terça-feira, 7 de maio de 2013

Mythos - Ioi e o marido fantasma: perceber a verdade

Hoje temos um mito do povo Chinook, nativos do noroeste da América do Norte. Esse povo não era nômade como outros grupos indígenas, e sua sociedade era organizada em castas de maior ou menor status. As castas mais altas tinham o costume de pressionar a cabeça de seus bebês de maneira a achatá-las, pois as pessoas de cabeça achatada eram vistas com status social superior às de cabeça arredondada, marcando assim a diferença de classe social. Viviam da caça e da pesca, em especial da pesca de salmão. Tinham poucos conflitos com povos vizinhos e suas casas eram longas, nelas viviam mais de 50 pessoas. Hoje os Chinook buscam ser reconhecido enquanto povo pelo governo dos Estados Unidos.

Segundo um dos mitos Chinook, numa aldeia vivia uma jovem chamada Ioi e seu irmão mais novo, Gaio. O rapaz era conhecido entre todos por pregar peças e se divertir com as dificuldades das outras pessoas. Ioi se entristecia com isso, pois devia cuidar do irmão, mas ele fugia de suas responsabilidades, fingia que entendia errado as instruções da irmã e se explicava dizendo que "Ioi sempre conta mentiras". Certa noite, Ioi olhava as estrelas quando um fantasma apareceu e eles conversaram. Quase me esqueço de dizer que Ioi era especial: podia ver, conversar e tocar nos fantasmas. Acontece que naquela noite, Ioi e o fantasma se apaixonaram, mas só poderiam se casar se Ioi fosse viver na terra dos mortos, entre quem os Chinook chamavam de "Povo Sobrenatural". Gaio não gostou muito da ideia, mas o fantasma era bom e gentil com Ioi, trouxe até mesmo dentes de animais como presente. Eles se casaram e logo depois da festa, desapareceram para a terra dos mortos.


Um ano depois, Gaio sentia falta da irmã e resolveu ir às terras do Povo Sobrenatural para visitá-la. Mas Gaio continuava sendo o mesmo pregador de peças de sempre. Chegando lá, achou que tudo era muito estranho. No mundo dos mortos, os fantasmas tinham a forma de esqueleto. O irmão mais novo do marido de Ioi ofereceu-se para levar Gaio para pescar. Gaio via os barcos da terra dos mortos como velhos e esburacados, cobertos por musgo como se estivessem abandonados. Os salmões que pescavam, pareciam troncos cobertos de musgo aos olhos de Gaio, apesar do rapaz fantasma dizer como eram bons. Durante a pescaria, Gaio percebeu que quando ele gritava, o fantasma se desmontava e passava de esqueleto a pilha de ossos. E desde então passou a se divertir muito assustando os fantasmas com gritos e vendo-os  desmontar. Ele misturava os ossos e montava formas bizarras com corpos de adulto e cabeças de criança, e ria quando a coisa ganhava vida. Logo o Povo Sobrenatural se cansou de Gaio e suas brincadeiras de mau gosto. Então, o marido de Ioi pediu a ela que enviasse o irmão de volta para casa e assim ela fez, dando-lhe cinco potes com água e pedindo para que ele apagasse cinco incêndios. Mas, como sempre, Gaio não ouviu a irmã e disse que "Ioi sempre conta mentiras". Ele derramou a água de qualquer jeito e, quando chegou ao último incêndio, não havia mais nada nos potes. Gaio morreu queimado.

Quando chegou outra vez ao mundo dos mortos, Gaio se recusava a acreditar que havia morrido, afinal, "Ioi sempre conta mentiras". Mas logo percebeu a verdade. O salmão que antes parecia apenas um tronco velho, tinha a carne mais deliciosa que Gaio já havia provado. Os barcos eram os mais lindos que ele já havia visto. E o Povo Sobrenatural já não se reduzia mais a pilhas de ossos com seus gritos, aliás, pareciam pessoas bem vivas e não esqueletos! Gaio estava morto. Ele, então, passou dias incomodando os curandeiros para que o revivessem, mesmo quando eles diziam que, no caso de Gaio, não poderiam fazer nada para mudar a situação. Como o rapaz continuava a importunar, os curandeiros ficaram furiosos e o enlouqueceram. Quando Ioi encontrou o irmão, ele estava dançando de cabeça para baixo. Ela então declarou que "agora sim Gaio está morto de verdade, ele perdeu a razão".

Questões para refletir:
1- Gaio agia de forma impulsiva, ignorando as próprias responsabilidades e, quando as coisas não saiam como esperado, culpava as "mentiras" da irmã. Você reconhece este comportamento em si mesmo? Se sim, em que setores da sua vida? O que ou quem você culpa?
2- As coisas na terra dos mortos pareciam sem vida e feias até Gaio olhar para elas como um nativo, como alguém que faz parte daquele grupo. Existe algo em você ou em sua vida que parece morto? Talvez um novo olhar poderia reviver esse lado seu.
3- Perceba que no mito, o absurdo não está em Ioi se casar com o fantasma ou nas pessoas transitarem entre as terras dos vivos e dos mortos, mas sim em deixar de ver as coisas com clareza, da maneira como se apresentam e não com ilusões e se deixando levar por aparências.  Existe alguma situação em sua vida que você se recusa a aceitar, tal como Gaio se recusava a aceitar o fato de estar morto? Se sim, provavelmente isso repercute de forma prejudicial para você mesmo, como pudemos ver no mito: Gaio enlouquece e passa a estar de fato morto, ou seja, fadado a uma existência sem razão, uma quase não existência. Experimente contar a situação em voz alta para si mesmo. Se quiser, pode escrever. Lembre-se que as palavras não ditas podem causar ainda mais estragos do que as palavras mal ditas.

2 comentários:

  1. Pobre Gaio, posso vê-lo em quase toda parte.
    Adorei o texto, a forma como nos faz pensar. Parabéns!

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    1. Muito obrigada!
      Sobre o Gaio, perder a razão é perder nosso poder de agir na nossa própria vida. Se a gente foge das responsabilidades, acaba, sem perceber, fugindo também das escolhas... e aí, mesmo que não morra, também "não vive"!

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