terça-feira, 14 de maio de 2013

Mythos - Tristão e Isolda: morrer é afastar-se do amor

Nossa conversa de hoje será com base numa lenda de origem celta, Tristão e Isolda. É uma lenda que aborda a jornada do herói, com todas as lutas e aventuras que envolvem a descoberta de si mesmo, mas é também uma lenda que aborda os encontros e desencontros com o outro, o amor. Existem muitas versões desta lenda e, como eu já disse outras vezes, o fato de existirem diversas versões de forma alguma a desqualifica, muito pelo contrário, as diferentes versões enriquecem as lendas e mitos, pois mostram a variedade de olhares possíveis sobre a mesma situação.

Há uma versão que conta que Tristão era órfão de pai e mãe, criado pelo seu tio, o Rei Mark da Cornualha. Em outra, ele é filho do Rei Rivalen, sua mãe morrera durante o parto, daí o nome Tristão, "aquele nascido do pesar". O pai de Tristão casou-se outra vez e a madrasta judiava do menino. Certa noite, deixou perto da cama dele uma taça de prata com veneno, na esperança que Tristão bebesse durante a noite e amanhecesse morto. No entanto, quem bebeu o veneno foi o filho invejoso da madrasta, que tinha muito ciúme de Tristão. Isso só aumentou a fúria da madrasta.

Os anos se passaram e, numa nova tentativa de se livrar do enteado, a rainha sugere ao rei ordenar que Tristão viaje e conheça outras terras, para aprender as artes da cavalaria. Tanto o rei quanto o jovem se animam e assim é feito. Após algum tempo correndo outras terras, o escudeiro sugere: "por que não vai ao Castelo de Tintagel? Na Cornualha, seu tio, o Rei Mark, o receberá com alegria e ficará feliz em ensinar-lhe as artes da cavalaria." Tristão ainda protestou, mas o escudeiro insistiu: "nestas estradas você apenas enfrentará bandidos comuns, ladrões de galinhas, e não é lutando contra eles que se tornará cavaleiro."

Chegando à Cornualha, o Rei Mark recebeu o sobrinho com festa. Logo nos primeiros dias, surgiu a chance de Tristão provar seu valor, quando um cavaleiro irlandês chegou para cobrar uma dívida que o Rei Mark não achava justa. "Façamos assim, eu desafio seu melhor cavaleiro a me enfrentar até a morte. Se ele me vencer, a dívida será perdoada." dizia o cavaleiro. O Rei Mark aceitou e lá foi Tristão enfrentar o irlandês numa ilha deserta, próxima à costa da Cornualha. Mal desembarcou, Tristão afundou o próprio barco. "Apenas um de nós sairá desta ilha, de modo que não precisamos de dois barcos", justificou. Lutaram e, ao pôr do sol, um cadáver irlandês jazia na areia da praia. Tristão não estava muito melhor, tinha inúmeras feridas do combate. O corpo do cavaleiro irlandês foi enviado ao rei da Irlanda, acompanhado de uma carta contando os acontecimentos recentes e exigindo a anulação da dívida. Acontece que o morto era irmão da rainha da Irlanda, que ficou furiosa. Ela retirou uma lasca da espada de Tristão do corpo do irmão e jurou aos deuses que o assassino de seu irmão pagaria pelo que fez.

Enquanto isso, na Cornualha, Tristão custava a se recuperar. Não vendo alternativas, o Rei Mark chamou uma feiticeira que vivia nas imediações do castelo. "A cura não está aqui, mas nas terras daquele que causou seus ferimentos." Declarou a mulher. E lá se foram Tristão e o escudeiro para a Irlanda, claro, escondendo a verdadeira identidade do rapaz. O rei da Irlanda os recebeu muito bem e disse que a filha, Isolda, era ótima com ervas medicinais. Após algumas semanas sob os cuidados atenciosos da bela Isolda, Tristão estava completamente curado e completamente apaixonado pela princesa. Ela contava a Tristão as mais belas histórias de sua terra enquanto ele lhe fazia versos e a encantava com a música de sua harpa. Mas algo interrompeu o belo romance dos jovens. Ou melhor, alguém, Palomides, um rei árabe que veio pedir a mão de Isolda em casamento. Incerto em entregar a filha a um estrangeiro, o rei da Irlanda promoveu um torneio. O vencedor poderia se casar com Isolda. Mas o árabe era um grande combatente, derrotou até mesmo alguns dos cavaleiros do Rei Arthur. Desesperado por ver Isolda prestes a ser dada em casamento ao homem, Tristão apresentou-se na arena de combate e, para surpresa de todos, derrotou Palomides. O rei alegrou-se ao anunciar que Tristão e Isolda se casariam na primavera. Mas quem não se alegrou foi a mãe de Isolda. A rainha notou que faltava uma lasca na espada do futuro genro e, pasma, verificou que a lasca de metal retirada do corpo do irmão meses atrás se encaixava com perfeição na espada de Tristão. Ela chamou os guardas e exigiu que o rei tomasse providências, jamais permitiria que a filha se casasse com o assassino de seu irmão! Claro que, desesperada e aos prantos, Isolda implorou ao pai que poupasse a vida do amado. "Está certo." Decidiu o rei. "Tristão não será condenado à morte, mas o casamento não pode acontecer. E quero que Tristão deixe a Irlanda ainda hoje!" Antes de partir, os jovens se despediram e Tristão declarou que "morrer é se separar daquilo que se ama." Isolda, comovida, acrescentou: "Então agora morreremos nós dois, mortos em vida."

