quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mandalas: a busca pelo centro

Preciso começar o texto de hoje contando que amo desenhar e pintar mandalas. Começou como uma brincadeira, mas depois de terminar minha primeira, não consegui mais parar! Passei a ler e estudar sobre o tema, e logo comecei a usar o trabalho com mandalas com alguns dos meus pacientes, com um resultado muito positivo, e pensei, por que não fazer um artigo sobre isso lá no blog? O tempo passou, outros temas furaram a fila, até que há algumas semanas minha amiga Isadora Kohatsu comentou que começou a desenhar mandalas também e sugeriu "você bem que poderia escrever sobre mandalas no blog". Então organizei meu material e aqui está o texto.

Na Índia existe o costume de fazer mandalas
no chão com areias coloridas, para proteger a casa.
Em sânscrito, uma língua falada na Índia antiga, "mandala" significa círculo. Ela é vista como um espaço sagrado, com a presença divina ocupando o centro do mundo. Em rituais religiosos, a mandala funciona como um "apoio" da divindade que simboliza, ou seja, é uma proteção visível, uma imagem de algo que só poderíamos sentir. Mas as mandalas não são apenas um elemento de culturas orientais. Elas existem no ocidente: jardins e praças circulares, fontes, as formas de rosa presentes em catedrais cristãs, e até mesmo as cidades europeias antigas eram construídas em formato de círculo, com muralhas em volta e uma importância especial era dada ao centro. Também tribos indígenas costumam construir suas aldeias em formato de círculo. Na natureza, as mandalas também estão presentes, em flores, conchas, caules... Estão presentes na raiz de todas as culturas. Muitas vezes as mandalas são usadas para contemplação durante a meditação. Por isso, existem mandalas de diferentes tipos e finalidades: regeneradoras, equilibradoras, protetoras e até que estimulam processos corporais.

Para Carl Jung (1875-1961), psiquiatra e psicoterapeuta suíço, a mandala é um símbolo da psique, de forma que o centro da mandala é o centro da psique, que ele denomina self ou si mesmo. Jung representa a psique por camadas, como uma cebola, sendo a parte mais externa o consciente e as mais internas o inconsciente, que se aprofunda mais e mais até chegar ao self, ao centro. O self é o arquétipo da totalidade e completude, simbolizado por unificações, união de opostos, equilíbrio. É o aspecto da psique que nos traz o sentimento de ordem, de viver uma vida que faça sentido. O self faz isso gerando um padrão no nosso inconsciente, que se reflete em todas as áreas da nossa vida, pois tudo que vivenciamos  (interna ou externamente) é simbólico. Estudando os sonhos de seus pacientes, Jung percebeu que formas de mandala costumam surgir quando a pessoa atravessava uma crise na vida, numa tentativa da própria psique de reencontrar um centro, um ponto de equilíbrio. A mandala cria uma ordem psíquica harmoniosa (ou a mantém, caso já exista), mesmo que a pessoa não saiba nada sobre mandalas, sonhar com elas ou trabalhar de forma artística é muito saudável, traz equilíbrio. Em sonhos, a mandala costuma aparecer na forma de roda, leme, pneu, roda gigante, flor, escada em caracol, labirintos ou jardins circulares, conchas arredondadas, ventiladores, pinturas, etc.

E como desenhar mandalas pode ajudar nesse processo de buscar o centro, o equilíbrio? Simples! As artes (desenho, pintura, modelagem, etc.) são terapêuticas, pois nos ajudam a dar forma a emoções e ideias caóticas ou confusas, organizando-as e trazendo-as à consciência. Consciente e inconsciente precisam dialogar para haver equilíbrio psíquico. Eles se completam e um não existe sem o outro. Na arte, a pessoa expressa suas emoções, conflitos e aspectos da vida que estão em maior destaque para ela naquele momento. Todos temos essa capacidade, independente da idade, nível cognitivo ou presença de distúrbio psíquico, pois a criatividade é uma função psíquica que todos temos, é nosso potencial de criar. Desde cedo somos encorajados a expressar nossas ideias racionais com palavras, mas nem sempre o mesmo se dá com conteúdos mais emocionais ou com outras formas de expressão. A expressão através das artes nos permite trabalhar não na lógica linear e de causa e efeito do consciente, mas sim na lógica do inconsciente: não linear, sem tempo ou espaço rígidos. E nessa forma de funcionar diferente, o inconsciente se revela, nos mostrando nossas potencialidades, novos caminhos, desejos e propósitos de vida. Quando recursos artísticos são usados em terapia, é possível chegar mais depressa aos conflitos e traumas do que usando somente a fala.

