, problemas na vida profissional, que podem ir da adaptação ao ambiente profissional até problemas de erros significativos, de relacionamento com colegas, superiores e clientes, etc.

Na certa muita gente se identificou com algum desses sintomas. Talvez tenha identificado alguém que conheçam. Por isso, é importante diferenciar o que é um sintoma e o que é apenas uma característica de personalidade, um sintoma isolado. Muitas pessoas podem se sentir ansiosas, ter baixa autoestima e dificuldades de concentração sem que isso seja um transtorno neuropsicológico. Todos passamos por épocas mais conturbadas, que nos deixam agitados e desatentos. Muitas crianças são agitadas sem que isso exija intervenção de medicamentos. Aliás este é um problema frequente. De tempos em tempos pais me procuram com queixas do filho que é muito agitado e não faz a lição de casa. Mas fica quietinho quando joga vido game! Isso não é hiperatividade. A criança precisa de regras e limites claros e nem sempre os pais conseguem colocá-los. Além disso, a criança precisa de tempo para ser criança: correr, pular, jogar bola... Hoje nas grandes cidades muitas crianças não têm essa oportunidade, seja por excesso de compromissos ou mesmo por falta de espaço. Doutora, mas ele pula no sofá da sala! E tem algum outro lugar onde ele pode pular? Geralmente os pais trocam olhares surpresos, dão um sorrisinho e admitem que não. Seu filho é saudável. Sinto muito pelo sofá.

Ao contrário do que muita gente pensa, o TDAH não afeta
apenas crianças, mas também jovens e adultos.
Outro ponto importante é quem pode ser diagnosticado com TDAH. O transtorno pode afetar crianças, jovens e adultos, mas o diagnóstico só pode ser feito à partir dos 7 anos, pois antes disso a criança ainda não tem as funções neuropsicológicas, como a atenção e o controle psicomotor, desenvolvidos o suficiente para que se possa fechar o diagnóstico. Como mencionei antes, em crianças o TDAH é percebido principalmente na escola, mas para que o diagnóstico seja feito de forma adequada, é importante que as famílias observem o comportamento de suas crianças em outros ambientes e durante atividades não relacionadas à vida escolar: ouve até o fim as perguntas que são feitas? Concentra-se nos jogos e brincadeiras? Nos adolescentes, é comum que o TDAH afete os relacionamentos e a socialização. Surgem problemas como o bullying, dificuldade em fazer e manter amizades, esquecer de compromissos (mesmo dos compromissos que o jovem gostaria de cumprir, como encontrar os amigos no final de semana ou ir a festas). Quanto aos adultos, o TDAH se manifesta de forma bem diferente, sintomas de baixa autoestima, estresse e ansiedade ganham destaque. Com frequência o adulto com TDAH cai em ciclos de autossabotagem, seja protelando suas tarefas, planejando-as de maneira ineficaz ou duvidando de seu potencial, devido à baixa autoestima e aos muitos anos de críticas, bullying e preconceito sofridos. A boa notícia é que, de acordo com o Instituto Paulista de Déficit de Atenção, metade das pessoas que apresentaram TDAH na infância não o apresentam na fase adulta. Por isso é importante o tratamento adequado do transtorno, com isso é possível minimizar os sintomas e suas consequências.

O tratamento geralmente é feito aliando a psicoterapia e o uso de medicamentos. Exercícios de habilitação neuropsicológica contribuem muito para o tratamento e o desenvolvimento de funções como a atenção, o planejamento da ação e o controle psicomotor. Além disso, é interessante que a criança e o adolescente tenham, nos casos necessários, auxílio psicopedagógico e/ou orientação para os estudos, no sentido de ajudá-lo a organizar as tarefas. Para os adultos, sessões de coaching e de planejamento e orientação de carreira podem contribuir muito com o tratamento, facilitando a vida da pessoa. Mas, além de todos esses profissionais, a participação e o apoio da família, dos professores e amigos é fundamental, seja evitando o preconceito e o bullying, bem como incentivando e encorajando a pessoa com TDAH. É importante que as pequenas conquistas sejam reforçadas, com parabéns, sinal de positivo com a mão, estrelinhas no caderno,  abraços, cumprimentos, etc.

Identificou em sua criança ou em você mesmo alguns dos sintomas de TDAH? Procure um profissional de psicologia, para que o diagnóstico possa ser ou não comprovado. Cada caso é um caso, cada pessoa tem suas próprias características. Algumas vezes é normal apresentar sintomas sem que se tenha o transtorno (em fases de maior estresse, por exemplo). Além disso em alguns casos a pessoa apresenta apenas déficit de atenção ou apenas hiperatividade, por isso o caso deve ser avaliado com cuidado. Mas, mesmo que se comprove o TDAH, tenha sempre em mente que essa pessoa é mais do que um transtorno, tem muitas potencialidades e, como todos nós, tem seus talentos e pontos fortes. E pode, sim, levar uma vida normal e feliz.

4 comentários:

  1. Muito bem abordado este assunto Bia.
    É uma coisa importante que pode estar presente em qualquer família.

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    1. Obrigada, Claudio, que legal que gostou.
      Realmente, as famílias precisam ficar atentas e buscar tratamento e orientação quando necessário.
      abraço

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    2. Tem uma tag para ti lá no blogue.
      É sutil, mas ta lá.
      O H. E. e O. P. adverte
      Este comentário vai ser copiado para muita gente - kkk

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    3. Muito obrigada, Claudio, amei!! Super criativo o seu texto.

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