De volta ao Castelo de Tintagel, ninguém aguentava mais ouvir Tristão falar sobre Isolda. Até que, para a imensa surpresa do rapaz, o Rei Mark declarou que estava, também ele, apaixonado por ela. E tinha mais! Queria que Tristão voltasse à Irlanda e pedisse a mão de Isolda em seu nome. O jovem ainda tentou argumentar, mas o rei insistiu: "Ela está perdida para você, mas não para mim. Se você a ama, vá e faça o que pedi, assim eu ganho uma linda esposa e você uma linda tia!" Aquilo foi o fim para Tristão! "Com todo o respeito, tio, eu amo Isolda como um homem ama uma mulher, e não como um sobrinho ama a esposa do tio." O rei riu e concluiu: "mas é melhor ter sua bela Isolda por perto como tia do que não tê-la de maneira alguma!"

Sem ter escolha (porque o pedido de um rei  nunca era uma escolha), Tristão desembarcou na Irlanda outra vez. Conversou com o rei e, como o tio lhe havia instruído, explicou-lhe como seria lucrativo e vantajoso para ambos unirem as duas coroas. Isolda estava desesperada, não queria se casar com o tio de seu amado! A mãe, vendo a tristeza da filha, tentou dizer que com o tempo o amor nasceria, mesmo sabendo que era mentira. Então, deu uma garrafa com uma poção do amor a uma das servas que acompanharia a filha dizendo que servisse o "vinho" ao casal após a cerimônia de casamento, quando ambos estivessem a sós. Durante a viagem para a Cornualha, a serva viu o quanto Tristão e Isolda se amavam e resolveu desobedecer a rainha, servindo-lhes a poção. Mas a moça os deixou a sós, Tristão e Isolda não conseguiam mais renunciar à paixão que sentiam. Amaram-se por todo o caminho até a Cornualha.

"E agora, o que faremos?" Isolda preocupou-se pouco antes da cerimônia de casamento. O Rei Mark não gostaria nada de saber que sua noiva não era virgem. E gostaria menos ainda de saber que o amante era o próprio sobrinho. "Não se preocupe!", disse a serva. "Eu que causei o impasse, portanto esta noite tomarei seu lugar na cama do rei." O Rei Mark estava tão bêbado após a festa de casamento que nem se deu conta que a  jovem não era Isolda. Mas as coisas não estavam resolvidas. O povo fala. Ah, e como fala! Não se passava um dia sequer sem que alguém tentasse dizer ao rei que Tristão e Isolda eram amantes. O rei os vigiava, mas sempre via encontros inocentes entre a esposa e o sobrinho. Cansado dos boatos, o rei não viu alternativa a não ser pedir a Tristão que se afastasse da Cornualha por alguns anos. Mas Tristão não iria embora sem antes despedir-se de Isolda! Encontraram-se numa gruta e o que era para ser apenas uma conversa logo se tornou um beijo, e outro, e ouro... Os jovens se amaram até adormecerem, tendo entre eles a espada de Tristão. Num triste acaso, o Rei Mark entrou na gruta e viu o sobrinho e a esposa adormecidos. Mas estavam vestidos! Teria mesmo ocorrido algo entre eles? O rei trocou a espada de Tristão pela própria, sinalizando que esteve lá, e deixou a gruta em silêncio. Quando despertaram, entraram em pânico. Numa versão da lenda, o casal foge, renunciando à vida entre a nobreza e vivem juntos e felizes num casebre na floresta por muitos anos. Em outra versão, Isolda implora a Tristão que deixe a Cornualha, pois não sabia se o Rei Mark o perdoaria. Ele fez o que a amada pediu e partiu.