Exemplo de mandala em vitrais de catedral cristã.
Como já comentei, desenhar faz com que a pessoa dê forma aos seus conteúdos internos, que podem ser trazidos à consciência de maneira ordenada e harmoniosa. Mesmo medos, traumas e conteúdos agressivos podem ser expressos de forma ordenada, e é isso o que torna possível que sejam compreendidos, ou seja, a pessoa atribui um sentido a seus conteúdos, possibilitando a superação do trauma/conflito e a cura. Entretanto, existem pessoas, ou melhor, existem situações em que há uma grande dificuldade em desenhar uma mandala. A psicoterapeuta americana contemporânea Susanne Fincher afirma que apenas desenhar dentro de um círculo já proporciona uma melhora no equilíbrio psíquico, pois de acordo com essa autora, o desenho do círculo simboliza uma barreira protetora ao redor do espaço físico e psicológico que identificamos como nós mesmos. Nesses casos de maior dificuldade, podemos recorrer à pintura de uma mandala já existente. A pintura espontânea nos coloca num estado de relaxamento em que ficamos menos alertas e mais abertos às manifestações do inconsciente. Isso também ajuda na organização interna e no autoconhecimento. Cores estão relacionadas aos nossos afetos e estados emocionais. Quando pintamos, preenchemos uma forma (ideia, conflito, lembrança) de afeto. Cabe a reflexão: quais cores aparecem mais? Com quais afetos você preenche sua vida?

Mesmo que traga conflitos à tona, criar uma mandala é positivo, pois descarrega tensões emocionais. Quando cria uma mandala, a pessoa cria simbolicamente um espaço protetor ao seu redor, seu próprio espaço sagrado. Um local protegido de influências externas, onde a pessoa pode expressar seus conteúdos e trabalhá-los livremente. Isso ajuda a pessoa a encontrar em si uma atitude favorável à vida, experimentando a existência numa realidade harmoniosa, pacífica e preenchida por sentido. Criar e contemplar o que criamos nos tira da passividade, do papel de vítima, nos permite agir com autonomia e conquistar a posição de autor e protagonista das nossas vidas. E este é um grande passo no processo de se conhecer e de se tornar si mesmo (o que Jung chama de individuação). Tornar-se quem somos é a meta do desenvolvimento psíquico.

Estes são alguns dos benefícios de criar uma mandala:
- Aumenta da atenção concentrada.
- Expressa conteúdos internos e desenvolve novas formas de expressão.
- Autoconhecimento, maior contato consigo mesmo.
- Exercitar a criatividade, faz a pessoa se sentir capaz.
- Descoberta de novas potencialidades e novos caminhos. No ato de criar a pessoa pode modificar a si mesma, seus conteúdos e sua realidade, dando-lhes novas formas e novas "cores".
- Equilíbrio emocional.
- Aumenta a autoestima, a busca pela harmonia e equilíbrio nos leva a pensar sobre quem pretendemos ser.

Mandalas podem ser encontradas até mesmo na natureza,
basta olhar com atenção.
E agora, vamos aos procedimentos para criar uma mandala. Se você estiver com muita dificuldade de desenhar, ou mesmo se não se sentir bem desenhando dentro de um círculo, pode optar por apenas colorir uma mandala. No final do artigo de hoje coloquei algumas das mandalas que uso com meus pacientes, que você pode imprimir e colorir. Não há limite de tempo. Arrume o local: mesa e cadeira, o ambiente deve estar com luminosidade adequada. Peça para não ser interrompido. Deixe seu material por perto: lápis grafite, compasso, papel, material para colorir (lápis de cor ou giz de cera, de preferência). Se quiser, pode colocar uma música tranquila. Sente-se, respire profundamente e concentre-se. Tente não pensar em nada por alguns momentos, mas também não rejeite possíveis imagens ou sentimentos que surgirem, é o inconsciente começando a se abrir. Então é hora de criar! Marque um centro e trace o círculo externo. Partindo daí, a liberdade para criar é total. Quando terminar, é hora de colorir. Costumo pedir aos meus pacientes para começar a pintar pela camada mais externa da mandala e só passar à seguinte quando a primeira já estiver terminada. Seguindo esta ordem, só passando para a camada mais profunda quando as anteriores já estiverem prontas, seguimos o mesmo caminho do inconsciente de Jung. Esta ordem ajuda a pessoa a entrar em contato consigo mesma de forma mais organizada. Também é possível começar pelo centro, só passando às camadas mais externas quando as internas estiverem terminadas, trazendo o inconsciente para fora. Mas lembre-se que para sair, antes precisamos entrar! Quando terminar, contemple sua mandala. Se ao expressar nossos conteúdos na arte lhes damos forma, quando contemplamos voltamos a interiorizar esses conteúdos, mas agora de maneira ordenada e harmoniosa, com mais equilíbrio e menos conflitos.

