sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ágora - Como lidar com o estresse?

Tenho 46 anos, sou casado com uma mulher especial para mim e temos duas filhas de 7 e 5 anos que são maravilhosas. Eu trabalho numa multinacional e há alguns meses fui convidado a me transferir para uma das unidades da empresa em Nova York. Minha família no começo ficou resistente em deixar a vida no Rio e mudar de país, mas era meu sonho conseguir esta promoção e eles me acompanharam. A minha esposa se acostumou bem, tem suas atividades aqui e fez amigos. As meninas também adoraram a escola nova, como já estudavam num colégio internacional, não estranharam tanto. Mas eu, que sonhava com isso, me sinto mal e não posso contar para ninguém, porque o sonho era meu! Sinto falta do Rio eu acho, desde que passamos as festas de final de ano no Brasil e reencontramos amigos e parentes. Acordo com taquicardia e passei a ter gastrite, que antes eu não tinha. No trabalho está tudo bem, na família também, mas quando encosto a cabeça no travesseiro o que sinto é um grande vazio.
Paulo César - Nova York

Oi Paulo César.
Parece que você está passando por um grande quadro de estresse. Aliás, consigo identificar alguns pontos na sua fala. Um deles é aquele sentimento que acompanha todo imigrante, saudade das origens. É difícil mudar de país. Dói. Mesmo que seja pensando numa vida melhor. Comparo a situação de quem muda de país hoje aos imigrantes de ontem. Em muitas cidadezinhas, sempre que um imigrante partia, o sino tocava como se houvesse morrido alguém. Acho que esse simbolismo marca bem a dor da mudança. A dor de deixar tudo aquilo que conhecemos e amamos e entrar de cabeça numa outra realidade, que a gente não sabe como será. Por mais que volte para o lugar de origem em algumas ocasiões, aquela já não é mais a nossa casa. Não fazemos mais parte daquele lugar, apenas de seu passado, e tomar consciência disso dói. Quando alguém muda de país ou de estado que seja, o lugar de origem ganha o status de uma terra mítica, o lugar de nossas origens que não está aqui nem agora, e só pode ser alcançado em algumas raras ocasiões... Certa vez uma paciente minha que vivia em São Paulo e havia vindo com a família do Ceará há pouco tempo me disse uma coisa muito sábia. Quando a saudade da terra natal apertava muito, esperavam um final de semana e faziam um dia típico. Ouviam músicas regionais, faziam pratos típicos, contavam lendas e histórias que vivenciaram ligadas à terra de origem. "Não é como estar lá, mas é um jeito de estar entre lá e aqui", disse essa pessoa, com muita razão.

Outro ponto que percebo em seu discurso é a culpa. Sempre sonhou com a promoção e quando ela vem e a família muda a vida toda apostando em seu sonho, como dizer a eles que não se sente realizado? Difícil. Nem sempre as escolhas mais lógicas são as que nos deixariam felizes. Muito provavelmente esta culpa é um dos fatores principais que te levaram a essa situação de grande ansiedade e estresse. O estresse aparece quando o conflito entre a vida sonhada e a realidade fica duro demais para ser suportado. Ao contrário do que muitos pensam, estresse não é necessariamente um mal de pessoas com a vida agitada. Eu conheço, e acho que você e os demais leitores também devem conhecer, pessoas cheias de atividades e que não são estressadas. O estresse vem dos conflitos. Dificilmente sonhos e realidade coincidem por inteiro. Precisamos encontrar o possível. Abrir na agenda corrida pequenos espaços de respiro. Resgatar a si mesmo. Recuperar-se, em todos os sentidos da palavra. 

Algumas estratégias para lidar com o estresse:
- Expresse o que sente. Pode ser falando, escrevendo, através de artes e até se permitindo chorar quando sentir vontade. As "lágrimas" que não caem fora de nós, caem lá dentro. E quando isso acontece, machuca muito. A raiva que não sai, nos queima por dentro (na forma de gastrite, por exemplo).
- Pratique exercícios físicos. Eles ajudam a controlar o cortisol, hormônio ligado ao estresse, além de liberar uma série de outras substâncias ligadas ao bem estar e à saúde.
- Mantenha uma alimentação equilibrada. O que comemos e a forma como comemos (com pressa, com calma, mastigando bem ou mal, em momentos de raiva, etc.) interferem sim na nossa saúde física e psíquica.
- Tome sol. Não estou dizendo para fritar... apenas tome alguns minutos de sol, há diversos estudos que comprovam que o sol, ou melhor a falta dele e da vitamina D (que nosso corpo produz ao tomarmos sol), pode estar relacionada a sintomas de depressão e ansiedade/estresse, além de outros transtornos.
- Mantenha uma rotina equilibrada. O dia precisa ter tempo para tudo, trabalho, diversão, momentos agradáveis com a família e amigos... De que adianta cumprir os compromissos da empresa e não cumprir os compromissos consigo mesmo? Veja sobre a importância das rotinas aqui.
- Faça pequenas pausas de tempos em tempos. Nosso cérebro funciona melhor com elas.
- Meditação pode ajudar muito, mesmo que apenas alguns minutinhos. Estudos comprovam alterações na ativação de genes ligados a saúde após poucos minutos de prática, e mudanças positivas na estrutura cerebral após 8 semanas de prática contínua. Veja mais sobre meditação aqui.
- Tenha momentos de lazer. Faça atividades que te façam sorrir. Passeie, cuide do jardim, faça esporte, seja o que for, o importante é ter atividades além do trabalho e das obrigações diárias. Atividades que nos lembrem que a vida não é apenas cumprir tarefas.

Ah! Não deixe de procurar psicoterapia. Em casos graves de estresse, quando distúrbios psicossomáticos começam a se manifestar (como a gastrite e a taquicardia, entre outros), ajuda profissional é fundamental!

beijo,
Bia F. Carunchio

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4 comentários:

  1. Bia só uma pequena erratinha no seu texto, o corpo não produz vitamina D com a exposição ao sol, ele fixa a vitamina D que consumimos nos ossos com a ação do sol! ^^

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    1. Muito bem lembrado!! O sol tem sido usado como aliado no tratamento de transtornos mentais (de depressão a distúrbios do sono) por cada vez mais profissionais de saúde mental, seja pela fixação da vitamina D, seja pela luminosidade, que interfere diretamente em aspectos como o nosso relógio biológico e o "ritmo" de vida que levamos. Obrigada pela correção.
      Beijo

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  2. Belos conselhos Bia.

    Mudar é complicado.
    São vários fatores.
    Acho que ele deveria ter ido na frente.
    Eu fiz isto uma vez e foi acertado.

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    1. Disse bem, Claudio. Mudar é complicado, em todos os sentidos. Outra vez em todos os sentidos, precisamos de muito planejamento e de um bom mapa que nos ajude a descobrir para onde vamos.

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