terça-feira, 28 de maio de 2013

Mythos - Héstia: o fogo sagrado que nos anima

Héstia, na Grécia Antiga, é a deusa do lar e da lareira. Apesar de aparecer em poucos mitos, esta era uma deusa muito respeitada e sempre cultuada em todas as cidades da Grécia e, mais tarde, de Roma (onde se chamava Vesta). Lembrem-se que apesar de parecidas, Héstia e Vesta não são a mesma deusa! Gregos e romanos tinham valores e ideais bem diferentes uns dos outros. Assim, a ideia de "lar" e de "sentir-se em casa" era diferente para cada povo. Em Roma, Vesta era a personificação do fogo doméstico, que jamais podia se apagar, pois esse fogo era sagrado, simbolizava os lare, os ancestrais. Repare que foi dessa palavra que surgiram outras como "lar" e "lareira" (e reparem também nas tradicionais fotos de família colocadas perto das lareiras!). Já na Grécia, Héstia era a deusa do fogo sagrado, do lar, protegia as famílias e as cidades. Mas o conceito grego de lar era mais amplo, as cidades eram lares também. As cidades eram fundadas e colonizadas para serem "casas", ao contrário do romano que deixa a casa para trás e se aventura em terras estrangeiras... Todas as cidades gregas tinham um templo dedicado a Héstia, onde o fogo nunca poderia se apagar. Esse fogo era trazido de outro templo de Héstia, ou era aceso diretamente do calor do sol, pois o fogo sagrado de Héstia simbolizava a continuidade. Mesmo nas casas, o fogo das lareiras nunca devia ser apagado, a não ser em sinal de luto.

Héstia é filha de Cronos, o tempo, e Réia, a energia da terra. Ela foi a primeira filha do casal, portanto, a primeira deusa a nascer (pois Cronos e Réia não eram deuses, mas sim titãs). Mas o pai de Héstia tinha um costume pouco comum. Ele engolia seus filhos assim que nasciam. Claro que, como os costumes de todos nós, o de Cronos não era obra do acaso. Quando mais jovem, ele castrou o pai, Urano, que tinha ciúme dos filhos e tentava lhes fazer mal. Assim, Cronos destronou o pai. Porém, o Oráculo havia previsto que também Cronos seria destronado por um de seus filhos e era para evitar essa situação desagradável que ele os engolia assim que nasciam. Engoliu Héstia, depois Deméter, Hera, Hades e Posídon. Até que Zeus nasceu e, farta de ver seus filhos sendo devorados pelo companheiro, Réia escondeu o menino. Quando cresceu, Zeus foi até Cronos e o forçou a "vomitar" os irmãos, que saíram do estômago do pai na ordem inversa em que foram engolidos. Depois, unido aos irmãos, Zeus e os deuses se engajam em batalhas e prendem os titãs no Tártaro (a região mais profunda do reino dos mortos, para onde iam apenas os piores criminosos). Assim, os deuses assumiram o controle do mundo. Mas esta é outra história. Hoje vamos nos ater a Héstia. Dei essa volta no mito para explicar que Héstia foi a primeira a nascer e a última a sair do estômago de Cronos, que podemos interpretar como um "segundo útero", um segundo período de gestação. Foi a que ficou mais tempo reclusa. Se repararmos na personalidade de cada um desses deuses, o tempo passado no estômago de Cronos influenciou muito suas personalidades, em especial a abertura para o mundo e para o outro. Zeus, o arquétipo do líder, é o único que não foi engolido. O agitado Posídon, deus dos mares, de emoções incertas que podiam ser revoltas como o oceano em noite de tempestade, foi o primeiro a sair. Hades foi o segundo e é um bom governante, mas do mundo dos mortos (inconsciente). Hera foi a próxima, é voltada para o outro, mas seu foco é o casamento, a união estável com uma só pessoa (para o desespero dela, Zeus). Deméter, a penúltima a sair, é ainda mais introvertida nesse sentido, voltada para a maternidade. E, por fim, saiu Héstia.

Héstia, tendo sido a que mais permaneceu no estômago de Cronos, é uma deusa pacífica, que nunca se envolveu numa guerra. Também é uma deusa virgem. Na mitologia grega existem três deusas virgens: Héstia, Atena e Ártemis. Em todos os casos, foram elas mesmas quem decidiram se manter virgens. Isso simboliza que são mulheres autossuficientes, confiantes, invulneráveis e que se sentem livres para viver como escolherem. Mesmo assim, Héstia teve alguns pretendentes, entre eles Posídon e Apolo (deus que leva o carro do sol). Apesar de Posídon complementá-la bem (pois Héstia é a deusa mais centrada e Posídon um dos mais expansivos em todos os sentidos); e do racional Apolo ver na deusa exatamente o que buscava (maturidade emocional, uma mulher tranquila e sábia), Héstia recusou os dois. Não apenas por ser muito fechada em si (tanto que ela até mesmo abriu mão de sua cadeira no Olimpo em favor de Dionísio!) ou por não querer ser parte desse mundo caótico (que melhor lugar para escapar do caos e da confusão do dia a dia que o lar?). Mas sim porque Héstia escolhe a si mesma ao invés do outro. Ao ser centrada, ela reconhece a si mesma como o centro de sua vida (curiosidade: nas casas típicas da Grécia Antiga, a lareira ocupava o centro da construção).

Muitas vezes essa deusa é vista como passiva, quase "apagada" (perdão pelo trocadilho!). Mas não é bem isso. O fogo é o elemento que significa a transformação, ou melhor, a transmutação, pois faz com que aspectos desfavoráveis se tornem favoráveis (o exemplo mais clássico é o processo de cozinhar os alimentos, extraindo deles o melhor sabor e textura; ou o fogo dos alquimistas, capaz de transmutações incríveis). Além disso, o mitólogo Junito de Souza Brandão aponta que uma crença comum na Europa antiga e medieval era que o fogo teria surgido da vagina das bruxas. E esse simbolismo é lindo, pois entrega à mulher o poder de criar e transformar, o poder de transmutar. Héstia, quando vista sob esta luz, não é passiva, ao contrário, cria e recria, transmuta o lar, as famílias e cidades... e, com eles, transmuta costumes e ideias, de forma tão sábia e discreta que a ação pouco é percebida, mas os efeitos são duradouros: o fogo sagrado nunca se apaga!

Questões para reflexão:
1- Onde você se sente em casa? Como é o seu sentimento de estar em casa? 
2- Quem é você quando está num lugar completamente protegido, onde pode se permitir viver sem ter de lidar com pressões e expectativas de outras pessoas?
3- Pensando na casa não como a nossa morada, mas sim como o nosso corpo (a casa da psique!), você se sente "em casa" nesse corpo? Por que? O que precisaria ser modificado (pensando em hábitos, alimentação, cuidados, a forma como você se percebe...)?
4- Como é a sua morada interior? Escreva sobre ela e sobre como é estar nesse lar, ou faça um desenho ou colagem representando-o.
5- O fogo sagrado de Héstia é a alma da casa. Qual é seu fogo sagrado? O que te anima? O que te traz o sentimento de continuidade, o que te faz continuar seu caminho?

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