Ah, uma coisa importante! Depois que terminar a mandala, vá fazer alguma coisa. Não fique jogado no sofá assistindo televisão, faça algo ativo. Pode ser uma caminhada num parque ou nas ruas do seu bairro, pode cozinhar, escrever alguma coisa, praticar algum esporte... Fazendo algo ativo permitimos que a energia psíquica do inconsciente seja "usada" em nossa vida. A mandala é um símbolo de quem a cria. Elas surgem espontaneamente quando a psique está em processo de reequilíbrio e transformação.   


Mandalas para colorir, de minha autoria:

Para imprimir as mandalas, clique sobre a mandala escolhida, a foto irá se abrir. Então clique sobre ela com o botão esquerdo do mouse e salve a imagem. Então é só abrir o arquivo e mandar imprimir. 




8 comentários:

  1. Não tem como ler esse texto e não ligar imediatamente à necessidade, os motivos, de fazer o círculo mágico na bruxaria :)
    Parabéns Bia, e obrigada pelo texto!

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    1. Obrigada, Rosea! Acho lindo como as diversas áreas do conhecimento humano, ciências, religiões e filosofias podem compartilhar símbolos e caminhos. bjs

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  2. Amei o texto, e colori uma esses final de semana, a minha primeira, Amei! Entrei um pouco em conflito pois não consegui mudar de cores eu queria mas não conseguia. Achei super interessante quando vc disse que para sair, antes precisamos entrar e comecei a colorir a minha de dentro pra fora... Muto Obrigada pelas dicas ! abraços Juliana

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    1. Que legal que gostou, Juliana! Mesmo quando nos sentimos em conflito ao colorir a mandala, a experiência nos ajuda a ficar mais equilibrados psiquicamente. As cores contam muito sobre as nossas emoções, sejam essas emoções conscientes ou não. Por isso, que bom que você se permitiu usar as cores que "precisavam" vir. Essa é uma forma bastante agradável da gente se conhecer melhor. Bjs

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  3. AMEI o texto!!! Você é uma pessoa incrível! Parabéns mais uma vez moça!! :D

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  4. Numa aula de yoga a instrutora fez um trabalho de desenhar mandalas. Eu gostei tanto que comprei um caderno para desenhar quando as emoções pedissem. Há bastante tempo não desenho lá. Mas dias depois que minha filha nasceu, em setembro desse ano, a enfermeira obstétrica que me atendeu no parto veio me visitar e pediu para eu fazer um desenho representando meu parto, e eu imediatamente pensei numa mandala! Eu escaneei a mandala que desenhei e o que escrevi sobre ela, mas fiquei pensando se as cores, as formas, não teriam um significado além daquele que eu descrevi. Fui fazendo de fora para dentro, cada camada representando uma etapa do trabalho de parto, até chegar no centro, que foi o momento que a minha filha nasceu. Parabéns pelo texto! Vou ler mais aqui no seu blog sobre as mandalas.

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    1. Que experiência mais emocionante e profunda, Clarissa! A mandala, como símbolo da totalidade e o centro como representação do todo, do seu Eu mais profundo, já contam muito sobre sua visão da maternidade e do parto como uma experiência integradora, um verdadeiro rito de passagem. Pintar de fora para dentro mostra bem o mergulho na experiência de tornar-se mãe.
      Ah, as cores e formas têm sim um significado maior. Sobre as cores, você pode conhecer um pouco no artigo "As cores nas mandalas" - http://biacarunchio.blogspot.com.br/2013/07/as-cores-nas-mandalas.html - Quanto as formas, em breve teremos um artigo sobre isso. :)
      beijos

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