quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ritos de passagem, ciclos e celebrações

"Mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento." - C.S. Lewis, teólogo e escritor britânico (1898-1963)

Vivemos num mundo pobre em rituais. Ou melhor, pobre em rituais que façam sentido para as pessoas desta época. A maioria dos ritos de passagem que temos são laicos e/ou são reduzidos a "apenas uma festa". E aí o verdadeiro sentido dessas celebrações se perde. Veja as formaturas, as festas de 15 anos das meninas, os casamentos, os funerais... Ou são só festas ou são apenas coisas que chegam e passam. Não nos remetem a um ciclo, e aí perdemos a oportunidade crescer com esses eventos. A cultura ocidental de hoje, ao reduzir os rituais de passagem dessa forma, faz com que as pessoas tenham dificuldades em perceber os ciclos que compões a vida. E distanciando-se desses ciclos, ficamos alienados, no sentido de que o tempo passa a ser uma grande reta, e não uma espiral. Quando o tempo é uma espiral, a vida ganha ciclos, ganha movimento e dinamismo. Um ciclo pode ser comparado aos que vieram antes, e isso nos dá referências, nos tranquiliza frente ao futuro. Ficamos mais confiantes e amadurecemos, pois os ciclos anteriores nos ensinam a lidar com situações semelhantes, mesmo que a semelhança seja bem genérica, como "a parte triste do ciclo", como uma paciente definiu brilhantemente certa vez. Se o tempo é uma reta, o passado não é trazido à consciência, ao contrário, fica cada vez mais para trás, e mais distante de nós. Cada acontecimento precisa ser um espetáculo para que a vida vivida num tempo linear ganhe algum colorido. E aí temos pessoas mais preocupadas em passar uma imagem do que em aproveitar os momentos da vida (seja desfrutando os agradáveis ou refletindo com os desagradáveis). Como consequência, temos algumas aberrações, como "adolescentes" com mais de 40 anos (aquelas pessoas que resistem a amadurecer, no sentido de se responsabilizarem por si mesmas, por suas necessidades e desejos), casais em que um não consegue perceber o companheiro/a com clareza, profissionais com grande dificuldade em assumir um papel ético e coerente com sua ocupação, pais que não se percebem com a função de dar limites às suas crianças, pessoas que se sentem inúteis, feias ou ultrapassadas com a chegada da maturidade, e por aí vai.

Ritos de passagem encenam o ciclo de vida - morte
 - vida, momento em que temos a oportunidade de
renascer, de recriar a nossa vida de um jeito
que faça sentido para nós.
Gosto de comparar a situação da nossa civilização às mais antigas. Qualquer povo antigo que você pensar (gregos, romanos, egípcios, mesopotâmios, celtas, nativos das Américas, chineses, japoneses, indianos, africanos...) tem ritos de passagem. E mais: esses povos não se limitam a ritos de passagens individuais, dos ciclos de vida de cada pessoa, mas têm ritos de passagem coletivos em que se celebram as passagens da natureza (como as estações do ano, fases da lua, o ciclo menstrual das mulheres, etc.), do dia a dia do povo (festivais de plantio e colheita, de caça, de preparação para batalhas...) e ainda festivais que honram uma história, seja ela uma história humana (dia da independência, da desocupação nazista em alguns países, da libertação dos escravos, etc.) ou da história que remete a um passado mítico, às origens de um povo ou à uma grande transformação que tenha passado (o Natal dos cristãos, a Páscoa dos judeus, as celebrações dos Mistérios de Elêusis dos gregos...). Essas celebrações, sejam pessoais, do grupo ou de ciclos da natureza, são uma forma de firmar nossa identidade (pessoal ou coletiva), honrando nossas origens e dando as boas vindas ao futuro. Celebrar as passagens e os ciclos nos permite ainda viver de maneira mais consciente da nossa história e das nossas escolhas e metas.

Além disso, essas celebrações das passagens e ciclos permitem que a pessoa assuma seus novos papéis e deixe os antigos com mais tranquilidade. O antropólogo francês Arnold Van Gennep (1873-1957) estudou ritos de passagem em diversos povos. Ele descreve ritos de gravidez e parto, infância, iniciação, casamento, funerais, entre muitos outros tipos de ritos. Após analisar esse material, Van Gennep concluiu que os ritos de passagem mexem profundamente com o ser humano, uma vez que encenam o processo de vida - morte - renascimento, ou seja, o rito de passagem nos dá a confiança necessária para assumir um novo papel (de adulto, de idoso/sábio, de pessoa casada, de mãe/pai, de guerreiro ou de profissional, etc.). Mais do que isso. Os ritos de passagem fazem com que o grupo nos reconheça no novo papel, facilitando as transições para todos. Já as celebrações de passagens da natureza ou de aspectos culturais, históricos ou religiosos do povo, fazem com que a pessoa se perceba enquanto parte de um todo, de algo maior que ela mesma, que vai além dela e a abraça. Sou parte deste povo e parte da natureza que me cerca. Isso traz o sentimento de pertença, de ser aceito como parte de algo maior que nós mesmos.