Tristão chegou a Camelot no dia exato indicado pelo Merlin, o sábio mago que aconselhava o Rei Arthur. Foi recebido com alegria e prontamente acolhido entre os cavaleiros da távola redonda. Mas o Rei Arthur notava que o novo amigo era um homem triste. "Apenas outra Isolda pode tirar de mim a tristeza que sinto!", Tristão confessou ao rei. Querendo ajudar o rapaz, o Rei Arthur convidou outra Isolda para visitar seu castelo, Isolda das Mãos Brancas, filha de um duque da região. A moça era linda e amável, e se apaixonou por Tristão no mesmo momento em que o viu. Ele, no entanto, descobriu com pesar que Isolda alguma substituiria a amada... Mas, sabendo que jamais a teria, casou-se com a nova Isolda. O casamento era infeliz. Tristão vivia frustrado e Isolda das Mãos Brancas tentava a todo custo parecer-se com a Isolda da Cornualha. Chegou a passar meses de luva para que suas mão ficassem ainda mais brancas, como as da Isolda amada. "De fato clarearam, mas as mãos da minha Isolda serão sempre mais brancas que as suas." Disse Tristão. Estava plantada a semente da discórdia no coração da esposa.

Então Tristão passou a se envolver em inúmeras batalhas, na esperança de que alguma delas lhe tirasse a vida e desse paz ao seu coração. Numa dessas batalhas, ele foi muito ferido e, era certo, não se recuperaria. Pediu, assim, ao escudeiro que fosse à Cornualha buscar Isolda. Não seria apropriado, mas ele precisava vê-la pela última vez antes de morrer. Pediu ainda que, ao se aproximar de Camelot, trouxesse uma bandeira branca se Isolda estivesse com ele, e negra caso não estivesse. A esposa ouviu tudo e começou a tramar sua vingança... Na Cornualha, deu-se um impasse. O Rei Mark dizia que não seria apropriado que Isolda fosse a Camelot, mas ela disse que iria com tanta autoridade que o marido não ousou argumentar.

"Ouço cavalos se aproximando." Tristão declarou em seu leito de morte. "Veja de que cor é a bandeira que trazem.", pediu à esposa. Isolda das Mãos Brancas foi à janela e mentiu ao marido: "negra como noite sem lua!" Naquele momento, Tristão entregou-se a morte. Momentos depois, o escudeiro entrou nos aposentos de Tristão com a Isolda da Cornualha. Ela, vendo o amado morto, não suportou e morreu também. Comovido com a história, o Rei Mark os enterrou lado a lado. No lugar onde cada um estava enterrado, nasceu uma roseira e ambas se entrelaçaram como amantes. Com raiva, o rei as arrancou, mas elas sempre voltavam a nascer e a se entrelaçar. O Rei Mark não teve alternativa a não ser deixar os amantes em paz.

Questões para reflexão:
1- Tristão e Isolda disseram que separar-se do que se ama é morrer em vida. Algo assim já te aconteceu? Quando e como foi? Existe algo que se possa fazer para restabelecer a harmonia?
2- Quando a bruxa diz a Tristão que o remédio está na terra daquele que o feriu, ela diz algo sábio: ao ir atrás das nossas metas não podemos agir de maneira aleatória, precisamos ter objetivos claros e tomar o caminho que nos leve a ele. Seja nos relacionamentos ou em outros setores da vida.
3- Um pensamento para reflexão: ao comparar Isolda das Mãos Brancas à Isolda amada, Tristão percebeu que, ao menos no coração, as pessoas não podem ser substituídas. E nem é prudente fazer comparações, foi assim que ele despertou no coração da esposa o ciúme e o ódio por uma pessoa que o próprio Tristão já considerava perdida para ele.
4- A lenda deixa a questão: Tristão e Isolda amavam, de fato, um ao outro ou amavam a sensação arrebatadora de amar e ser amado? E você, o que ama?
5- Após inúmeras tentativas de impedir o casal de permanecer junto, não resta escolha a não ser deixá-los em paz. Para você, como é esta imagem? O que é ser deixado em paz?

2 comentários:

  1. Não conhecia a lenda... É bem interessante e suas perguntas pertinentes para o auto-conhecimento.

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    1. Obrigada, Aline, que legal que você gostou. Os mitos e lendas, mais do que belas histórias, são um bom caminho para a gente se conhecer e fazer nossas escolhas com consciência.
      abraço

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