Para quais novos modos de vida as passagens que você
vivencia te conduzem?
Algumas sugestões para retomar esse contato com os ritos de passagem:
- Antes de tudo, tenha um olhar atento. Quais ciclos você percebe em si? Como lida com eles? E preste atenção também aos ciclos da natureza e como eles se mostram na região em que você vive. Você tem o costume de marcar essas passagens, ainda que de maneira simples?
- Quais são suas origens étnicas e/ou culturais? De que povo ou de quais povos você descende? Procure pesquisar sobre tradições e costumes desses povos. Que ritos de passagem (pessoais, culturais e ligados à natureza) esses povos tinham? Como é, por exemplo, uma cerimônia de casamento ou um funeral nesses povos? Quais as datas importantes e como as pessoas celebram? Sua família mantém essas tradições? Por que? Se não mantém, você gostaria de retomá-las, ainda que de forma adaptada ao seu modo de vida atual, como que numa releitura? Como poderia fazer isso?
- Não seja tímido, vamos celebrar! Quais momentos (pessoais, históricos, da natureza, culturais, mítico-religiosos, etc.) você gostaria de celebrar? E por que não começar agora? Planeje celebrações! Não deixe momentos especiais passarem em branco, dê cor à sua vida, reinvente-se! A celebração não precisa ser aquela super festa digna de povos antigos, com música típica, fogueira e tudo (mas se quiser e tiver condições, por que não?). Pode ser, por exemplo, uma refeição especial com pessoas queridas em que você menciona a intenção da celebração e conta aos presentes como se sente, o que espera, o que essa passagem significa para você...

Em nome da falta de tempo e da cultura de consumo (não só o consumo de produtos, mas de experiência, relacionamentos, etc.), fazemos com que momentos importantes se tornem "nada demais". Perdemos chances e mais chances de celebrar, de dar sentido à passagens fundamentais. Conforme retomamos essas celebrações e o contato com os ciclos (ou a visão da vida e do mundo como um conjunto de ciclos), a realidade ganha um colorido especial. Com as nossas próprias cores. E aí tudo vira motivo de celebração, pois colocamos nosso foco nas coisas "boas", no que faz sentido para nós. Ah, não precisamos nos limitar às celebrações de passagens mais óbvias. Por que não celebrar o primeiro dia de escola da sua criança, a mudança de emprego, a adoção de novas atitudes e hábitos, o fim de um tratamento, a chegada das férias o o retorno à rotina, etc.? Celebrar é uma forma de dizer a nós mesmos e aos outros que o fato que se passou é especial, pois faz parte da nossa história e de quem somos. A palavra "rito" significa a encenação de um mito. Pode ser coletivo ou pessoal. Honre quem você é, sua história e seu futuro. Celebre o seu próprio mito.

8 comentários:

  1. Nossa, eu não tinha visto esse artigo!
    Bem vamos ao que eu acho...
    Concordo 100% com você, Bia.
    E acho que o que está acontecendo não é só falta de tempo, é preguiça e banalização, assim como está acontecendo com muita coisa. Veja a música (?) funk. Falar sobre sexo está ok, mas ficar vandalizando a coisa, xingando a mulher de vagabunda... e pior, elas aceitarem!
    E sim, a perda do costume dos ritos nos deixa alienados, tem gente que nem sabe quando muda uma estação... e outras que acreditam que "estação do ano" é só um nome, que não tem efeito nenhum sobre nós........

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    1. Obrigada, Raquel! É bem isso mesmo, o mundo de hoje, focado no consumo enlouquecido, cria a cultura do descartável. E se é descartável, aparece a ideia de que está tudo bem fazer de qualquer jeito, as pessoas se perdem dos ciclos e delas mesmas. Mas se tem gente que não para pra ver nem os próprios ciclos (ciclo de sono, ciclo de fome/saciedade, ciclo menstrual...) a natureza é, para eles, um "detalhezinho". Pena!
      Falar de sexo acho ok, o problema é bem esse que você colocou, não falam, não são liberais de verdade, precisam ridicularizar o sexo e a mulher, ou seja, a sociedade continua sem saber lidar com isso. Maldizer a sexualidade é maldizer a vida. Triste mesmo.

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  2. Olá. Belo texto. Tem alguma sugestão para celebrar o aniversário de 07 anos de uma criança? Penso em um momento especial, uma pausa, dentro da festa. Obrigada.

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    1. Obrigada, Rogéria. 7 anos é uma idade especial. A criança já não é tão novinha, e começa a desenvolver um pensamento mais lógico e menos fantasioso. É também uma idade chave na aquisição de leitura e escrita. Uma sugestão: pouco antes do parabéns, alguém especial para a criança (os pais ou os avós, os padrinhos, tios mais próximos...) diz brevemente como é bom crescer e descobrir coisas novas, e lhe entrega um presente simbólico, como um diário ou um livro infantil. Lembre-se, não precisa ser algo caro, pois a beleza do ato está em seu simbolismo. Abraços e felicidades ao pequeno!

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